terça-feira, 25 de dezembro de 2007
A árvore que floresce no inverno
Viriam então a tristeza, as árvores peladas, a vida recolhida para funduras mais quentes, os pássaros já ausentes, fugidos para outro clima, e aquele longo sono da natureza, bonito quando cai a primeira nevada, triste com o passar do tempo...
Resolvi passear, para dizer adeus às plantas que se preparavam para dormir, e fui, assim, andando, encontrando-as silenciosas e conformadas diante do inevitável, o inverno que se aproximava.
E foi então que me espantei ao ver um arbusto estranho. Se fosse um ser humano, certamente o internariam num hospício, pois lhe faltava o senso da realidade, não sabia reconhecer os sinais do tempo.
Lá estava ele, ignorando tudo, cheio de botões, alguns deles já abrindo, como se a primavera estivesse chegando. Não resisti e, me aproveitando de que não houvesse ninguém por perto, comecei a conversar com ele, e lhe perguntei se não percebia que o inverno estava chegando, que os seus botões seriam queimados pela neve naquela mesma tarde.
Argumentei sobre a inutilidade daquilo tudo, um gesto tão fraco que não faria diferença alguma. Dentro em breve tudo estaria morto...
E ele me falou, naquela linguagem que só as plantas entendem, que o inverno de fora não lhe importava, o seu era um ritmo diferente, o ritmo das estações que havia dentro.
Se era inverno do lado de fora, era primavera lá dentro dele, e seus botões eram um testemunho da teimosia da vida que se compraz mesmo em fazer o gesto inútil.
As razões para isso? Puro prazer. Ah! Há tantas canções inúteis, fracas para entortar o cano das armas, para ressuscitar os mortos, para engravidar as virgens, mas não tem importância, elas continuam a ser cantadas pela alegria que contêm...
E há os gestos de amor, os nomes que se escrevem em troncos de árvores, preces silenciosas que ninguém escuta, corpos que se abraçam, árvores que se plantam para gerações futuras, lugares que ficam vazios, à espera do retorno, poemas inúteis que se escrevem para ouvidos que não podem mais ouvir, porque alguma coisa vai crescendo por dentro, um ritmo, uma esperança, um botão pela pura alegria, um gozo de amor.
E me lembrei de um pôster que tenho no meu escritório, palavras de Albert Camus: "No meio do inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível".
E aí a alucinação teológica tomou conta da minha cabeça e me lembrei de uma velha tradição de Natal, ligada à árvore. As famílias levavam arbustos para dentro de suas casas.
E ali, neve por todas as partes, elas os faziam florescer, regando-os com água morna. Para que não se esquecessem de que, em meio ao inverno, a primavera continuava escondida em alguma parte.
Inverno: o frio, a neve, o silêncio, a morte.
Quando as plantas florescem na primavera, ali os homens escrevem os seus nomes. Mas quando as plantas florescem no inverno, ali se escreve o nome do Grande Mistério... (Alves, Rubem - Folha de São Paulo - 25/12/2007)
domingo, 23 de setembro de 2007
A chegada da Primavera
Num dos poemas que escreveu sobre a Primavera, diz Caeiro:
"Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real."
Sim: "há as flores, novas folhas verdes, há outros dias suaves" - e num dia suave como hoje, vi muitas flores, mas bastou apenas ver a mais especial delas novamente que sei que a Primavera chegou...
quarta-feira, 12 de setembro de 2007
Além da Razão
(...) O último passo da razão é o de reconhecer que existe uma infinidade de coisas que a ultrapassam; se não chegar a isso, é porque é fraca."
Blaise Pascal, in "Pensamentos"
sábado, 8 de setembro de 2007
Solstício...
Mesmo que alguém tende dele se esconder na sombra de um muro alto em fechado sem aberturas, ele o alcançará porque hoje é um eterno meio-dia...
Cores, antes pensadas como extintas, reaparecem como nunca outrora tiveram sido vistas, e um colorido novo e inegualável se lança por onde a vista renascida e renovada possa buscar... E busca, porque o Sol brilha mais do que em qualquer outro dia...
Só dele se oculta a semente que germina em segredo no solo, mas que sente seu calor e já o conhece há tempos...
terça-feira, 28 de agosto de 2007
Terra Natal
É longe de todo e - sobretudo - longe de todos que a semente plantada no solo deve tirar as forças para tornar-se algo em si, para ultrapassar a mais tênue dos limites que pode haver: o Nada e a Vida. Deve encontrar no Nada, aquilo que está-além e em nenhum outro lugar. Tem que varrer e transbordar sua solidão para que vivifique e transborde a dimensão do caos, pertutbe o Universo - a imensa vontade que o rege e é tão crível quanto alcançável...
E lá, e so lá, que pode estar - somente lá...
terça-feira, 24 de julho de 2007
Um novo caminhar
Outro: move-se lentamente, procurando no chão pelo chinelo que perdeu e com o outro nas mãos...
Comum aos dois: o chuvisco constante que cai no começo da noite... mas é para:
Um: uma breve distração que lhe alivia um pouco seus pequenos problemas que dominam seu pensamento...
Outro: talvez mais uma agrura das muitas que já enfrenta todos os dias nas ruas...
Mas Um tem sua atenção chamada pelo choro do Outro, que quer saber onde está o outro chinelo que lhe falta - o outro carrega nas mãos e nada fica em seus pés, entregues ao chão molhado. O choro do Outro não era desses "comuns" (não existem choros comuns): tinha um quê de gutural, de quem parece não estar acostumado ou não sabe chorar.
Um pára, responde ao Outro que não viu qualquer chinelo ali por perto e segue alguns passos adiante com seus passos apressados. O choro mais alto do Outro e a história do homem que reclamava por estar descalço até que conheceu o homem que não tinha pés pararam Um. Voltou, aproximou-se do Outro, esperou que um Terceiro, a quem o Outro também perguntou pelo chinelo, passasse, tirou os sapatos e ofereceu-os ao Outro, que recusou a princípio, talvez por não acreditar, mas se deu conta da oferta, e aceitou.
Um: calado, virou-se e seguiu caminhando, sentindo sob os pés o chão há muito desconhecido para esses mesmo pés...
Outro: pegou os sapatos nas mãos e trocou o choro por um riso bastante alto e grave que se fazia de longe...
Um: estranhava a si mesmo pela repentina atitude, mas não buscava explicações para não recair na vaidade que costuma aflorar em tais situações; nem mesmo buscava no rosto das pessoas com que cruzou no ônibus a percepção ou a reação que se tem a alguém vestido socialmente que aparece descalço...
Mais importante que tudo isso era a chuva que caía e entrava na terra, que guardava a semente que continua na sua luta pra nascer...
sábado, 21 de julho de 2007
Preocupante futuro
Achei engraçado a princípio, mas depois me toquei da distorção social contidas naquelas palavras, mesmo - e principalmente - sendo ditas por uma criança.
Hoje no metrô, desce um monte de gente na Sé e um outro monte sobe. Ao ver um banco cinza, reservado para gestantes, pessoas idosas, com criança de colo e com dificuldades de locomoção, uma menininha sentou-se lá inocentemente. Uma outra chegou e disse-lhe: "Sai daí que é lugar pra gente doente".
Preocupante o nosso futuro...
sábado, 14 de julho de 2007
Favola
E
raccontano che lui si trasformò
in albero e che fu
per scelta sua che si fermò
E stava lì a guardare
la terra partorire fiori nuovi
Così
fu nido per conigli e colibrì
il vento gl’insegnò i sapori
di resina e di miele selvatico
e pioggia lo bagnò
La mia felicità - diceva dentro
se stesso - ecco ... - ecco ...
l’ho trovata ora che
ora che sto bene
e che ho tutto il tempo per me
non ho più bisogno di nessuno
ecco la bellezza della vita che cos’è
Ma un giorno passarono di lí
due occhi di fanciulla
due occhi che avevano rubato al cielo
un po’ della sua vernice
E sentì tremar la sua radice
Quanto smarrimento
d’improvviso dentro sè
quello che solo un uomo
senza donna sa che cos’è
e allungò i suoi rami
per toccarla
Capì che la felicità
non è mai la metà
di un infinito
Ora era insieme luna e sole
sasso e nuvola
era insieme riso e pianto
o soltanto
era un uomo che cominciava a vivere
ora
era il canto che riempiva
la sua grande immensa solitudine
era quella parte vera
che ogni favola d’amore
racchiude in sè
per poterci credere
sexta-feira, 13 de julho de 2007
Uma nova chance...
"Vá, você está livre. Pode ir."
E transbordam as interrogações na alma anteriormente condenada. A total incerta liberdade concedida que não se sabe como levar, aonde vai levar, como segui-la, para onde, pois somente se disse "Pode ir".
Só há diante de si a vida. Uma vida que traz em si o peso de não ser merecida, o peso de substituir uma punição necessária, o peso de não exigir a punição merecida e necessária, o peso de aceitar passivamente e tacitamente essa nova vida, o peso de fazer dela, mais que qualquer outra que se recebesse, algo digno de um valor irrisório que seja...
quinta-feira, 12 de julho de 2007
Hora da estrela
"Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo."
À medida que chega a hora da morte para uma estrela, este é o momento em que seu brilho aumenta até o máximo.
Já passou da hora de queimar tudo, de ficar mirando estrelas que despencarão da abóboda celeste um dia. O fogo deve consumir tudo para que nada reste e então surja uma verdadeira estrela purificada que se eleve alto, que rasgue o infinito cada pulsar ínfimo de seu interior.
