Assim escreveu Alberto Caeiro:
"Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido."
Na república em que moro, vive uma cachorra chamada Sophia (com "ph" mesmo, mas isso não a torna ácida), uma rotweiler um tanto bonachona que mesmo tendo comida no próprio prato, sempre aparece à porta da cozinha com uma cara de "pidona" na esperança de que lhe dêem algo pra comer. Mesmo sabendo da manha da esperta, às vezes lhe dou algo pra comer e faço um afago na nuca, algo que adora - isso faz com que eu fique com o cheiro dela nas mãos, inclusive a esta hora, mesmo lavando bem.
Tem outras vezes em que tento distraí-la perguntando "E a bola, Sophia? Cadê a bola?" para que se anime a procurá-la ou eu mesmo a pego do esconderijo dela, a casinha ou um buraco na areia perto dali. Com a bola na minha mão, ela se agita fica pulando à espera do lançamento, e é aí que me divirto vingindo que jogo a bola só pra ela correr à toa - muita maldade isso. Quando jogo a bola de verdade, procuro tomar cuidado pra não jogar numa área do quintal que tenha muitas plantas rasteiras onde ela possa machucar-se, já que sai correndo sempre como um trem desgovernando atrás da bola.
Só que tem vezes, em que ela fica deitada, nem é perto da porta da cozinha e fica com uma cara muito triste. Chego perto e compartilho seu silêncio. E troco de posiçao com ela quando passo a apenas observá-la ao contrário do que ela faz comigo normalmente.
A Sophia é uma cachora que já passou de metade de seu tempo máximo de vida e, penso,talvez seja algo relacionado a isso que faz com que, cada vez mais, ela fique em seu canto, quieta, pensativa, desanimada. Talvez ela perceba, de alguma forma que não compreendamos, a passagem do tempo e como isso a vai afetando. É nesse olhar que me vejo refletido não só no momento em que o miro, mas também no futuro em que isso me projeta: será que ficarei tal qual a Sophia quando tiver sua idade proporcional? Serei uma pessoa animada, com energia para brigar por aquilo que considero certo?
"Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?" questiona Álvaro de Campos. Tomara que a Sophia não tenha tantos pensamentos nebulosos em sua mente.