sábado, 11 de abril de 2009

Um sábado de Páscoa

Como um hábito que há muito não fazia, separei muitas das roupas que não uso mais e levei-as para que minha mãe encaminha-se à igreja ou a alguma instituição.

Por já estar de saída para fazer compras, ela sugeriu que doássemos as roupas para um senhor que sempre ficava perto do metrô Parada Inglesa, sempre mal vestido, com a barba por fazer, causando-lhe pena...

Chegando perto do local, minha mãe avista-o de longe, pára o carro e desço para entregar a sacola. Pelo fato de não o ter visto, saí andando à procura no meio do gramado e das árvores que ficam entre os trilhos e a biblioteca do bairro. Primeiro subi o morro a nada. Depois desci e nada de novo. Até um senhor que passava por lá, "conhecia" o tal senhor, indicou por onde costumava andar, mesmo assim nada do dito.

Voltei ao carro e demos mais uma volta até revê-lo.

Desta vez, não o perdi de vista e fui até ele, ainda com a incerteza quanto à abordagem. Não me viu chegar perto, pois via, entre as grades altas, o trilho do metrô e talvez esperasse a passagem de uma composição... Utilzei a abordagem mais simples que conheço - "boa tarde! tudo bem?" - e esperei uma reação, que não houve, exceto por um olhar desconfiado e um silêncio. Estendi-lhe a sacola e perguntei se queria ajuda. Respondeu com um movimento negativo de cabeça e voltou a olhar para os trilhos. No desconcerto do momento, somente restou-me afastar e respeitar sua vontade.

Passado um certo tempo, pensando a respeito, é claro que as pessoas que estão na ruas têm necessidades como quaisquer outras, porém não é correto pensar que tenham mais que as outras. Existe também a vontade das pessoas: nem tudo acontece simplesmente porque elas querem, nem tudo foi motivo de suas escolhas, contudo nada passa sem sua percepção e "consentimento". Se a vontade daquele senhor era estar sozinho, não querendo ajuda ou intromissão, por mais estranho que seja aos olhos convencionais, que assim seja. Maldita mania que temos de ver falta em tudo...