domingo, 18 de janeiro de 2009

Pontuando a vida...

Diz-se - não se sabe se com razão - que Deus escreve certo por linhas tortas. Oras, esta é uma idéia que corrobora, complementa, vem ao encontro, municia etc a idéia de que tudo está escrito.

Se tudo está escrito, o livre-arbítrio é uma balela! Aceitar isso é simplesmente cruzar os braços e esperar o abraço da Dona Morte!

Tomo para mim - se não me for dado, tomo do mesmo jeito - que me cabe ao menos pontuar o que está sendo escrito; a pontuação pode não alterar as palavras, mas tem o poder de alterar significados, idéias expressas. Metaforicamente, funciona como o rio: a água seriam as palavras - algumas vindas do céu em forma de chuva - e a pontuação o leito, que indica a direção tomada.

Há momentos da vida em que, no meio de um turbilhão incessamente de acontecimentos, é preciso uma breve folga - eis o hora da vírgula, uma breve pausa para respirar. Em outros, exige-se um tempo maior de fôlego e até reflexão, aí cabe um ponto-e-vírgula, que não é uma fuga.

Haverá outros momentos em que as coisas ficam muito complicadas e é preciso explicá-las melhor - esta é a hora dos dois-pontos ou do travessão. Estes dois indicam também um diálogo, o que também é essencial para o esclarecimento das coisas.

O mais complicado de todos talvez seja o ponto: ele serve para indicar o fim de um período, de uma breve idéia. Acontece que o que vier depois não será algo a começar totalmente do nada, sem qualquer vínculo com o que veio antes, pois isso seria uma falta de nexo, um anacoluto.

Por vezes, a vontade é de colocar um ponto final num assunto, numa fase, porém isso é ilusão: em todo texto coerente, há sempre uma, ainda que tênue, continuidade. Um ponto final pode ser apenas o marco para o início de um novo parágrafo, mas não o fim de tudo, pois a vida (texto) continua. Esse ponto final é uma ilusão. Há somente um ponto final, entretanto este não nos é dado utilizar.

É por tudo isso que atualmente fico em reticências: elas não marcam necessariamente uma pausa ou um fim. Quando se usam reticências, fica indicado que a idéia escrita continua, mas por outra via, desconhecida, que não a das palavras, uma via subjetiva à análise do leitor.

"As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho" (Mário Quintana)

"I know not what tomorrow will bring" (Fernando Pessoa)

Não se sabendo o que virá, mas indo ao seu encontro, as reticências são a melhor forma de pontuar a vida... Seguindo por elas, talvez se encontre um caminho que nos fará evitar o Ponto Final...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Cego sou eu

Esperava o ônibus no fim de tarde para voltar ao lar quando chega um senhor de bengala de metal e óculos escuros e pede:

- Pode me avisar quando passar o ônibus que vai pra Rodoviária?

Não demora muito, o tal ônibus vem. Uma moça diz-lhe:

- É esse ônibus aí.

O ônibus pára um pouco além do ponto. Quem embarca primeiro é uma senhora idosa. Depois, sem a ajuda de ninguém e sem tocar no ônibus, o senhor "adivinha" onde é a porta e sobe.

Fiquei impressionado com a cena e pus-me a deduzir como tivera feito para saber o local certo onde estava a porta:

1 talvez tenha calculado pelo barulho do ônibus, logo após passar a seu lado, o quanto se deslocou; como deve pegar muitos ônibus talvez já lhe seja natural sabe tal distância;

2 ele pode ter seguido em direção à porta e percebidoo som do embarque da primeira senhora onde estava a porta;

3 o motorista pode ter-lhe dito algo - improvável porque nada escutei.

De qualquer forma, foi totalmente impressionante esse corriqueiro fato de um simples dia. Mais impressionante ainda é o fato de impressionar-me com isso, ou seja, com o potencial oculto que as pessoas têm e fica mais oculto em função dos preconceitos que se tem do que pela dificuldade em si de perceber...

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Os potenciais escondidos

O que se vê de qualquer pessoal são as coisas que ela faz e não o que consegue fazer. O verdadeiro potencial de alguém nunca - ou quase - chega aos olhos do mundo, tanto para o bem quanto para o mal. Isso quer dizer que uma pessoa pode ser tanto mais bondosa ou cruel do que demonstra.

(Analogamente, uma árvore não é só o que está sobre a terra: suas raízes estão sob ela, e é onde de fato encontram-se suas forças para poder crescer)

Será que valeria a pena que esses pontenciais, tanto bons como maus, viessem à tona?

Provavelmente sim.

Quando se vê o mundo tal qual está, a maneira egoísta como as pessoas agem, é muito menos improvável que as coisas piorassem além do que já estão.

O que fazer para usar os potenciais de cada um?

É lógico, claro, evidente, de conhecimento público que as pessoas não saem por aí matando umas às outras por causa das "leis morais", "regras de convivência em sociedade", dentre outros nomes que se podem conferir a tal "coisa". O que evita o "pior" também evita o "melhor", pois a invisível coerção que mantém a sociedade existindo é o que inibe o potencial de cada um. Está certo quem escreveu que o homem é mais forte quando está sozinho - provavelmente Ibsen.

Seria muita bem-vinda uma "onda de libertação" que levasse as pessoas a vencerem as amarras que prendem seus potenciais e promover verdadeiramente uma revolução.

Se isso não ocorrer - é o menos improvável que aconteça - fique-se então com a seguinte animadora: quando se vir qualquer pessoa, que se tenha em mente que ela está (muito) além do que se vê, é um ser inacabado, um microcosmo em crescimento.