quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Haicai

Árvore que cresce
Do chão, como uma explosão,
Ao céu, como prece.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

A árvore que floresce no inverno

OS SINAIS ERAM INEQUÍVOCOS. Aquelas nuvens baixas e escuras... O vento que soprava desde a véspera, arrancando das árvores folhas amarelas e vermelhas. É, o inverno estava chegando. Deveria nevar.
Viriam então a tristeza, as árvores peladas, a vida recolhida para funduras mais quentes, os pássaros já ausentes, fugidos para outro clima, e aquele longo sono da natureza, bonito quando cai a primeira nevada, triste com o passar do tempo...
Resolvi passear, para dizer adeus às plantas que se preparavam para dormir, e fui, assim, andando, encontrando-as silenciosas e conformadas diante do inevitável, o inverno que se aproximava.
E foi então que me espantei ao ver um arbusto estranho. Se fosse um ser humano, certamente o internariam num hospício, pois lhe faltava o senso da realidade, não sabia reconhecer os sinais do tempo.
Lá estava ele, ignorando tudo, cheio de botões, alguns deles já abrindo, como se a primavera estivesse chegando. Não resisti e, me aproveitando de que não houvesse ninguém por perto, comecei a conversar com ele, e lhe perguntei se não percebia que o inverno estava chegando, que os seus botões seriam queimados pela neve naquela mesma tarde.
Argumentei sobre a inutilidade daquilo tudo, um gesto tão fraco que não faria diferença alguma. Dentro em breve tudo estaria morto...
E ele me falou, naquela linguagem que só as plantas entendem, que o inverno de fora não lhe importava, o seu era um ritmo diferente, o ritmo das estações que havia dentro.
Se era inverno do lado de fora, era primavera lá dentro dele, e seus botões eram um testemunho da teimosia da vida que se compraz mesmo em fazer o gesto inútil.
As razões para isso? Puro prazer. Ah! Há tantas canções inúteis, fracas para entortar o cano das armas, para ressuscitar os mortos, para engravidar as virgens, mas não tem importância, elas continuam a ser cantadas pela alegria que contêm...
E há os gestos de amor, os nomes que se escrevem em troncos de árvores, preces silenciosas que ninguém escuta, corpos que se abraçam, árvores que se plantam para gerações futuras, lugares que ficam vazios, à espera do retorno, poemas inúteis que se escrevem para ouvidos que não podem mais ouvir, porque alguma coisa vai crescendo por dentro, um ritmo, uma esperança, um botão pela pura alegria, um gozo de amor.
E me lembrei de um pôster que tenho no meu escritório, palavras de Albert Camus: "No meio do inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível".
E aí a alucinação teológica tomou conta da minha cabeça e me lembrei de uma velha tradição de Natal, ligada à árvore. As famílias levavam arbustos para dentro de suas casas.
E ali, neve por todas as partes, elas os faziam florescer, regando-os com água morna. Para que não se esquecessem de que, em meio ao inverno, a primavera continuava escondida em alguma parte.
Inverno: o frio, a neve, o silêncio, a morte.
Quando as plantas florescem na primavera, ali os homens escrevem os seus nomes. Mas quando as plantas florescem no inverno, ali se escreve o nome do Grande Mistério... (Alves, Rubem - Folha de São Paulo - 25/12/2007)

domingo, 23 de setembro de 2007

A chegada da Primavera

Oficialmente, a Primavera chega quando do equinócio, ou seja, quando o Sol se projeto sobre a Linha do Equador, ou próximo dele, e os dias e noites têm igual duração.
Num dos poemas que escreveu sobre a Primavera, diz Caeiro:

"Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real."


Sim: "há as flores, novas folhas verdes, há outros dias suaves" - e num dia suave como hoje, vi muitas flores, mas bastou apenas ver a mais especial delas novamente que sei que a Primavera chegou...