E se converta nas linhas seguintes que Pessoa escreveu...
terça-feira, 10 de julho de 2007
A véspera...
O último olhar do condenado não é nublado sentimentalmente por lágrimas
nem iludido por visões quiméricas.
O último olhar do condenado é nítido como uma fotografia:
vê até a pequenina formiga que sobe acaso pelo rude do verdugo,
vê o frêmito da última folha no alto daquela árvore, além...
Ao olhar do condenado nada escapa, como ao olhar de Deus
— um porque é eterno,
o outro porque vai morrer.
O olhar do poeta é como o olhar de um condenado...
como o olhar de Deus... "
Amanhã terei a possbilidade de atestar a veracidade do que escreveu Quintana...
segunda-feira, 9 de julho de 2007
Sobre a verdade...
Franz Kafka, in 'Conversas com Kafka'
Brilhante o texto de Kafka. A ele nada devo acrescentar.
O foco deste post cairá pretensamente sobre como alcançá-la. (De fato, é muita pretensão que se conheça a resposta a que muitos tentaram chegar aos longo de séculos e nunca o fizeram, ou não o fizeram por perceberem que é algo que não se deve conhecer, ou se trate de uma experiência pessoal intransferível. Somente exporei aqui aquilo em que acredito, o que é verdadeiro para mim)
Numa entrevista que li de Isabel Allende em uma edição da Playboy - as entrevistas até superam as "matérias principais" às vezes -, relatando sobre o golpe de 73 no Chile, a tomada do poder por Pinochet, a queda de seu tio Salvador Allende, enfim muitas mudanças e perdas ao mesmo tempo. Ela afirma que, à medida que se vai sofrendo perdas, o que é supérfluo passa a perder a importância e tem seu real valor revelado.
Estendendo o raciocínio de Isabel Alllende, se o supérfluo é deixado de lado, logo o que resta só pode ser o essencial. Uma outra definição que tive sobre a verdade diz que "é o que continua". Assim é logico que a verdade fica quando se descarta o supérfluo. Sendo a verdade
"aquilo que todo o homem precisa para viver", pode-se chegar à seguinte questão: se, de fato, tentarmos destruir tudo que há dentro nós, sem falsas preservações ou auto-indugência, o que ficará?
"Um homem tem que estar preparado para se queimar na sua própria chama: como se pode renovar sem primeiro se transformar em cinzas?" Friedrich Nietzsche, in Assim falou Zaratrusta.
"Você é o contador de histórias de sua própria vida, e poderá ou não criar sua própria lenda."
Isabel Allende
domingo, 1 de julho de 2007
Olhos que refletem o futuro
"Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido."
Na república em que moro, vive uma cachorra chamada Sophia (com "ph" mesmo, mas isso não a torna ácida), uma rotweiler um tanto bonachona que mesmo tendo comida no próprio prato, sempre aparece à porta da cozinha com uma cara de "pidona" na esperança de que lhe dêem algo pra comer. Mesmo sabendo da manha da esperta, às vezes lhe dou algo pra comer e faço um afago na nuca, algo que adora - isso faz com que eu fique com o cheiro dela nas mãos, inclusive a esta hora, mesmo lavando bem.
Tem outras vezes em que tento distraí-la perguntando "E a bola, Sophia? Cadê a bola?" para que se anime a procurá-la ou eu mesmo a pego do esconderijo dela, a casinha ou um buraco na areia perto dali. Com a bola na minha mão, ela se agita fica pulando à espera do lançamento, e é aí que me divirto vingindo que jogo a bola só pra ela correr à toa - muita maldade isso. Quando jogo a bola de verdade, procuro tomar cuidado pra não jogar numa área do quintal que tenha muitas plantas rasteiras onde ela possa machucar-se, já que sai correndo sempre como um trem desgovernando atrás da bola.
Só que tem vezes, em que ela fica deitada, nem é perto da porta da cozinha e fica com uma cara muito triste. Chego perto e compartilho seu silêncio. E troco de posiçao com ela quando passo a apenas observá-la ao contrário do que ela faz comigo normalmente.
A Sophia é uma cachora que já passou de metade de seu tempo máximo de vida e, penso,talvez seja algo relacionado a isso que faz com que, cada vez mais, ela fique em seu canto, quieta, pensativa, desanimada. Talvez ela perceba, de alguma forma que não compreendamos, a passagem do tempo e como isso a vai afetando. É nesse olhar que me vejo refletido não só no momento em que o miro, mas também no futuro em que isso me projeta: será que ficarei tal qual a Sophia quando tiver sua idade proporcional? Serei uma pessoa animada, com energia para brigar por aquilo que considero certo?
"Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?" questiona Álvaro de Campos. Tomara que a Sophia não tenha tantos pensamentos nebulosos em sua mente.
sábado, 23 de junho de 2007
Céu de inverno
Observando em cada uma a diferença de brilho
Porque, embora sejam muitas, quem sabe infinitas,
O espaço que as separa é ainda maior.
Também é assim com as pessoas.
Busquei saber quantas imagens são suficientes
Para superar a solidão cósmica,
E olhei tanto, mas tanto,
Que a beleza se prendeu em meus olhos.
terça-feira, 19 de junho de 2007
A chegada do inverno
Solsticio está assim definido no Wikipedia:
"Em astronomia, solstício é o momento em que o Sol, durante seu movimento aparente na esfera celeste, atinge o seu maior afastamento, em latitude, da linha do equador. Os solstícios ocorrem duas vezes por ano: em 21 ou 22 de dezembro e em 21 ou 22 de junho. A data varia devido aos anos bissextos, que oscila entre o calendário das estações em um dia.
No hemisfério Sul, o de dezembro é o solstício de verão e o de junho é o solstício de inverno. O oposto acontece no hemisfério Norte.
Por causa do solstício, existem os trópicos de Câncer e Capricórnio. No solstício de verão no hemisfério sul, os raios solares incidem perpendicularmente à terra na linha do Trópico de Capricórnio. No solstício de inverno, ocorre a mesma coisa no Trópico de Câncer.
Quando ocorre um solstício no inverno significa que esse dia é o dia menor do ano e a noite mais longa , quando ocorre no verão significa que é o dia maior do ano e a noite menor."
Faltou lembrar o fato de que nesses dias, observam-se os dias mais longos do ano no hemisfério em que ocorre os solstício e o contrário no outro hemisfério. Para comprovar isso, basta analisar as previsões de nascente e poente, por exemplo, para a cidade de São Paulo nos próximos dias segudo CPTEC:
19 de junho: nascente ãs 6h47min17s, poente ãs 17h28min18s = 10h41min01s
20 de junho: nascente ãs 6h47min31s, poente ãs 17h28min31s = 10h41min00s
21 de junho: nascente ãs 6h47min44s, poente ãs 17h28min44s = 10h41min00s
22 de junho: nascente ãs 6h47min57s, poente ãs 17h28min58s = 10h41min01s
23 de junho: nascente ãs 6h48min09s, poente ãs 17h29min12s = 10h41min03s
Percebe-se um "empate técnico" em duração do dia em 20 e 21 de junho, ou seja, este é o dia mais curto do ano no hemisfério sul, quando chega o inverno.
Os incas e, antes deles, outros povos da cultura andina, celebravam esta data por entender que o Sol, um dos deuses que cultuavam, estava mais fracos nesta época, por isso celebravam e ofereciam sacrifícios para que isso restabelecesse sua força. É nesta época do ano que ocorrem as maiores celebrações em Cuzco, antiga capital do Império Inca.
Só para mostar um pouco do que pode haver escondido num aparente insignificante dia.
Return to innocence
"Não ser atacado por ser inocente" Índios, Legião Urbana
"É preciso que a virtude volte a ser inocência" Autor desconhecido ou esquecido.
domingo, 17 de junho de 2007
Ser olhado, sob a óptica de Kundera.
Como estamos numa era em que tudo ou quase se resume à imagem como único atributo a ser considerado para qualquer análise que se faça a respeito de qualquer coisa ou pessoa, uma reflexão feita por Kundera é boa de ler:
"Todos nós temos necessidade de ser olhados. Podemos ser classificados em quatro categoria, segundo o tipo de olhar sob o qual queremos viver.
A primeira procura o olhar de um número infinito de olhos anônimos, em outras palavras, o olhar do público (...)
Na segunda categoria, estão aqueles que não podem viver sem o olhar de numerosos olhos familiares. São os organizadores incansáveis de coquetéis e jantares. São mais felizes que os da primeira categoria, que, quando perdem seu público, imaginam que a luz se apagou na sala de suas vidas. É o que acontece a quase todos, mais dia, menos dia. As pessoas da segunda categoria, pelo contrário, sempre conseguem arrumar quem as olhe. (...)
Em seguida, vem a terceira categoria, a dos que têm necesidade de viver sob o olhar do ser amado. A situação deles é tão perigosa quanto a daqules do primeiro grupo. Basta que os olhos do ser amado se fechem para que a sala fique mergulhada na escuridão. (...)
Por fim, existe a quarta categoria, a mais rara, a dos que vivem sob os olhares imaginários dos ausentes. São os sonhadores."
A que categoria pertencerão os olhos que lêem este texto?
O que se pode dizer?
