sexta-feira, 24 de abril de 2009

Chance única

Existe uma frase atribuída a Clarice Lispector que diz:

"Ninguém é eu, ninguém é você. Esta é a solidão"

O fato de nunca ter visto a frase em seu contexto dificulta saber o que escritora, caso seja ela mesma a autora, quis dizer.

Tomada em si, a frase é tendenciosamente encarada como algo triste, e isso se baseia no "eterno" sentimento de incompreensão que todo mundo sente ao relação ao mundo e vice-versa - "não entendo o mundo, que também não me entende".

Não o ponto de chegada mas o de partida de tudo é a existência de alguém que compreenda o indivíduo de tal modo que ele sempre se sinta protegido e amparado. Não convém pensar se este mesmo indivíduo terá a mesma capacidade com relação ao outro. E, se nem isso podem, como aspirarem à famosa "junção de almas", o retorno à unidade de uma alma separada antes da vida em duas, as almas-gêmeas?

Se ninguém pode ser o indivíduo além dele próprio, isso implica numa chance intransferível que ele tem: somente ele pode ser ele-próprio!

Óbvio? Desnecessário? Sim e não: sim na medida em que é óbvio por ser simples e não em razão de fugir da compreensão das pessoas que procuram foram o que não veem dentro.

Em resumo: solidão é a chance de ser você mesmo!

sábado, 11 de abril de 2009

Um sábado de Páscoa

Como um hábito que há muito não fazia, separei muitas das roupas que não uso mais e levei-as para que minha mãe encaminha-se à igreja ou a alguma instituição.

Por já estar de saída para fazer compras, ela sugeriu que doássemos as roupas para um senhor que sempre ficava perto do metrô Parada Inglesa, sempre mal vestido, com a barba por fazer, causando-lhe pena...

Chegando perto do local, minha mãe avista-o de longe, pára o carro e desço para entregar a sacola. Pelo fato de não o ter visto, saí andando à procura no meio do gramado e das árvores que ficam entre os trilhos e a biblioteca do bairro. Primeiro subi o morro a nada. Depois desci e nada de novo. Até um senhor que passava por lá, "conhecia" o tal senhor, indicou por onde costumava andar, mesmo assim nada do dito.

Voltei ao carro e demos mais uma volta até revê-lo.

Desta vez, não o perdi de vista e fui até ele, ainda com a incerteza quanto à abordagem. Não me viu chegar perto, pois via, entre as grades altas, o trilho do metrô e talvez esperasse a passagem de uma composição... Utilzei a abordagem mais simples que conheço - "boa tarde! tudo bem?" - e esperei uma reação, que não houve, exceto por um olhar desconfiado e um silêncio. Estendi-lhe a sacola e perguntei se queria ajuda. Respondeu com um movimento negativo de cabeça e voltou a olhar para os trilhos. No desconcerto do momento, somente restou-me afastar e respeitar sua vontade.

Passado um certo tempo, pensando a respeito, é claro que as pessoas que estão na ruas têm necessidades como quaisquer outras, porém não é correto pensar que tenham mais que as outras. Existe também a vontade das pessoas: nem tudo acontece simplesmente porque elas querem, nem tudo foi motivo de suas escolhas, contudo nada passa sem sua percepção e "consentimento". Se a vontade daquele senhor era estar sozinho, não querendo ajuda ou intromissão, por mais estranho que seja aos olhos convencionais, que assim seja. Maldita mania que temos de ver falta em tudo...

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Tudo pelo Tricolor...

Quinta-feira, 5h40min, hora de acordar e ir pra natação. Antes disso, já começa a arrumação de malas.

Entre 6h15min e 7h05min, nadar...

Depois disso, banho, café, mais correria pra arrumar malas, dar um jeito nas coisas e ir pro trabalho. Atraso de 30 minutos: 8h e meia ponto marcado.

Como sexta seria feriado, o café do setor foi antecipado, então dá-lhe sair correndo atrás das frutas que são minha incumbência. Depois de lavar tudo e deixar na bandeija, vamos ao trabalho propriamente dito.

Muita coisa pra fazer, nada que seja resolvível, estresse, desânimo...

Até que chegam as 10h: hora de sair para o aeroporto, tomar um vôo pra Sampa!

Às 11h45min, sai o avião chegando às 13h30min. Depois mais 1h30min de ônibus até a casa dos pais - demora mais pra cruzar Sampa de busão que atravessar mil quilômetros de avião.

Como o jogo era às 19h e queria chegar cedo, teria que sair ainda mais cedo para cruzar a cidade de novo e ir ao Morumbi. Vamos nessa!

Pelo fato de estádio de futebol não ser um lugar dos mais seguros, saí de casa somente com o necessário: documento, ingresso, manto sagrado e grana mínima para eventualidade e uma sandália pra não chamar a atenção.

O problema começou no metrô: noto que saí sem o Bilhete Único, o que me permitiria pegar ônibus e metrô sem pagar; a quantia presente no bolso dava somente para comprar dois bilhetes de metrô - ida e volta. Foi o que fiz...

Na ida, o problema foi um pouco menor, pois era possível fazer baldeação com trem e descer na Marginal Pinheiros, tendo que andar até o Morumbi - cerca de 5 km (conforme este link) - em cerca de 45 minutos num ritmo absurdo e de sandália.

Durante o jogo, foi um sofrimento só: o time errava passes e, num sistema 4-4-2, em que os meias devem fazer o time ir pra frente, os meios inexistiam. A torcia até que apoiava, porém não como deveria, e o time estava apático: Jean errava muitos passes no meio, Arouca nem marcava nem se apresentava à frente, JW e Hernanes omissos; somente Washington, lutador, e Borges, no pivô, tentavam algo diferente em campo.

Para piorar, somente algo que meus olhos jamais deveriam ver: uma falha grotesca, imperdoável, ridícula do maior goleiro do mundo, Rogério Ceni:



No segundo tempo, o time, bem como a torcida, acordou e a inevitável virada ocorreu. Gritei muito, joguei-me ao chão com chances perdidas e foi uma catarse - sem qualquer exagero.




Mesmo durante a emoção do jogo, já imaginava a volta e o tanto que teria de andar, e os pés já estava doendo...

Findo o jogo, começo a caminhada pela noite de São Paulo. Foi cerca de uma hora de caminhada até o metrô em ritmo muito forte novamente, porém com uma dor forte na sola dos pés, onde se formavam bolhas. Segundo Google Maps, foram 8,5km de caminhada. Embora andasse rápido, não tinha como deixar de ver a apreciar a linda lua cheia que brilhava no alto do céu - obviamente reflexo da Páscoa, sempre comemorada no primeiro domingo de plenilúnio após a chegada da primavera no Hemisfério Norte.

O jogo acabou depois das 21h, cheguei em casa pouco depois das 23h, cansado, com dores no pé, mas com a vibração tricolores ainda ressoando forte em mim...