Dessa vez, o caroço foi longe. Caroços caem como bailarinos não sabem. Devo ser a mãe de muitas árvores, pois o infinito acontece quando eu me retiro. Então, quando a feira acabar, seguirei os meus passos de pés gigantescos até me esquecer, para sempre, desse caroço caído no chão. Vou me sentar em frente àquela janela e recomeçar o meu trabalho, sem sequer me lembrar que a terra continuará o dela. Seguirei a minha vida como se não fosse a culpada por tantas árvores de maçã. Passarei por elas como se sempre estivessem ali, talvez, eu pisando e esmagando os brotos de outrém. Para mim, é apenas a fotografia de um caroço jogado na terra, vista por um gigante velho, de vestido roto. Mas se brotar, Gulliver, se brotar, serei apenas um tronco, envelhecido e ingrato, descansando no meio da sombra. Eu gosto de andar pelas ruas de Santo André e pelas ruas de são tão lindas. Eu gosto das cidades em terceira pessoa do plural, mas vou me mudar para a cidade de Somos Paulo, onde todos têm o mesmo nome e todos se dizem bom dia. O menino veste uma calça comprida, um olhar esmurrado e traz uma maldade no peito, como um broche de flores feridas e pétalas não cicatrizadas. Disse o pingüim dessa casa que o medo guardado fora da geladeira apodrecia em maldade de medo. Essa é a que se espalha pelo seu corpo, sem que você perceba, e faz com que se afaste de outras pessoas. Longe, não consegue entender o motivo delas. E nem elas, o seu. Mas o seu coração continua numa bondade que ninguém mais entende e, então, chamam aquilo de maldade. Assim era o menino, tentando ser bom, a sua maneira. Agora há pouco, por exemplo, ficou parado no meio da rua, olhando o cachorro pulguento. Os olhos fundos daquele cachorro, que sabia enxergar o fundo da gente. O menino quis voltar para casa. O cachorro foi atrás. O menino parou. O cachorro parou, sentou-se e inclinou a cabeça. O menino voltou a andar. O cachorro acompanhou. Quando o menino virou para trás, chutou a cara do cachorro, para que não esperasse o amor que ele podia dar. E, mesmo assim, o menino tem olhos de esperanças. As pessoas más são as que mais têm esperanças no mundo. Só quem reconhece a própria maldade sabe que, no escuro da noite, um travesseiro é incapaz de abraçar. Quando o menino cresceu e apanhou do ladrão, apanhou e apanhou, ergueu os olhos machucados e disse: agora você pode me matar, agora você pode chutar a minha cara, mas uma coisa eu sei, eu sei que você não era assim, eu sei que você era só um menino abraçado às pernas da sua mãe. O ladrão engoliu dois goles de raiva e saudade, talvez de um tempo que não era oco de mãe, talvez dos sonhos de futebol, ele agora um homem chutando as pedras, sozinho no gramado, a mãe com vergonha dele. E só agora, olhando a maldade lá fora, eu enxergo o meu rosto refletido no vidro. O ladrão não está sozinho. O menino não está sozinho. Paulo não está sozinho. A noite é uma coreografia de condenados, dançando e rolando na cama, com o travesseiro incapaz de abraço. Então, a maldade é isso? A maldade é esse que chora, sozinho, a sua mão cheia de espinhos? Se a maldade for isso, se for esse desamparo e essa solidão, esse medo que. O ladrão acerta o seu primeiro golpe. O soco desliza sobre a boca de Paulo, em câmera lenta, enquanto gotas de sangue flutuam no ar. Os antebraços tentam forjar as verdades, na frente do rosto, mas o ladrão atinge o estômago. O corpo de Paulo encurva-se para a frente, abraçando o vazio de um desamparo. Paulo ergue os olhos machucados e diz: agora você pode me matar, agora você pode chutar a minha cara, mas uma coisa eu sei, eu sei que você não era assim, eu sei que você era só um menino, abraçado às pernas da sua mãe. O ladrão engole dois goles de raiva e saudade, talvez de um tempo que não era oco de mãe, talvez dos sonhos de futebol, ele agora um homem chutando as pedras, sozinho no gramado, a mãe com vergonha dele. E só agora, olhando a maldade lá fora, eu enxergo o meu rosto refletido no vidro. O ladrão não está