16/06/2007
A guerra da água toma conta da favela de Cité Soleil, no Haiti
Há apenas mil metros cúbicos e 53 pontos de água para uma população de 200.000 a 350.000 habitantes
Benoît Hopquin
Enviado especial a Porto-Príncipe
O reservatório de água transpira, desenhando rastros sobre o concreto poroso. Quatro vezes por semana, em Cité Soleil, essas manchas de umidade transmitem o sinal abençoado de que a cisterna está cheia. Aos pés do reservatório, com um distintivo oficial alfinetado na sua camiseta falsificada do Manchester, Jean-Béliard Dutes, 60 anos, abre uma após a outra as comportas antes que o conteúdo, sob pressão, caia com tudo sobre a sua cabeça.
A distribuição começa. Mais viva do que a própria água, a notícia se propaga pela maior favela de Porto-Príncipe. Neste lugar de desumanidade, estão amontoados os mais pobres dentre os pobres do Haiti, um país onde 80% da população vivem com menos de US$ 2 (R$ 3,90) por dia. Aqui, entre o mar do Caribe e a estrada Nationale 1, ficaram encalhados todos aqueles que alcançam o fundo da miséria.
É para beber, cozinhar e, talvez, se lavar... Vindas de trás do amontoamento de telhados de metal superaquecidos, após terem passado pelo emaranhado de trilhas insalubres, as mulheres chegam com os seus recipientes. Alguns minutos mais tarde, a água potável jorra das 53 fontes espalhadas pelo gueto. Protegidos por um abrigo com grades, alguns encarregados abrem e fecham as torneiras, tentando controlar o empurra-empurra e dominar as brigas verbais e por vezes físicas. Não demorará mais de duas horas até que os 1.000 m3 do reservatório sejam esvaziados.
Mil metros cúbicos e 53 pontos de água para uma população estimada entre 200.000 e 350.000 habitantes. É uma quantidade irrisória. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (cuja sigla é CICR) estima em 6 litros a ração cotidiana por pessoa, ou seja, três vezes menos do que as quantidades mínimas preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas, em Cité Soleil, esta penúria até que constitui um progresso. "Anteriormente, nós chegávamos a ficar dois ou três meses sem água", explica, no dialeto local, Prosper Borgelin, conhecido pelo apelido de "Gauché", 50 anos, um responsável de setor.
Por muito tempo a água esteve controlada pelas gangues, que haviam instaurado uma exploração sistemática da favela. "Eles dividiam entre si o controle das fontes e cobravam um imposto", conta Ugo Mora, um delegado da Cruz vermelha para assuntos de água e de saneamento básico. A companhia local encarregada da adução não ousava mais se aventurar neste refúgio de ladrões e, entre 2001 e 2006, não recebeu um centavo sequer em taxas ou encargos. Regularmente, fuziladas acontecem entre facções interessadas no controle do precioso líquido. Jean-Béliard Dutes por pouco não perdeu um olho num desses acertos de contas. "Muitos pessoas morreram quando elas estavam simplesmente indo buscar água", explica Ugo Mora.
Quando ela iniciou as suas atividades na ilha, em 2004, a Cruz vermelha teve que negociar com os chefões o direito de restaurar a rede. Até hoje, o Comitê é obrigado a lidar com as captações selvagens promovidas por criminosos armados. Entre 150 e 200 reservatórios privados desviam uma parte desta dádiva e enriquecem bandidos. O preço oficial é de 2 centavos de euro (R$ 0,05) o "bokit" (cerca de 20 litros), ou seja, cinco a dez vezes menos do que no mercado negro.
Esta batalha da água é exemplar da guerra sem nome que vem sendo travada em Cité Soleil. No auge das rivalidades entre gangues, o dispensário da Cruz vermelha atendia todo dia 7 a 8 feridos por balas. "Nós estamos acostumados a trabalhar em países assolados por conflitos. Aqui, nós estamos confrontados em tempo de paz a uma violência e a um desamparo comparáveis", explica Ugo Mora. A polícia nacional haitiana desertou o lugar. No verão de 2006, dois agentes que tinham se perdido andando pelas vielas foram assassinados com uma bala na cabeça.
Encarregada da segurança, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah) tenta progressivamente retomar o controle daquilo que fora uma zona de não direito. Ela efetuou diversas operações ao longo dos últimos meses que causaram dezenas de mortes entre os delinqüentes, os capacetes azuis (soldados das forças de manutenção da paz), mas também na população civil.
Assim, em 9 de fevereiro, 700 soldados da ONU conduziram uma vasta operação, contando com a cobertura de helicópteros, que degenerou em combates de rua com armas pesadas, pois os soldados enfrentaram grupos armados com fuzis AK 47 ou M 14. Em todo lugar, os impactos de balas ainda podem ser vistos: uma porta segue crivada por cerca de vinte furos, uma carcaça de carro foi recortada com tiros de metralhadoras. O reservatório de água, salpicado por impactos que foram tapados às pressas, não foi poupado.
O contingente brasileiro instalou campos entrincheirados no coração da favela e conduz incessantes patrulhamentos com blindados ligeiros que passam muito perto dos balcões do comércio. Os capacetes azuis alternam as prisões espetaculares com os gestos promocionais, assim como, naquele dia, a distribuição de equipamentos de futebol para os dois times principais do subúrbio. Os principais chefões, como Evans, Amaral ou Belony, foram presos ou estão foragidos. Eles prosperavam com a indústria do seqüestro, uma atividade que sofreu uma nítida regressão ao longo dos últimos meses. Mas aqui, ninguém gosta muito de falar mal desses fora-da-lei, meio-heróis, meio-demônios. Todos ficam calados ou preferem falar em "supostas gangues", o que é um sinal de que o medo não desapareceu.
Por tanto tempo eles impuseram a sua lei sobre a vida da favela que ninguém aqui ousa ainda acreditar no seu fim. Os diferentes governos por muito tempo se acomodaram com os poderes paralelos que mandavam em Cité Soleil. O ditador de triste fama François Duvalier, mais conhecido como Papa Doc, que havia criado em 1960 esta zona, que fora então batizada de Cité Simone, do nome da sua mulher, e, mais tarde, o seu filho Jean-Claude, conhecido como Bébé Doc, entregaram a sua "administração" aos seus jagunços, os "tontons macoutes".
Wilner Louis, 27 anos, era o filho de um deles. O seu pai foi linchado em 1986, por ocasião da derrubada do regime Duvalier. Ao ascender ao poder, o "Pai" Aristide, por sua vez, armou uma milícia particular, as "Chimères" (Quimeras). O seu partido, a Família Lavalas, reinava absoluto sobre Cité Soleil. Wilner Louis era um militante deste partido. Ele tenta justificar: "Ao menos, Aristide cuidava de nós", diz. Quando "Titid" foi obrigado a deixar o poder, em 2004, os seus capangas seguiram mantendo a situação de insegurança. "Eles queriam desestabilizar o país para trazer Aristide de volta ao poder", explica o advogado Thierry Fagart, o diretor da seção dos direitos humanos da Minustah.
Em 2006, Cité Soleil votou maciçamente em René Préval, um antigo colaborador de Aristide. O novo presidente tentou negociar com os chefes das gangues. Os capacetes azuis permaneciam então confinados nos seus acantonamentos. "Aquele foi um período esquisito", recorda-se Thierry Fagart. "Em dezembro, o presidente Préval deu finalmente a sua autorização para implementar medidas fortes". Graças á intervenção contundente da ONU, a calma voltou. "As pessoas hoje respiram outro ar", resume Wilner Louis. Até hoje este homem diz ser um partidário de Aristide, só que ele traja um capacete azul da Minustah. Os tempos são incertos.
"O governo não está fazendo nada", lamenta Wilner. De fato, o Estado está mesmo ausente. As organizações não-governamentais (ONGs) devem lidar com situações de emergência. Por exemplo, os seus ativistas hasteiam grandes bandeiras sobre os seus veículos quando eles penetram na zona. A organização Médicos do Mundo, ou Médicos Sem Fronteiras, abriu dispensários e vem formando profissionais da saúde. Na escola Terre promise (Terra prometida), as mesas trazem a sigla da Unicef. "Yéle Haiti", a associação de Wyclef Jean, uma estrela local do hip-hop bem-sucedida nos estados Unidos, empreendeu várias obras.
Regularmente, planos de ajuda são anunciados. No início de maio, a embaixadora dos Estados Unidos visitou a zona, contando com a proteção de guarda-costas fortemente armados, para anunciar a liberação de US$ 20 milhões (R$ 38,6 milhões) para a reabilitação da favela. Mas, num país que até hoje segue classificado entre os três mais corruptos do planeta, o dinheiro não demorou a ficar extraviado.
Apenas as promessas chegam e se espalham em Cité Soleil. E também as águas usadas rejeitadas pelos bairros ricos de Pétionville, situados nas alturas. Paul Philama, 50 anos, gostaria de partir, mas não consegue se arrancar desta miséria que "gruda" nas pessoas. Este homem teve 9 filhos de duas uniões, e vive num sufocante apartamento de três cômodos, que ele aluga por 110 euros (cerca de R$ 280) por ano. "Com a Minustah, agora ficou mais calmo por aqui", reconhece Paul. "Mas continuamos sem ter nada para comer". Demitido do seu serviço em fevereiro, ele "se vira", vive de pequenos bicos que mal lhe permitem não morrer de fome. Uma data está inscrita com tinta sobre a parede: o dia 14 de agosto. Naquele dia, o "proprietário" deverá comparecer para receber o aluguel. Paul Philama já sabe que ele não poderá pagar. "Nós vamos ser expulsos".
