Um: caminha rapidamente pela calçada procurando evitar as poças d'água para que sua calça clara, já manchada pelo molho da hora do almoço, não fique ainda mais suja...
Outro: move-se lentamente, procurando no chão pelo chinelo que perdeu e com o outro nas mãos...
Comum aos dois: o chuvisco constante que cai no começo da noite... mas é para:
Um: uma breve distração que lhe alivia um pouco seus pequenos problemas que dominam seu pensamento...
Outro: talvez mais uma agrura das muitas que já enfrenta todos os dias nas ruas...
Mas Um tem sua atenção chamada pelo choro do Outro, que quer saber onde está o outro chinelo que lhe falta - o outro carrega nas mãos e nada fica em seus pés, entregues ao chão molhado. O choro do Outro não era desses "comuns" (não existem choros comuns): tinha um quê de gutural, de quem parece não estar acostumado ou não sabe chorar.
Um pára, responde ao Outro que não viu qualquer chinelo ali por perto e segue alguns passos adiante com seus passos apressados. O choro mais alto do Outro e a história do homem que reclamava por estar descalço até que conheceu o homem que não tinha pés pararam Um. Voltou, aproximou-se do Outro, esperou que um Terceiro, a quem o Outro também perguntou pelo chinelo, passasse, tirou os sapatos e ofereceu-os ao Outro, que recusou a princípio, talvez por não acreditar, mas se deu conta da oferta, e aceitou.
Um: calado, virou-se e seguiu caminhando, sentindo sob os pés o chão há muito desconhecido para esses mesmo pés...
Outro: pegou os sapatos nas mãos e trocou o choro por um riso bastante alto e grave que se fazia de longe...
Um: estranhava a si mesmo pela repentina atitude, mas não buscava explicações para não recair na vaidade que costuma aflorar em tais situações; nem mesmo buscava no rosto das pessoas com que cruzou no ônibus a percepção ou a reação que se tem a alguém vestido socialmente que aparece descalço...
Mais importante que tudo isso era a chuva que caía e entrava na terra, que guardava a semente que continua na sua luta pra nascer...