sozinho. O menino não está sozinho. Paulo não está sozinho. No meio da rua, Paulo e os violentos, Paulo e os condenados. Paulo e os ignorantes de amor. Todos no chão, encolhidos e ajoelhados, como sementes de pedra daninha, incapazes de brotar. Ao lado de fora, uma árvore cresceu para cima enquanto uma rua se deitou. Há uma página de um livro sendo pisada no meio da calçada, enquanto o jornal tenta voar, pendurando-se no vento. O jornal pousa em triângulo sobre a terra, do mesmo jeito que Paulo tenta levantar o corpo, esmurrado pelo ladrão. Depois de um dia inteiro enrolando bananas na feira, é claro que o jornal acreditaria no mendigo, dizendo que o asfalto é só uma noite dura e sem estrelas. O dia dormindo em trapos remendados de sol, enquanto a noite faminta arranca os sonhos com as mãos. Mais outro dia derreado pela noite e aquele homem quem será. Aquele, que um dia foi menino a dormir no ventre da mãe e hoje é mendigo, a dormir curvado do frio, na posição do feto que um dia foi. E, agora, tão encolhido que o vento não haveria de encontrá-lo ali. Era só fingir-se de morto, porque os mortos, sem ao menos respirar, enganam o frio, o vento e a fome. As bananas da feira sendo enroladas pelas histórias de Paulo. Um cachorro expulsando pulgas sobre as histórias de Paulo. O estômago do mendigo gargalhando sob as histórias de Paulo. O ladrão limpando o cocô do sapato sobre as histórias de Paulo. E eu acariciando o jornal. O menino levanta um aviãozinho porque não sabe que o ódio explode em bombas, chamas de fogo num vermelho voar. Como os pássaros vão entender? Como os pássaros vão suportar voar outra vez? O caraço no meio da feira não viu a flor sufocada nas pedras. E a flor não sabe que da terra também o ódio se explode em campos minados, onde menos se espera, onde menos se pisa. Como as sementes vão entender? Como as sementes vão suportar brotar outra vez? O soldado pegou a arma lentamente. Segurou-a entre as mãos e abriu os olhos, na esperança de que fosse um girassol. Mas sementes ao reverso plantavam a morte no peito do outro e, por isso, ele calou. O inimigo caiu no chão e levantou a mão com os dedos abertos. Um pedaço de braço tentando brotar do chão estéril e murchando em seguida, com os últimos raios de vida. Eles, completamente estranhos, já eram inimigos. O girassol apontado para o céu. Da boca. E foi então que dois meninos, de cabelos reluzentes, entraram correndo pelos campos concentrados de flores. Duas armas de plástico, compradas na feira, explodiam em tiros ao som da bochecha e eles se arrastavam pelo chão. Escondido atrás da barraca de peixes estendidos, o menino pegou a arma lentamente. Segurou-a entre as mãos e abriu os olhos, na esperança de que fosse de verdade. Mas era. Agora você pode me matar, disse o menino crescido, agora você pode atirar na minha cara, mas uma coisa eu sei, eu sei que você não era assim, eu sei que você era só um menino, abraçado às pernas da sua mãe. A mãe com os olhos de fúria, com as mãos na garganta do menino. Pétalas enfeitando o seu cabelo, pétalas caindo por toda parte, até que a mãe precise de suas mãos para costurar a manta que vai aquecer o menino. Ela cobre o menino até o pescoço e beija a sua face, acaricia a sua barriga esperando o menino chegar. Sua mãe como um anjo brilhando entre as pétalas que curam o pescoço ferido do menino. O menino tira as mãos da mãe do seu pescoço. Eles precisam juntos brincar de passa-anel, rindo até a brincadeira acabar. Quando a brincadeira acaba, a mãe aperta mais um pouco o pescoço dele, aperta, aperta, até que aperte tão forte que os braços fiquem com vontade de abraçar e, assim, a mãe pára de enforcar o menino porque os seus braços abraçam. Um abraço tão bom que o menino nem se lembra mais das mãos em seu pescoço. Ele, que nasceu direto do coração da sua mãe, agora jaz sobre a terra, em companhia de um caroço de maçã. Essa é a cidade de Somos Paulo, onde todos têm o mesmo nome e todos se dizem bom dia.
Por Rita Apoena