Um pouco mais adiante, Alta Gracia, 25 anos, vive numa situação quase tão precária. Esta família de 9 pessoas tenta viver num casebre de 8 m2, cuja decoração se limita a uma velha Bíblia em dialeto e um relógio de parede publicitário da marca Maggi. Quando o sol bate forte, o lugar se transforma numa fornalha. Quando chove, a água se infiltra. Mãe de 3 filhos - ela deu à luz o primeiro aos 17 anos -, Alta Gracia vende de forma clandestina copinhos no mercado. A jovem mulher deixou de alimentar qualquer sonho, a não ser a esperança de "poder comer amanhã".
"A situação está bem melhor em matéria de segurança, constata Reynal Jolifils, um responsável social. "Mas isso não quer dizer que o problema das gangues foi solucionado", prossegue. "As fontes da violência ainda estão presentes, a miséria predomina de forma insistente".
"Se nada for feito para ajudar os mais pobres, a violência voltará", confirma Thierry Fagart. "As pessoas que trabalhavam para as gangues ainda estão presentes na favela, mesmo se elas permanecem quietas", garante Holson Francique, 36 anos, que trabalha a serviço da Cruz Vermelha.
Os antigos tenentes aguardam para assumir a sucessão, enquanto os jovens desocupados constituem uma reserva inesgotável de mão-de-obra para eles. As armas de fogo estão caladas, mas os ataques com arma branca continuam numerosos. "Volta e meia acontecem linchamentos", explica Prosper Borgelin. Então, será mesmo a paz ou apenas uma trégua? A favela já acreditou tantas vezes que ela estava se livrando da desgraça. Ugo Mora tem apenas uma única certeza: "Por conta da sua história, Cité Soleil é o barômetro da situação política no Haiti".
quinta-feira, 7 de junho de 2007
Pro alto e avante...
Dormi até umas 8 horas, quando ouvi muito barulho, conversas e agitação nas ruas. Coloquei a cabeça no livro e vi que as pessoas estavam se organizando para fazer aqueles tapetes gigantescos, típicos das celebrações de Corpus Christi. Arrumei as coisas de novo, saí definitivamente do hotel e fui acompanhar de perto as pessoas montando o tapete. Mais que um tapete, percebi a união de pessoas mais velhas e jovens em nome de uma tradição, algo comum, mas fora do comum, que os unia.
O ônibus partiu no horário e passou por algumas cidades como Santa Rosa do Sul, Sombrio e São João do Sul antes de chegar à Praia Grande por volta das onze horas. Em seguida, encaminhei-me para o Albergue da Juventude, onde tinha reserva para o feriado, caminhando por cerca de seis quadras da praça central da cidade até a rua do Albergue.
Lá me esperava a D. Neri - a quem eu chamava "Néri" mas é "Nerí" -, a responsável pelo Albergue, uma pessoa muito atenciosa com dicas precisas do lugar. Foi ela quem me contou que a entrada do Parque do Aparados da Serra ficava no alto da serra, à beira do qual a cidade fica, a 22 km por uma estrada de terra e morro acima - a 1000m acima do nível do mar, enquanto a cidade fica a 40m. Para ajudar mais ainda, os ônibus que saíam da cidade e iam até lá já tinham saído, o que saíam, ou não subiam devido à forte chuva que castigou a região duas semanas antes e deixou as estradas lamacentas e com mais buracos e pedras ainda...
Também tinha a possibilidade de caminhar menos, cinco quilômetros, e ver o Cânion Malacaia pela parte baixa, mas decidi seguir a pé até o parque, o que deixou a D. Neri com uma cara de "?!" - particularmente gostei desta descrição.
A primeira dificuldade foi encontrar o caminho para a estrada, já que não havia muitas placas e só se caminha por estradas de terra com muitas pedras, o que cansa demais devido ao fato de cada passada ser bastante instável (as pedras podem fazer tropeçar) e incerta. Até achar o começo da estrada, foram cerca de 40 minutos e uns cinco quilômetros pra cima e pra baixo da parte "rural" da cidade. Depois foi só morro acima.
A subida pela estrada da Serra do Faxinal lembrava muito a que levava até Machu Picchu, pois era um pequena reta e um gancho à esquerda, uma pequena reta e um gancho à direita com a diferença de que as retas são mais longas no Sul. A idéia era chegar ao Parque por volta das 15h porque o fechamento ocorre às 17h e as trilhas lá dentro levariam cerca de 2h pelo que me informei. A subida era mais difícil do que tinha suposto, e meu esforço para encará-la também foi maior do que eu supus que fosse capaz: mesmo subindo bastante rápido e impondo força, não me sentia fatigado e seguia em frente. O maior desafio estava na mente, já que é difícil andar dissipando as forças do corpo, não ver nem sombra de onde se está, do quanto falta pra chegar e manter a concentração alta para que o desânimo não vença. (Um dos motivos que me levaram a ir aos Cânions)
Quando, mais de quatro horas depois de começar a caminhada, faltavam dez minutos para as três horas e vi que ainda faltavam sete quilômetros para chegar ao Parque, aí o desânimo bateu forte mesmo, e tive que "apelar" para carona e seguir em frente. Peguei carona com três caras, num monza marrom, que iam a Caxias do Sul. Assim que me deixaram na porta do Parque, minha idéia foi logo a de tirar a cãmera e registrar o fato, mas só foi aí que percebi que a dita, antes no bolso do meu shorts, havia caído no banco do carro. Corri, agitei os braços, bradei, fiz todo tipo de gesto ridículo que podia imaginar para chamar a atenção dos caras. O desânimo de outro, que fora substituído pela alegria de chegar à porta do parque, tinha se transformado numa imensa desolação. Qual seria a graça da viagem se não poderia registrá-la em fotos? Até pensar em voltar no dia seguinte foi uma idéia que me ocorreu. Já que estava lá no Parque, tinha de conhecê-lo de qualquer jeito, entáo segui em frente mesmo com a perna já dura e o corpo cheio de poeira de estrada, suado e exaurido.
Da entrada do Parque, são dois quilômetros até chegar às trilhas do Vértice e da Cotovelo, a qual segui primeiro e, passados três quilêmetros, cheguei até a borda do Itaimbezinho, de onde se tem vistas maravilhosas, sobretudo num fim de tarde como aquele que estava fazendo. Há algumas cordas para que as pessoas não avancem, mas isso não é impeditivo a que se chegue bem perto do precípio e se mirem os paredões que se estendem até perder a vista - magnífico! Voltei, parei um pouco para descansar e tomar um pouco de água num centro de visitante que há entre as duas trilhas e segui pela Trilha do Vértice, bastante curta, com acessos mais restritos que a do Cotovelo e uma visão diferente, podendo avistar a Cachoeira Véu de Noiva. De volta à entrada do Parque por volta das 16h45min, levei cerca de uma hora e vinte para andar o Parque.
A verdade foi que andei rápido demais o parque e não reparei direito nos detalhes da natureza - como as impressionantes araucárias que havia por lá. (Isso ocorreu como escreveu Caeiro em "Um pensamento visível faz-me andar mais depressa / E ver menos".). Problema estava no que viria depois: ter todo o caminho de volta por uma estrada de terra no escuro, com a temperatura não tão quente (cerca de 12 graus estava fazendo à noite por lá) e o corpo cansado. Embora estivesse preparado - com saco de dormir e lanterna na mochila - não tinha a idéia nem a vontade de passar a noite ao relento, mas também não tinha força para voltar todo caminho.
Andei uns cinco quilômetros quando peguei carona com um rapaz que vivia lá e estava transportando abacaxi e batatas em seu caminhão. Fiquei um pouco espremido mas me arranjei bem no banco. À medida que voltávamos para Praia Grande, descendo a serra, é que dava pra perceber o quanto tinha subido desde lá de baixo. Fazer aqueles gancho em descida à noite e com um precípio bem perto é um bom teste de coragem - ou de loucura.
Estava na cidade por volta das sete e meia. Comprei algumas coisas num mercado da cidade, fui pro albergue, tomei banho, fiz janta e comi num silêncio e numa paz incriveis. Pouco depois chegou ao albergue uma família gaúcha que ia passar uns dias por ali. Conversamos pouco e fui desmaiar em seguida na cama.
quarta-feira, 6 de junho de 2007
E chega o dia da viagem...
Chego às 6h40min no serviço e ponho-me a correr a fazer o que for possível para terminar uma atualização urgente que precisava ser terminada naquele mesmo dia. Ao mesmo tempo, aproveito e imprimo mapas e textos sobre o local para evitar mais transtornos ainda. Às 8h em ponto, marco minha saída, passo num caixa eletrônico e saco o dinheiro estimado a ser gasto durante a viagem - estava indo para um "fim de mundo" onde não tinha como sacar dinheiro e sabe-se lá se se aceitariam cartões.
A idéia seria tomar um ônibus que partisse às 9h diretamente para o aeroporto de Congonhas, de onde partiria o vôo na minha suposição inicial. Inicial porque li direito no bilhete (por que só faço isso na última hora?) que o avião partiria de Cumbica. Por "sorte", ainda eram menos de 8h30min e pude tomar o ônibus que saia neste horário para Cumbica (as aspas não foram à toa, visto que a idéia era chegar um pouco mais tarde ao ponto do ônibus, mas chegar antes e ler de novo o bilhete foram uma inesperada ajuda que tive).
