Mais um dia de muita chuva em São Paulo: trovões, trânsito quase parado, ônibus incrivelmente cheio, apertado e quente. A única opção "saudável" e, ainda bem, "louca" é sair andando sob chuva.
Como ainda tinha um bilhete da Ponte Orca, fui a pé da Barra Funda até a Vila Madalena para economizar o dinheiro de uma passagem, já que dinheiro não nasce em árvore e eu não planto muitas.
Caminhar sob chuva - mesmo que tecnicamente não seja chuva, mas uma garoa constante - tem um poder incrível e revigorar sobre o espírito em virtude de conseguir tirar da mente os falsos problemas do mundo com que geralmente nos preocupamos. Talvez seja porque a chuva é real, existe, e isso traga a verdadeira nossa de realidade; talvez haja um processo metafísico que lhe permita atingir mais do que a epiderme. Nessas horas, lembro-me da metáfora do Mr. Takeda, segundo o qual a chuva seria como um batismo.
Pelas íngremes e cansativas subidas e descidas do Sumaré ia sob a chuva quando reparei num carro passando sobre a rua e acertando um galho que caíra devido ao vento. Fui ao meio da rua, peguei-o e deixei-o mais perto do meio-fio para que não atrapalhasse novamente. Ao tornar à calçada, uma moça faz consigo uma suspiro de alívio, vira-se pra mim e diz:
- Pensei que você fosse pegar aquele galho e quebrar alguma coisa.
Um pouco surpreso, disse a ela:
- Estamos tão acostumados a ver cenas de violência que é sempre a primeira coisa que começamos a perceber a nosso redor. Ficamos condicionados a isso.
Esse foi o pensamento principal na volta no metrô. As emissoras e jornais nos "bombardeiam" com o mesmo de sempre, sem pausa. Por isso que sempre recomendo o Jornal das Pequenas Coisas: "Não é que o mundo seja só ruim e triste. É que as pequenas notícias não saem nos grandes jornais."