Diz-se - não se sabe se com razão - que Deus escreve certo por linhas tortas. Oras, esta é uma idéia que corrobora, complementa, vem ao encontro, municia etc a idéia de que tudo está escrito.
Se tudo está escrito, o livre-arbítrio é uma balela! Aceitar isso é simplesmente cruzar os braços e esperar o abraço da Dona Morte!
Tomo para mim - se não me for dado, tomo do mesmo jeito - que me cabe ao menos pontuar o que está sendo escrito; a pontuação pode não alterar as palavras, mas tem o poder de alterar significados, idéias expressas. Metaforicamente, funciona como o rio: a água seriam as palavras - algumas vindas do céu em forma de chuva - e a pontuação o leito, que indica a direção tomada.
Há momentos da vida em que, no meio de um turbilhão incessamente de acontecimentos, é preciso uma breve folga - eis o hora da vírgula, uma breve pausa para respirar. Em outros, exige-se um tempo maior de fôlego e até reflexão, aí cabe um ponto-e-vírgula, que não é uma fuga.
Haverá outros momentos em que as coisas ficam muito complicadas e é preciso explicá-las melhor - esta é a hora dos dois-pontos ou do travessão. Estes dois indicam também um diálogo, o que também é essencial para o esclarecimento das coisas.
O mais complicado de todos talvez seja o ponto: ele serve para indicar o fim de um período, de uma breve idéia. Acontece que o que vier depois não será algo a começar totalmente do nada, sem qualquer vínculo com o que veio antes, pois isso seria uma falta de nexo, um anacoluto.
Por vezes, a vontade é de colocar um ponto final num assunto, numa fase, porém isso é ilusão: em todo texto coerente, há sempre uma, ainda que tênue, continuidade. Um ponto final pode ser apenas o marco para o início de um novo parágrafo, mas não o fim de tudo, pois a vida (texto) continua. Esse ponto final é uma ilusão. Há somente um ponto final, entretanto este não nos é dado utilizar.
É por tudo isso que atualmente fico em reticências: elas não marcam necessariamente uma pausa ou um fim. Quando se usam reticências, fica indicado que a idéia escrita continua, mas por outra via, desconhecida, que não a das palavras, uma via subjetiva à análise do leitor.
"As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho" (Mário Quintana)
"I know not what tomorrow will bring" (Fernando Pessoa)
Não se sabendo o que virá, mas indo ao seu encontro, as reticências são a melhor forma de pontuar a vida... Seguindo por elas, talvez se encontre um caminho que nos fará evitar o Ponto Final...