Cheguei ao aeroporto com mais de duas horas de antecedência - o vôo partiria ao meio-dia e vinte para Floripa - fico enrolando até a hora do embarque. A boa sorte tida em Campinas nào foi suficiente para o já famoso caos nos aeroportos, e o vôo atrasou mais de uma hora para sair de solo. Isso estragava completamente o planejamento inicial que era chegar a uma e meia a Floripa, tomar o ônibus das 14h30min até Criciúma e, de lá, mais um, que sairia às 17h45 até Praia Grande.
Às três da tarde, estava na rodoviária de Floripa. Comprei passagem para Araranguá, onde passaria a noite, e tomaria um ônibus para Praia Grande na quinta de manhã pois não tinha mais como chegar lá na quarta. Assim que acabei de comprar a passagem, como infelizmente é comum, uma senhora chegou oferecendo-me algumas balas; como meu humor não era dos melhores - teria que esperar quase duas horas até a saída do ônibus e já tinha perdido praticamente um dia do tão esperado feriado - não fiz uma cara das mais agradáveis inicialmente, mas expressão do rosto dela quebrou o gelo, e decici pergunta quanto custavam as balas, só que não comprei por achá-las caras e perguntei se não podia dar um desconto (cara-de-pau perguntar isso!) mas não rolou.
Como a ordem era "enrolar", passei a andar pela rodoviária e (re)descobri que havia um museu no andar de cima. Vi com bastante atenção cada um dos quadros cujo tema era sobre mulheres e cores (cada quadro retratava mulheres seminuas com cores diferentes e poemas diferentes para cada um). Depois sentei e continuei a ler o livro levado para viagem; nisso ouço a mesma voz de pouco antes: "não quer comprar essas balas pra me ajudar, moço?". Achei engraçado porque ela não me reconheceu, talvez por estar com cabeça baixa enquanto lia, e perguntei: "a senhora vai me dar desconto por já ser freguês antigo?". Ela também achou graça e esboçou um sorriso no lugar da cara triste, que logo voltou a ser triste e percebi que a expressão de tristeza é uma espécie de recursos que usam.
Ao contrário do vôo, o ônibus partiu no horário. No caminho, com o dia que terminava como belo cenário, dava pra ver a ponte Hercílio Luz e a ilha de Floripa ao fundo. O itinerário contemplou as cidades de Laguna, Tubarão, Criciúma e Araranguá, aonde chegamos por volta das 21h30min. Só tive tempo de achar um hotel por perto, desempacotar as tralhas, tomar banho, ver um pouco a final da Copa do Brasil ganha pelo Fluminense e dormir para o dia seguinte.
segunda-feira, 4 de junho de 2007
sábado, 2 de junho de 2007
Viajar: o que vai e o que fica....
Essa viagem já está "marcada" há mais de dois meses. Tudo planejado com antecedência e dando um trabalho grande: o Albergue não tinha site em nenhum lugar e foi preciso muitas "googleadas" para achar o contato e fazer as reservas.
Outro problema era como chegar até Praia Grande: não há ônibus que vá direto de Floripa pra lá. Havia duas opções: ir até Criciúma ou Araranguá e daí seguir até Praia Grande. Contudo o problema não ficava por aí: como o vôo de ida já estava comprado, tinha que pesquisar um modo de pegar os ônibus e chegar na cidade sem perder tempo: como o vôo saiu à tarde numa quarta-feira, não adianta nada ficar "parado" em cidades intermediárias e perder um dia do feriado. Para ajudar mais ainda, quase não tinha site com informações sobre as empresas que faziam as ligações entre as cidades e os horários. A parada fica assim: vôo chega por volta da 13h30min de quarta em Floripa, pego um ônibus correndo até a rodoviária, de onde tomo um ônibus que sai às 14h30min com destino a Criciúma, aonde chega cerca de 16h30min e de onde parte, às 17h30min o último ônibus para Praia Grande, chegando lá mais de 21h.
Tanto esforço é pra ter três dias para visitar os cânions e talvez praticar algum esporte radical por lá.
Só que ir sozinho pra lá não tem razão de ser visto que é melhor e sempre mais agradável ter companhia, sobretudo quando se comenta da viagem com alguém às vesperas e essa pessoa mostra vontade em ir fazendo com que surja um grande arrependimento não só pela frustração causada a ela como por ser alguém muito especial e com quem gostaria de dividir diversos momentos. O real valor das coisas encontra-se naquilo de que dispomos em nomes dele, não do que de bom nos possa trazer, por isso essa viagem já vale tanto antes de começar.
As noites serão provavelmente muito frias, sendo acompanhadas somente por A Chama de uma Vela, de Bachelard.
quarta-feira, 30 de maio de 2007
Um adendo
Já que o sono - ou falta dele - está em pauta, um pouco mais a respeito:
(E. M. Cioran)
Quem quer que tenha dito que o sono é o equivalente da esperança teve uma intuição penetrante da assustadora importância não só do sono mas também da insônia! A importância da insônia é tão colossal que sou tentado a definir o homem como sendo o animal que não pode dormir. Por que chamá-lo de animal racional, se há outros igualmente razoáveis? Mas não existe outro animal em toda a criação que queira dormir e não possa. O sono é esquecimento: o drama da vida, suas complicações e obsessões se desfazem completamente, e cada despertar é um novo começo, uma nova esperança. Assim a vida mantém uma agradável descontinuidade, a ilusão de uma permanente regeneração. A insônia, por sua vez, da à luz um sentimento de tristeza irrevogável, de desespero e agonia. O homem saudável – o animal – apenas chapinha na insônia: ele nada sabe sobre esses que dariam um reino por uma hora de sono inconsciente, esses que se horrorizam tanto diante de uma cama quanto diante de uma mesa de tortura. Há um vínculo estreito entre a insônia e o desespero. A perda da esperança vem com a perda do sono. A diferença entre o paraíso e o inferno: pode-se sempre dormir no paraíso, mas nunca no inferno. Deus puniu o homem tirando-lhe o sono e dando-lhe o conhecimento. Não é a privação do sono uma das torturas mais cruéis praticadas nas prisões? Os loucos sofrem enormemente com a insônia, daí as suas depressões, o seu desgosto com a vida, e os seus impulsos suicidas. Não é a sensação –típica das alucinações acordadas – de mergulhar num abismo uma forma de loucura? Os que cometem suicídio atirando-se de pontes para dentro dos rios ou de edifícios sobre os calçamentos, motiva-os por certo um desejo cego de cair e a atração ofuscante das profundezas abismais.
Minha alma é caos, como pode então ser? Tudo está em mim: procura e encontrarás. Sou um fóssil que data do princípio do mundo: nem todos os seus elementos cristalizaram completamente, o caos inicial ainda transparece. Sou a absoluta contradição, o clímax das antinomias, o último limite das tensões; em mim tudo é possível, pois sou aquele que no momento supremo, diante do nada absoluto, gargalhará.
(On the heights of despair – Tradução de Renato Suttana)
Vendo passarinho verde
Em vez disso, neste "belo dia resolvi mudar e fazer tudo que eu queria fazer": cheguei em casa e, sem almoçar, troquei-me e mesmo com uns 15 graus fui correr de regata e shorts em volta do lago - com vento e tudo.

Mesmo com a respiração dificultada pelo ar mais gelado, estava num ritmo bom e queria fazer o trecho "padrão" de três voltas. Eis que pelo meio da primeira volta, ao passar ao lado de um mato um pouco mais alto, sai uma revoada desses pequenos periquitos (maritacas na verdade) que se vêem - pelo menos eu vejo - somente pela manhã, no alto dos postes, cantando bem cedo. Foi uma bela surpresa. Eles saíram e voaram para as árvores que ficam do outro lado da pista - cerca de 3m de largura. Na hora, pensei na expressão "ver passarinho verde" e entendi que estava vivenciando a expressão.
Depois disso, o dia seguiu seu curso esperado: casa, almoço, banho, faculdade, estudo, aula, casa.
Felizmente uma pequena decisão, pequena mudança trouxe algo de diferente a este dia.
domingo, 27 de maio de 2007
sábado, 26 de maio de 2007
Verdade desconhecida
quarta-feira, 9 de maio de 2007
Conhecendo Dona Dolores...
Finda a aula, juntos aos comuns "elogios" à aula, um colega comenta que estava muita dor de cabeça e que isso quase o fizera bater o carro na vinda para Unicamp. Obviamente insisti para que fôssemos ao CECOM, uma área do HC da Unicamp só para alunos. Como ele fez questão de bandejar antes, chegamos ao CECOM cinco minutos depois de fechar.
A dor de cabeça piorou e fomos ao Pronto-Socorro do HC tentar atendimento. Primeiramente, fez-se um cadastro e fomos sentar à espera de atendimento. Pouco tempo depois - para os padrões públicos de atendimento - o colega foi chamado. Pensei que iria embora logo.
Logo em seguida, à minha direito, no corredor, percebi que vinha andando uma senhora de idade que tinha enfaixados o braço esquerdo quase todo e a perna direita (depois soube que havia sofrido uma queda). Não sei se por eu a ter olhado, ela fez questão de pedir licença e "acomodar-se" a meu lado. Vale explicar que não estava em um banco esperando meu amigo, mas em cima de um "banco", um nível, sei lá, muito gelado por sinal, onde estava sentado.
Depois de pedir licença, a senhora deitou-se nesse cimento gelado. A única coisa que pude fazer no momento foi oferecer minha mochila para apoiar a cabeça. Ela perguntou se não tinha nada que pudesse quebrar, mas respondi que não tinha e que o único problema de algo duro seria machucar a cabeça dela. Ela agradeceu e aceitou.