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Além da Razão

"A razão age com lentidão, e com tantas vistas, sobre tantos princípios, os quais é mister estejam sempre presentes, que a todo o instante adormece ou perde-se, deixa de ter todos os seus princípios presentes. O sentimento não age dessa maneira; age instantaneamente, e está sempre pronto para agir. É preciso, pois, depositar a nossa fé no sentimento; de outro modo, ela será sempre vacilante.
(...) O último passo da razão é o de reconhecer que existe uma infinidade de coisas que a ultrapassam; se não chegar a isso, é porque é fraca."
Blaise Pascal, in "Pensamentos"

sábado, 8 de setembro de 2007

Solstício...

Mesmo que hoje seja o dia do ano em que o Sol brilhe mais forte, mesmo que sua força ilumine e faça vicejar tudo o que possa haver...
Mesmo que alguém tende dele se esconder na sombra de um muro alto em fechado sem aberturas, ele o alcançará porque hoje é um eterno meio-dia...
Cores, antes pensadas como extintas, reaparecem como nunca outrora tiveram sido vistas, e um colorido novo e inegualável se lança por onde a vista renascida e renovada possa buscar... E busca, porque o Sol brilha mais do que em qualquer outro dia...
Só dele se oculta a semente que germina em segredo no solo, mas que sente seu calor e já o conhece há tempos...

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Terra Natal

A imensa maioria das coisas do Universo ocorrem longe da vista de qualquer um, sempre aonde nem sequer a luz chega ou de onde nenhum som se ouve...
É longe de todo e - sobretudo - longe de todos que a semente plantada no solo deve tirar as forças para tornar-se algo em si, para ultrapassar a mais tênue dos limites que pode haver: o Nada e a Vida. Deve encontrar no Nada, aquilo que está-além e em nenhum outro lugar. Tem que varrer e transbordar sua solidão para que vivifique e transborde a dimensão do caos, pertutbe o Universo - a imensa vontade que o rege e é tão crível quanto alcançável...
E lá, e so lá, que pode estar - somente lá...

terça-feira, 24 de julho de 2007

Um novo caminhar

Um: caminha rapidamente pela calçada procurando evitar as poças d'água para que sua calça clara, já manchada pelo molho da hora do almoço, não fique ainda mais suja...

Outro: move-se lentamente, procurando no chão pelo chinelo que perdeu e com o outro nas mãos...


Comum aos dois: o chuvisco constante que cai no começo da noite... mas é para:

Um: uma breve distração que lhe alivia um pouco seus pequenos problemas que dominam seu pensamento...

Outro: talvez mais uma agrura das muitas que já enfrenta todos os dias nas ruas...


Mas Um tem sua atenção chamada pelo choro do Outro, que quer saber onde está o outro chinelo que lhe falta - o outro carrega nas mãos e nada fica em seus pés, entregues ao chão molhado. O choro do Outro não era desses "comuns" (não existem choros comuns): tinha um quê de gutural, de quem parece não estar acostumado ou não sabe chorar.
Um pára, responde ao Outro que não viu qualquer chinelo ali por perto e segue alguns passos adiante com seus passos apressados. O choro mais alto do Outro e a história do homem que reclamava por estar descalço até que conheceu o homem que não tinha pés pararam Um. Voltou, aproximou-se do Outro, esperou que um Terceiro, a quem o Outro também perguntou pelo chinelo, passasse, tirou os sapatos e ofereceu-os ao Outro, que recusou a princípio, talvez por não acreditar, mas se deu conta da oferta, e aceitou.

Um: calado, virou-se e seguiu caminhando, sentindo sob os pés o chão há muito desconhecido para esses mesmo pés...

Outro: pegou os sapatos nas mãos e trocou o choro por um riso bastante alto e grave que se fazia de longe...

Um: estranhava a si mesmo pela repentina atitude, mas não buscava explicações para não recair na vaidade que costuma aflorar em tais situações; nem mesmo buscava no rosto das pessoas com que cruzou no ônibus a percepção ou a reação que se tem a alguém vestido socialmente que aparece descalço...


Mais importante que tudo isso era a chuva que caía e entrava na terra, que guardava a semente que continua na sua luta pra nascer...