quinta-feira, 7 de junho de 2007

Pro alto e avante...

Acordei por volta das cinco e meia, corri pra organizar as coisas, pôr na mochila e picar a mula para tomar o ônibus às seis e quinze. Saí do hotel, chegou na rodoviária e descobri que o ônibus das seis e quinze não parte em feriado (Corpus Christi); o ônibus seguinte partiria às nove e quinze. O jeito foi voltar pro hotel, conversar com o rapaz da portaria, que permitiu que eu voltasse do quarto e dormisse um pouco mais.
Dormi até umas 8 horas, quando ouvi muito barulho, conversas e agitação nas ruas. Coloquei a cabeça no livro e vi que as pessoas estavam se organizando para fazer aqueles tapetes gigantescos, típicos das celebrações de Corpus Christi. Arrumei as coisas de novo, saí definitivamente do hotel e fui acompanhar de perto as pessoas montando o tapete. Mais que um tapete, percebi a união de pessoas mais velhas e jovens em nome de uma tradição, algo comum, mas fora do comum, que os unia.
O ônibus partiu no horário e passou por algumas cidades como Santa Rosa do Sul, Sombrio e São João do Sul antes de chegar à Praia Grande por volta das onze horas. Em seguida, encaminhei-me para o Albergue da Juventude, onde tinha reserva para o feriado, caminhando por cerca de seis quadras da praça central da cidade até a rua do Albergue.
Lá me esperava a D. Neri - a quem eu chamava "Néri" mas é "Nerí" -, a responsável pelo Albergue, uma pessoa muito atenciosa com dicas precisas do lugar. Foi ela quem me contou que a entrada do Parque do Aparados da Serra ficava no alto da serra, à beira do qual a cidade fica, a 22 km por uma estrada de terra e morro acima - a 1000m acima do nível do mar, enquanto a cidade fica a 40m. Para ajudar mais ainda, os ônibus que saíam da cidade e iam até lá já tinham saído, o que saíam, ou não subiam devido à forte chuva que castigou a região duas semanas antes e deixou as estradas lamacentas e com mais buracos e pedras ainda...
Também tinha a possibilidade de caminhar menos, cinco quilômetros, e ver o Cânion Malacaia pela parte baixa, mas decidi seguir a pé até o parque, o que deixou a D. Neri com uma cara de "?!" - particularmente gostei desta descrição.
A primeira dificuldade foi encontrar o caminho para a estrada, já que não havia muitas placas e só se caminha por estradas de terra com muitas pedras, o que cansa demais devido ao fato de cada passada ser bastante instável (as pedras podem fazer tropeçar) e incerta. Até achar o começo da estrada, foram cerca de 40 minutos e uns cinco quilômetros pra cima e pra baixo da parte "rural" da cidade. Depois foi só morro acima.
A subida pela estrada da Serra do Faxinal lembrava muito a que levava até Machu Picchu, pois era um pequena reta e um gancho à esquerda, uma pequena reta e um gancho à direita com a diferença de que as retas são mais longas no Sul. A idéia era chegar ao Parque por volta das 15h porque o fechamento ocorre às 17h e as trilhas lá dentro levariam cerca de 2h pelo que me informei. A subida era mais difícil do que tinha suposto, e meu esforço para encará-la também foi maior do que eu supus que fosse capaz: mesmo subindo bastante rápido e impondo força, não me sentia fatigado e seguia em frente. O maior desafio estava na mente, já que é difícil andar dissipando as forças do corpo, não ver nem sombra de onde se está, do quanto falta pra chegar e manter a concentração alta para que o desânimo não vença. (Um dos motivos que me levaram a ir aos Cânions)
Quando, mais de quatro horas depois de começar a caminhada, faltavam dez minutos para as três horas e vi que ainda faltavam sete quilômetros para chegar ao Parque, aí o desânimo bateu forte mesmo, e tive que "apelar" para carona e seguir em frente. Peguei carona com três caras, num monza marrom, que iam a Caxias do Sul. Assim que me deixaram na porta do Parque, minha idéia foi logo a de tirar a cãmera e registrar o fato, mas só foi aí que percebi que a dita, antes no bolso do meu shorts, havia caído no banco do carro. Corri, agitei os braços, bradei, fiz todo tipo de gesto ridículo que podia imaginar para chamar a atenção dos caras. O desânimo de outro, que fora substituído pela alegria de chegar à porta do parque, tinha se transformado numa imensa desolação. Qual seria a graça da viagem se não poderia registrá-la em fotos? Até pensar em voltar no dia seguinte foi uma idéia que me ocorreu. Já que estava lá no Parque, tinha de conhecê-lo de qualquer jeito, entáo segui em frente mesmo com a perna já dura e o corpo cheio de poeira de estrada, suado e exaurido.
Da entrada do Parque, são dois quilômetros até chegar às trilhas do Vértice e da Cotovelo, a qual segui primeiro e, passados três quilêmetros, cheguei até a borda do Itaimbezinho, de onde se tem vistas maravilhosas, sobretudo num fim de tarde como aquele que estava fazendo. Há algumas cordas para que as pessoas não avancem, mas isso não é impeditivo a que se chegue bem perto do precípio e se mirem os paredões que se estendem até perder a vista - magnífico! Voltei, parei um pouco para descansar e tomar um pouco de água num centro de visitante que há entre as duas trilhas e segui pela Trilha do Vértice, bastante curta, com acessos mais restritos que a do Cotovelo e uma visão diferente, podendo avistar a Cachoeira Véu de Noiva. De volta à entrada do Parque por volta das 16h45min, levei cerca de uma hora e vinte para andar o Parque.
A verdade foi que andei rápido demais o parque e não reparei direito nos detalhes da natureza - como as impressionantes araucárias que havia por lá. (Isso ocorreu como escreveu Caeiro em "Um pensamento visível faz-me andar mais depressa / E ver menos".). Problema estava no que viria depois: ter todo o caminho de volta por uma estrada de terra no escuro, com a temperatura não tão quente (cerca de 12 graus estava fazendo à noite por lá) e o corpo cansado. Embora estivesse preparado - com saco de dormir e lanterna na mochila - não tinha a idéia nem a vontade de passar a noite ao relento, mas também não tinha força para voltar todo caminho.
Andei uns cinco quilômetros quando peguei carona com um rapaz que vivia lá e estava transportando abacaxi e batatas em seu caminhão. Fiquei um pouco espremido mas me arranjei bem no banco. À medida que voltávamos para Praia Grande, descendo a serra, é que dava pra perceber o quanto tinha subido desde lá de baixo. Fazer aqueles gancho em descida à noite e com um precípio bem perto é um bom teste de coragem - ou de loucura.
Estava na cidade por volta das sete e meia. Comprei algumas coisas num mercado da cidade, fui pro albergue, tomei banho, fiz janta e comi num silêncio e numa paz incriveis. Pouco depois chegou ao albergue uma família gaúcha que ia passar uns dias por ali. Conversamos pouco e fui desmaiar em seguida na cama.