Como já esperava que a iniciativa de uma conversa partisse dela, só esperei até que me perguntasse se eu via televisão; respondi que não, e ela começou a contar sobre o programa da Claudete ("Pra Valer"), de quem ela gosta muito, e também da Cristina (Rocha), cujo programa trata sobre pessoas que buscam ou oferecem coisas e serviços, uma espécie de classificados na TV.
Ela contou que queria ajudar do Programa da Cristina para ver se encontrava alguém que a quisesse ajudar: ela vive numa casa pequena que divide com o filho, nora e duas filhas - são cinco pessoas e pouco espaço. O que ela deseja é encontrar alguém disposto a fazer algumas reformas para aumentar sua casa e acomodar todo mundo lá. Só que só era possível entrar em contato com o programa por e-mail, e ela não tinha nem podia entrar na Internet.
É claro que a história me deixou sem jeito (a quem não deixaria?). O que eu podia fazer a respeito? A única coisa que me veio à mente foi pegar o telefone e entrar em contato com o programa contando sua história e pedindo para que entrassem em contato. Só que, como tem sido uma constante na vida, demorei demais e não disse o que deveria dizer, e veio um enfermeiro simpático que chamou por ela, encaminhando-a para atendimento lá dentro. Dona Dolores foi simpática ao despedir-se, e eu fiquei com mais uma sensação de frustração.
Meu colega só tinha ido lá dentro para uma espécie de triagem - tirar pressão entre outras coisas - para ver se de fato precisava de uma consulta. E esperamos mais ainda. Quando ficamos quase três horas que nem tachos lá, ele disse que se sentia melhor - com certeza a espera fez com que percebesse que sua dor não fosse tão ruim assim.
Hoje, ao que parece, ele se sentiu melhor e nem teve resquícios das dores de cabeça e muscular que o afligiram ontem. E eu com esse peso na consciência...
domingo, 22 de abril de 2007
O abismo que leva ao céu...
Sem se esquecer de que o sonho tem um "pé" na realidade.
sexta-feira, 13 de abril de 2007
Expandindo PL
A redução só é possível por meio da modelagem que se aplica ao problema A "transformando-o" em uma instância de B. Exemplo: se o problema A é para multiplicar n números, mas só se sabe como somá-los (problema B), como fazer? Modela-se o problema A como sendo somar repetidas vezes cada par de números, tendo assim o produto dois-a-dois; repete-se o procedimento para cada produto fazendo com que se torne fator de uma nova multiplicação até que se tenha o resultado correto. Computacionalmente isso é possível embora vá levar muito mais tempo, mas a questão de tempo só é levada em conta se você não o tem sobrando :)
Ainda em Computação, estuda-se uma classe de problemas chamada Programação Linear,
que trata de buscar o ótimo para uma dada função linear (função-objetivo) - ótimo é o maior valor, em módulo, que esta função pode assumir (querendo maximizar, é o maior valor, e o contrário para minimzar). Obviamente, para chegar ao ótimo, bastaria colocar os valores máximos nas variáveis e pronto. Vida e Computação não são óbvios (aprenda!). Desse jeito, os maiores valores são infinitos, e o ótimo também. Para controlar isso, existem as chamadas funções de restrição: equações ou inequações que servem como parâmetros aos valores que as variáveis da função-objetivo.
Para que tudo isso?
Nos muitos paralelos que faço relacionando "além-Computação" com Computação, acabo fazendo uma espécie de redução, ou seja, aplico um certo modelamento para tentar encontrar soluções que não sejam respostas prontas para instâncias específicas do Problema Maior, mas subsídios valiosos a seu entendimento.
Um exemplo disso é observar o que muitos consideram o objetivo da vida: serem felizes. Logicamente ser feliz acaba sendo resultado de momentos felizes, e uma função-objetiva aplicável seria maximizar esses momentos. Aí já se começa a entrar em Programação Linear, faltando somente as funções de restrição, o que acaba sendo até fácil de observar, por tratar-se de toda e qualquer coisa, pessoas, circunstância etc... qualquer coisa serve, pois tudo pode potencialmente (olha o plenoasmo!) ser restritivo à felicidade. É evidente que, minimizando-se as restrições, chega-se ao máximo na função objetivo.
"Grande! Isso eu já sabia!", tornaria o Pequeno Gafanhoto (agora com letra maiúscula). Matemática não é um mistério tão impossível quanto alguns pensam, porque mesmo ela, por increça que parível, derivou a partir da observação das coisas simples que aconteciam ao redor do homem, por isso não é surpresa e nem um grande mérito "matematizar" qualquer coisa.
Para escolha que se faz, há, pelo menos, uma renúncia a ser feita - senão não haveria o que escolher. Saber otimizar o valor das escolhas talvez não seja evidente, por não se conhecer a priori os resultados que podem trazer. Outra possibilidade é analisar o problema complementar: reduzir as perdas com as renúncias. Definição de prioridades é uma maneira de fazê-lo - isso equivaleria a atribuir pesos a cada possibilidade, ou seja, os valores dos coeficientes nas funções-objetivo.
Citada a idéia, agora basta que se traga o modelo à luz da realidade a nela o submeta para ver se funciona. Alguém se arrisca?
sábado, 7 de abril de 2007
Sobre milagres....
"O essencial é saber ver", escreveu Fernando Pessoa por meio de Alberto Caeiro. Ver está além de olhar, mas não de enxergar - não se trata apenas de sinônimos, mas de uma "hierarquia semântica". Saber ver leva a enxergar, e enxergar é essencial.
O que é exatamente saber ver? É não só ter a percepção de que "a coisa" acontece como do que está por "trás da coisa". Isso não se descobre apenas ficando parado e observando o mundo girar, as nuvens passarem no céu, o vento roçar as folhas das árvores... Caeiro ainda acrescenta que " Não basta não ser cego /Para ver as árvores e as flores", isto é, só com nossas capacidades não entenderemos o mundo tal qual é - ou o mais próximos que possamos chegar disso - a menos que nos movamos, esforcemos minimamente neste sentido.
Para Spinoza, a Força - o nome não faz diferença, por isso fica a critério de quem ler - existente em tudo e por que tudo existe está "disponível" a todos, pois é imanente. Apesar de imanente, é necessário o esforço de cada para descobri-la e a ela unir-se.
"E os milagres com isso?", perguntaria o Pequeno Gafanhoto. Com os milagres, o princípio é o mesmo: não adianta simplesmente ficar à espera como se fossem a (única) solução para tudo.
Não acredite em milagres! Faça-os!
domingo, 1 de abril de 2007
Um olhar sobre o mundo...
"Hoje eu tenho um dia de descanso, todo pra mim e como eu sempre faço quando posso descansar um pouco, eu fechei-me em casa, em minha cama, que eu adoro, para ler algo. Eu estou lendo o novo livro "A Força da Razão" de Oriana Fallaci. Um livro interessante, um ponto de vista cru e áspero acerca de quem presta atenção à Europa com um olho cuidadoso e crítico. Europa, um continente que apoia a guerra....como a descreve o escritor, um continente que hoje não é mais Europa, mas "Eurábia", como se fosse uma colônia do islã. Eu não quero escrever aquì o que acho dessas considerações, não é minha tarefa empurrar a gente que me suporta para seguir meu julgamento cerca desse assunto, mas fico aqui diante de meu computador, uma vez mais não quero ter medo de testemunhar minha oposição absoluta à guerra. É verdade, este é um julgamento que, talvez, eu não teria que dar, mas não há nada polìtico suportando a paz, ou melhor, como uma mulher deste milênio, nele há um testemunho social e civil. Eu não sei o que você acha sobre o assunto. De algumas pessoas, eu conheço as opiniões pelas cartas e pelos e-mails que vocês me enviaram e que eu tento ler freqüentemente... Certo, gostaria de saber se houver alguém, entre vocês, que lê meus pensamentos e não està de acordo comigo. Gostaria de falar sobre isso, compreender, avaliar... juntos. Como faz um grupo de amigos que se encontra de novo, em casa ou numa praia para conversar sobre mil coisas....de repente vocês se tornam sérios e se começa a falar de atualidades. Sou uma pessoa otimista, que prefere evitar discussões, às vezes por medo mas sobretudo por princípio. (...)
Eu odeio saber que uma pessoa está sofrendo por causa de algumas injustiças mas a coisa que eu odeio mais, é sentir-me impotente naqueles momentos. Eu sinto essa sensação em várias situações, situações importantes e não; de estar ciente que a guerra matou povos e culturas desde sempre, até a discussão entre dois amigos geralmente afeiçoados um pelo outro. Estou pensando em Anisa, uma menina que escreve pra mim de Bagdá que espera agüentar, e estou pensando em Manuela, minha amiga Manuela Pacifico, que se sente agoniada por receber algumas palavras tão pesadas quanto balas. Deveríamos respeitar-nos muito mais, nós deveriamos avaliar antes de agir. O político que decide quem e como golpear um adversàrio, a palavra ofensiva que choca - talvez - uma sensibilidade demasiado frágil de um amigo.
Eu não sou uma santa, eu tambèm cometo erros !! Eu quero apenas ser uma proponente pois eu acho esta é a melhor maneira para crescer. Eu convido vocês a conhecer melhor o que é que acontece no mundo, lendo livros ou prestando atenção a documentários acerca das guerras dos últimos anos sob diversos pontos de vista. Para que vocês se tenham suas próprias opiniões, compreendendo suas maneiras de pensar, porque o julgamento sobre esses assuntos deve ser só e unicamente seu.
