O dia começa bem cedo - mais que o comum - às 5h, quando me levanto, arrumo a cama (primeira coisa feita todos os dias), faço as coisas rotineiras do/no banheiro e ponho-me a colocar no mochila as coisas que arrumara na véspera. Como tudo sempre nem sempre sai conforme o previsto, percebo que havia separado muita coisa, e o jeito é levar, além da mochila de 45l nas costas, outra de 30l na mão (ao contrário do que parece, não levei tanta coisa assim, mas convenhamos que um saco de dormir, emprestado, sempre ocupa um volume considerável mesmo nas mochilas mais espaçosas).
Chego às 6h40min no serviço e ponho-me a correr a fazer o que for possível para terminar uma atualização urgente que precisava ser terminada naquele mesmo dia. Ao mesmo tempo, aproveito e imprimo mapas e textos sobre o local para evitar mais transtornos ainda. Às 8h em ponto, marco minha saída, passo num caixa eletrônico e saco o dinheiro estimado a ser gasto durante a viagem - estava indo para um "fim de mundo" onde não tinha como sacar dinheiro e sabe-se lá se se aceitariam cartões.
A idéia seria tomar um ônibus que partisse às 9h diretamente para o aeroporto de Congonhas, de onde partiria o vôo na minha suposição inicial. Inicial porque li direito no bilhete (por que só faço isso na última hora?) que o avião partiria de Cumbica. Por "sorte", ainda eram menos de 8h30min e pude tomar o ônibus que saia neste horário para Cumbica (as aspas não foram à toa, visto que a idéia era chegar um pouco mais tarde ao ponto do ônibus, mas chegar antes e ler de novo o bilhete foram uma inesperada ajuda que tive).
Cheguei ao aeroporto com mais de duas horas de antecedência - o vôo partiria ao meio-dia e vinte para Floripa - fico enrolando até a hora do embarque. A boa sorte tida em Campinas nào foi suficiente para o já famoso caos nos aeroportos, e o vôo atrasou mais de uma hora para sair de solo. Isso estragava completamente o planejamento inicial que era chegar a uma e meia a Floripa, tomar o ônibus das 14h30min até Criciúma e, de lá, mais um, que sairia às 17h45 até Praia Grande.
Às três da tarde, estava na rodoviária de Floripa. Comprei passagem para Araranguá, onde passaria a noite, e tomaria um ônibus para Praia Grande na quinta de manhã pois não tinha mais como chegar lá na quarta. Assim que acabei de comprar a passagem, como infelizmente é comum, uma senhora chegou oferecendo-me algumas balas; como meu humor não era dos melhores - teria que esperar quase duas horas até a saída do ônibus e já tinha perdido praticamente um dia do tão esperado feriado - não fiz uma cara das mais agradáveis inicialmente, mas expressão do rosto dela quebrou o gelo, e decici pergunta quanto custavam as balas, só que não comprei por achá-las caras e perguntei se não podia dar um desconto (cara-de-pau perguntar isso!) mas não rolou.
Como a ordem era "enrolar", passei a andar pela rodoviária e (re)descobri que havia um museu no andar de cima. Vi com bastante atenção cada um dos quadros cujo tema era sobre mulheres e cores (cada quadro retratava mulheres seminuas com cores diferentes e poemas diferentes para cada um). Depois sentei e continuei a ler o livro levado para viagem; nisso ouço a mesma voz de pouco antes: "não quer comprar essas balas pra me ajudar, moço?". Achei engraçado porque ela não me reconheceu, talvez por estar com cabeça baixa enquanto lia, e perguntei: "a senhora vai me dar desconto por já ser freguês antigo?". Ela também achou graça e esboçou um sorriso no lugar da cara triste, que logo voltou a ser triste e percebi que a expressão de tristeza é uma espécie de recursos que usam.
Ao contrário do vôo, o ônibus partiu no horário. No caminho, com o dia que terminava como belo cenário, dava pra ver a ponte Hercílio Luz e a ilha de Floripa ao fundo. O itinerário contemplou as cidades de Laguna, Tubarão, Criciúma e Araranguá, aonde chegamos por volta das 21h30min. Só tive tempo de achar um hotel por perto, desempacotar as tralhas, tomar banho, ver um pouco a final da Copa do Brasil ganha pelo Fluminense e dormir para o dia seguinte.