Peace,
Laura " (Pausini)
segunda-feira, 26 de março de 2007
A arte de criar espaços...
"
Datação
1001 cf. JM3
Acepções
■ verbo
transitivo direto
1 conceber, tirar aparentemente do nada, dar existência a
Ex.: segundo o Gênese, Deus criou o homem e depois a mulher
transitivo direto
2 formar, gerar, dar origem a
Ex.: segundo alguns cientistas, uma grande explosão criou o universo
transitivo direto
3 imaginar, inventar, produzir (algo ger. original, novo)
Ex.: só Mário de Andrade podia c. um personagem como Macunaíma
transitivo direto
4 inventar, elaborar (alguma coisa, ger. de cunho científico, utilitário)
Ex.:
transitivo direto
5 fundar (alguma coisa); instituir, estabelecer
Ex.:
transitivo direto
6 adquirir (algo) que anteriormente não se possuía, passar a ter (alguma coisa) como resultado de esforço próprio ou por puro acaso
Ex.:
bitransitivo
7 causar, originar
Ex.:
bitransitivo
8 deixar-se tomar por (determinado sentimento); passar a manifestar
Ex.:
bitransitivo
9 alimentar ao seio; amamentar
Ex.: criou-os no peito
transitivo direto
10 Derivação: por extensão de sentido.
sustentar, alimentar
Ex.:
bitransitivo e pronominal
11 Derivação: por extensão de sentido.
promover a educação de; educar, instruir
Ex.:
transitivo direto predicativo e pronominal
12 educar(-se) sob certas condições
Ex.:
bitransitivo e pronominal
13 crescer em convívio com (alguém ou algo)
Ex.:
transitivo direto predicativo
14 promover (alguém) a; nomear, tornar
Ex.: o conde criara-o cavaleiro
pronominal
15 nascer, originar-se
Ex.: a oliva cria-se abundantemente naquela região
pronominal
16 crescer, desenvolver-se em (determinado lugar)
Ex.: criou-se na favela
transitivo direto
17 cultivar (plantas)
Ex.: tentou c. tulipas em Teresópolis
intransitivo
18 tomar-se de pus (um ferimento)
transitivo direto
19 Rubrica: zootecnia.
manter procriação de (animais) para sustento da família, com fins lucrativos ou ainda por gosto
Ex.:
transitivo direto
19.1 Rubrica: zootecnia.
desenvolver a pecuária como atividade econômica
Ex.: em suas fazendas, só criava gado
Etimologia
lat. creo,as,ávi,creátum,creáre 'produzir, fazer brotar, fazer aumentar, fazer crescer, criar'; ver cria-; f.hist. 1001 criarmus, sXIII criar, sXIII crijar, sXIV cryar
Sinônimos
ver sinonímia de causar, engendrar, nutrir, organizar e produzir
Antônimos
destruir, desnutrir; ver tb. antonímia de organizar"
Depois desta verborragia, vale dizer que a discussão tomou por apenas apenas os aspectos dos itens 1 e 2, ou seja, criar no sentido de tirar algo do nada, algo extremamente ilógico a quase todos que ouçam isso. Então nada pode ser criado? Lavoisier corrobora com a famosa "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".
Depois deste fim de semana, chegou a hora de colocar em prática uma das resoluções de "Ano Novo" e, para isso, precisarei criar - sim, criar... não... a palavra talvez não expresse a realidade - ela tem esse poder?
Chegou a hora de criar espaço, aumentar distância. Criar espaço pode ser uma forma de (auto-)isolar, (auto-)afastar, até mesmo (auto)punir. Mas criar espaço pode ser um modo de oferecer espaço para crescer, desenvolver, aprofundar raízes. Aliás, as plantas são o exemplo: se a planta cresce demais, troca-se-lhe o vaso, dando mais espaço ao crescimento. É com esta intenção que criarei alguns espaços a partir de agora.
Talvez eu não esteja de fato criando espaço; talvez a palavra que se encaixa seja inventar. Mas "inventar espaço" é algo que não me entra na cabeça - pouca coisa entra mesmo. Ficarei mesmo com o "criar" e com espaço.
sexta-feira, 23 de março de 2007
"I know not what tomorrow will bring"
O certo é que continuarei caminhando debaixo do mesmo sol, mesmo quando não o vir, todos os dias. Farei isso mesmo que as pernas não permitam ou que não haja motivos para fazê-lo, porque não é preciso ver o sol para caminhar debaixo dele, nem ter esperança para seguir adiante - há algo além, "algo dentro de nós que não tem nome, e é isso o que somos", segundo Saramago.
Mesmo assim o amanhã urge em mim como o sol que surge no início de cada dia...
terça-feira, 20 de março de 2007
Outono que o vento traz...
Mas o fato é que sempre é outono no outono,
E o inverno vem depois fatalmente,
há só um caminho para a vida, que é a vida..."
Álvaro de Campos, in A Passagem das Horas
sábado, 3 de março de 2007
E no Tietê...
"Que azar!", poderia pensar alguém, mas daí o problema mudaria de lugar: chegaria a Campinas e dormiria na Rodoviária de lá. É preferível dormir no Tietê (vou criar o guia "Melhores Rodoviárias para se dormir").
Informado de que as passagens começavam a ser vendidas a partir das 4h e que o primeiro ônibus sairia às 4h30min, pensei em como gastar quase três horas de espera. Os primeiros vinte minutos foram dedicados à discussão do jogo com uma senhora do balcão de informações surpreendentemente bem informada sobre o Tricolor não só de coisas recentes como de coisas antigas - citou um pênalti em cima do Palhinha não marcado na final da Libertadores de 94 do qual não me lembro.
Depois da discussão futebolística, o sono começou a pesar e fui buscar algum lugar para (tentar) "dormir". Dei uma volta em busca de algum banco melhor e prestei atenção a como as pessoas "dormem" nos bancos: alguns praticamente sendo contorcionistas, vergando as costas lateralmente e encolhendo-se num espaço exíguo ao mesmo tempo em que seguram seus pertences; outros usam uma espécie de mesa que liga dois blocos de bancos, cujo espaço é maior que um banco comum, e lá se instalam; alguns ficam sentados, coluna reta, mas permitem que o pescoço "despenque" tronco abaixo - isso deve dar um torcicolo ao despertar!
Fiquei com primeira técnica e tentei contorcionismo nos bancos. Pra quê? Quase fiquei entalado no banco e em cima da mochila-travesseiro. Aproveite-me de que os apoios para os braços entre cada banco fossem vazados, permitindo que se passassem as pernas entre eles, ficando deitado ocupando cerca de três bancos, ou seja, passando o corpo em dois apoios. Como o custo /benefício
não seria o ideal - poucas horas de sono em troca de muito esforço, além de possivel bronca de segurança - desisti da idéia e apenas sentei-me no banco, com o sono a tira colo.
Ouvindo o barulho das pessoas que limpavam, no andar de baixo, o corredor das plataformas de embarque, decidi lá descer e procurar um lugar pra dormir e achei(!): os bancos são sustentados por uma estrutura de cimento que faz uma espécie de coluna que as segura por trás (dificil fazer esta explicação) em cima da qual conseguia apoiar totalmente as costas com um inconviente estrutural - era muito estreito, requerendo pouco movimento para não desabar no chão ou ficar preso entre a coluna e os bancos.
Deitado e buscando descansar o que pudesse, constantemente era acionado pelo barulho das máquinas do pessoal de limpeza ou por suas conversas altas. Levanto um pouco para andar pelo corredor das plataformas e reparo na melhor das técnicas para dormir numa rodoviária: um senhor estava com um colchão dormindo em pleno chão do corredor mais movimentado da cidade em saida de feriado! ("Fantástico!" como diria o outro)
Obviamente tive vontade de conversar com o senhor a respeito, mas não iria interromper seu sono apenas pra isso. O jeito para gastar a última meia hora foi ficar andando a esmo pela rodoviária.
Depois foi fazer o trivial: pegar ônibus até Campinas, ônibus até em casa, banho, ônibus de volta pro trabalho, sono a tarde inteira, aula à noite.
sexta-feira, 2 de março de 2007
São Paulo Vs Alianza Lima
Fato é que não choveu, tendo a noite de quarta um céu aberto e de Lua quase cheia, "conseqüência" de um dia quente em São Paulo, durante o qual pude aproveitar para ver "Little Miss Sunshine" - é um filme bom que seria excelente se as personagens fossem mais exploradas, seus conflitos mais esmiuçados - e doar sangue no HC. Aliás, não se pode deixar de citar a sempre recorrente presença de Murphy: o rotineiro problema na hora de medir a pressão (afinal sempre chego agitado por andar rápido até lá), o teclado que pifou com a primeira entrevistadora e a própria segunda entrevistadora, que estava em treinamento e teve o prazer de ter-me como "cobaia"... e lá se foram muitos minutos e doses da pouca paciência habitual que tenho para perda de tempo... Para compensar, isso doei sangue tão rápido como nunca fizera antes - sim foi cronometrado, mas não será divulgado para não incitar outros "loucos" a fazerem besteiras do tipo.
Depois de doar sangue, até pensei em ir de ônibus ao Shopping Butantã para encontrar a galera, mas ao perceber, relembrar aliás, como estava a situação dos ônibus àquelas horas, fui a pé mesmo: mais menos 45 minutos para descer a Rebouças, Eusébio Matoso e encarar as subidas e descidas da Francisco Morato.
Antes de entrar no estádio, 1,7 litros entre suco de laranja e refrigerantes (você deve beber muito líquido após doar sangue) e o indispensável sanduíche de pernil (nem por isso vale R$ 4,50!). Bucho cheio, vamos apoiar o Tricolor!
O jogo foi meio porre: o São Paulo meio sem vontade, movimentação, chutes de fora da área, e um Alianza Lima satisfeito com os rumos que o jogo tomava. Não precisava ser gênio para saber que o time precisava de um lance de bola parada para fazer o primeiro gol: rebote de escanteio, Souza levanta bola na área que sobra para o zagueiro-artilheiro Alex Silva abrir o placar. Nada como um gol para despertar o time e uma variação tática para melhorar: André Dias virava volante, e o time avançava mais ao campo de ataque, sufocando o Alianza e encurtando seu campo. Mesmo assim, alguns sustos aconteceram, pois o centroavante deles ganhava quase todas as bolas aéreas, fazendo pivô para que o time saísse de trás com alguns bicões; some-se a isso a péssima partida defensiva que Ilsinho fez, sempre permitindo que o adversário ficasse livre às suas costas, enquanto Jadilson, na esquerda, não sofria tanto na marcação contudo não apoiava o ataque, reflexo da marcação sofrida pelo alas.
O jeito era tentar mais movimentações pelo meio, onde havia um buraco entre o meio-campo e a defesa adversária, o qual não era aproveitado pois Hugo não avançava ali, e Leandro saía muito pelos lados do campo, deixando Aloísio sozinho para brigar com os caras - muitas vezes, isso já funcionou, mas não na quarta.
No começo do segundo tempo, o time voltou mais aceso - Burricy deve ter dado uma carcada nos jogadores - e após um gol perdido por Hugo após cruzamento de Leandro da esquerda, ele mesmo completou jogada de Josué e ampliou o placar. Isso já definiu o jogo. Veio depois o temor da rotineira "tirada de pé" que todo time dá nessas circunstâncias. Isso, para minha surpresa, não ocorreu, pois o time aumentou seu ímpeto ofensivo, passou a marcar o adversário em seu campo como não fizera ao longo do primeiro tempo, fazendo do Rogério um mero alongador dentro de campo. Os gols de Alex Silva e Júnior fecharam a conta na medida exata para mostrar a diferença entre os times.
Sorte do técnico do Alianza que este time não tem (ainda) o poder daquele recente que conquistou tudo o que poderia conquistar - falta Copa do Brasil, mas que se f...
O pós-jogo fica para outro post.
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
Resumo de uma vida...
Acrescente-se a isso o fato de a viagem não ser de avião, ônibus ou carro; o fato de não ser uma viagem rápida daquelas que se levam algumas horas ou mesmo algunas dias para se realizar; considere uma viagem de navio, que demora meses e ao longo da qual a paisagem não muda muito, é quase a mesma (isso não tira a beleza que o mar tem, sobretudo quando se vê o nascer ou o pôr-do-sol, mas tudo que se repete por muito tempo para nós enjoa, mesmo o mar).
Ainda não satisfeito, acrescente ainda o fato de se partir de uma pequena ilha no Atlântico, num povoado tranqüilo, basicamente agrícola e piscicultor para a maior cidade de um país, em plena época de explosão industrial, urbana, econômica e populacional - fora outros adjetivos... Partindo-se de um regime político ditatorial para um regime relativamente democrático, em uma economia que se estava abrindo ao mercado externo. Partindo-se de uma cultura muito rígida quanto a comportamento, em que moral e honestidade estavam acima de quaisquer outros valores, para um lugar onde são latentes a libertinagem, a vantagem que se quer levar em cima de tudo (apenas uma caricatura do Brasil nos anos 50, sem a intenção de ser preconceituoso, mas com a vergonha de identificar uma certa dose de verdade).
No dia após a chegada no Porto de Santos, já conseguir emprego como carregador de carvão numa chácara na Serra da Cantareira. Depois disso, à base de muito trabalho, conseguir comprar um minicaminhão para fazer entrega de pão e, posteriormente, ser dono de padaria por mais de 30 anos.
Formar família e manter um casamento por mais de 45 anos, apesar de problemas de relacionamento com esposa e filhos, vivendo boa parte dos dias e dos anos sozinho, ou, alguns momentos somente com a esposa ao lado. Após isso, perdê-la diante de si, nos próprios braços, devido a um ataque cardiáco fulminante ao ver a primôgenita num caixão depois de uma viagem de 6h para o traslado do corpo.
Passar a viver então totalmente sozinho, pois nem os outros filhos conseguem conviver consigo por considerarem-no um louco que não diz "coisa com coisa". Considerá-los ingratos por ter-lhes dado de que comer, vestir, sem qualquer restrição de liberdade.
Sobreviver num mundo cujas letras e palavras lhe são estranhas por nunca aprender a escrever no idioma desse país para o qual migrou, mesmo sendo a mesma língua que seus pais fala(va)m. Precisar da ajuda dos poucos amigos, na verdade pessoas com que se tem aquelas relações sociais convencionais ao longo de muito tempo sem uma aproximação (a)(e)fetiva, para poder saber o que está escrito em qualquer papel.
Este é um pequeno e pretenso resumo da vida de meu avô materno, que completa 80 anos nesta data. Não convém entrar nos detalhes propositalmente ocultos por serem somente de interesse familiar, mas cabe saber que o povoado mencionado é Funchal, na Ilha da Madeira.
Ouço sempre histórias completamente diferentes das que sempre ouvi de minha mãe nas poucas vezes em que o visito. Dizem que ninguém é santo, mas, ao mesmo tempo, dizem que há muitos demônios neste mundo; há exageros nos dois lados, e meu avô não está em nenhum deles. Quando ouço suas histórias (não escrevo estórias), faço a comparação imediata com o que ouvi anteriormente e fico com minhas impressões - não opiniões porque é não as ter neste caso, para não julgar - as quais tentei aqui resumir.
O fato além de qualquer julgamento é que a vida de meu avô não foi fácil, e isso é claro e evidente, por isso esta homenagem, da qual ele não terá condições de saber, mas isso não faz com que deixe de ser feito, porque... bem o porquê fica para mim.
Algumas de suas frases: "Estude, meu filho, porque educação ninguém tira da gente", "Se ganhar 10, gasta 9 e guarda 1", "Tive sociedade durante 31 anos, não foram 31 dias" (sempre relacionando isso a outras frases sobre honestidade, algo de que se orgulha).
Parabéns!
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007
Crônica de um almoço...
Pedi a ela que esperasse um momento enquanto pensava rapidamente sobre ajudar... Depois de um rápido "estalo", resolvi fazer a famosa varredura na carteira. Enquanto isso, o companheiro de almoço - ainda mais raros que um "almoço" - perguntou: "A senhora não quer que a gente compre na farmácia para a senhora?". Nisso já percebi sua intenção. A senhora respondeu imediatamente um tanto surpresa: "Não, não precisa". Insistiu novamente: "Eu vou com a senhora na farmácia e compramos o remédio". A resposta: "Mas eu não tenho a receita".
Com a licença devida: é óbvio, pequeno gafanhoto, que, de modo algum, ela poderia comprar o remédio sem a receita, mas isso não lhe convinha. Mesmo ciente disso, peguei algumas moedas e ofereci-lhe; a surpresa foi a ríspida reação: "Isso não dá pra nada!!!". E jogou as moedas de volta em cima da mesa...
Daí a pretensa reflexão que me surge: mesmo ciente do "golpe", tentei ajudar - isso não me surge como uma desculpa ou uma vaidade (Nieztsche escreveu algo como: "se dependesse apenas de caridade, os mendigos morreriam de fome"). Tirar lição de situações como esta e ser cético será o correto? Será que sempre vale a pena tirar a lição das coisas e pô-las em prática? (Esse pensamento é autodestrutivo)
E surge mais uma frase ainda retumbante de "O Labirinto de Fauno": "A Inocência tem um Poder que o Mal não pode imaginar!". Amém!
domingo, 18 de fevereiro de 2007
Uma frase, uma realidade?
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
Empate sem empatia
E na zaga esteve o "problema": se não havia perigo, por que manter três zagueiros? Para possibitar que os alas avançassem. Grande! Estavam avançados demais com a bola e recuados demais sem ela: sem a bola, não pressionavam a saída de bola adversário ao passo que, com ela, estavam estático - prefiro que cheguem detrás aproveitando-se de espaços deixados na defesa adversária. Devido a isso, o time jogava demais pelas laterais, mas quase não ocorriam penetrações; quando ocorriam, eram acionadas por meio de lançamentos do Alex Silva a "la Fabão" (um horror!). A entrada de um meia, no lugar de um zagueiro, permitiria uma articulação melhor de jogadas tanto pelo meio como pelas pontas, além de ser mais um que pudesse chuter a gol - somente dois chutes foram no gol durante o jogo.
O único alento de ontem foi a lembrança de que, em todas as vezes que ganhou a Libertadores, o Tricolor não venceu. Que o mesmo ocorra este ano!
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
quarta-feira, 24 de janeiro de 2007
Ausência
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
terça-feira, 23 de janeiro de 2007
Certas coisas...
E a música?
A música é o silêncio em movimento."
Fernando Sabino, em O Encontro Marcado