quarta-feira, 30 de maio de 2007

Um adendo

Já que o sono - ou falta dele - está em pauta, um pouco mais a respeito:


HOMEM, O ANIMAL INSONE

(E. M. Cioran)

Quem quer que tenha dito que o sono é o equivalente da esperança teve uma intuição penetrante da assustadora importância não só do sono mas também da insônia! A importância da insônia é tão colossal que sou tentado a definir o homem como sendo o animal que não pode dormir. Por que chamá-lo de animal racional, se há outros igualmente razoáveis? Mas não existe outro animal em toda a criação que queira dormir e não possa. O sono é esquecimento: o drama da vida, suas complicações e obsessões se desfazem completamente, e cada despertar é um novo começo, uma nova esperança. Assim a vida mantém uma agradável descontinuidade, a ilusão de uma permanente regeneração. A insônia, por sua vez, da à luz um sentimento de tristeza irrevogável, de desespero e agonia. O homem saudável – o animal – apenas chapinha na insônia: ele nada sabe sobre esses que dariam um reino por uma hora de sono inconsciente, esses que se horrorizam tanto diante de uma cama quanto diante de uma mesa de tortura. Há um vínculo estreito entre a insônia e o desespero. A perda da esperança vem com a perda do sono. A diferença entre o paraíso e o inferno: pode-se sempre dormir no paraíso, mas nunca no inferno. Deus puniu o homem tirando-lhe o sono e dando-lhe o conhecimento. Não é a privação do sono uma das torturas mais cruéis praticadas nas prisões? Os loucos sofrem enormemente com a insônia, daí as suas depressões, o seu desgosto com a vida, e os seus impulsos suicidas. Não é a sensação –típica das alucinações acordadas – de mergulhar num abismo uma forma de loucura? Os que cometem suicídio atirando-se de pontes para dentro dos rios ou de edifícios sobre os calçamentos, motiva-os por certo um desejo cego de cair e a atração ofuscante das profundezas abismais.

Minha alma é caos, como pode então ser? Tudo está em mim: procura e encontrarás. Sou um fóssil que data do princípio do mundo: nem todos os seus elementos cristalizaram completamente, o caos inicial ainda transparece. Sou a absoluta contradição, o clímax das antinomias, o último limite das tensões; em mim tudo é possível, pois sou aquele que no momento supremo, diante do nada absoluto, gargalhará.

(On the heights of despair Tradução de Renato Suttana)

Vendo passarinho verde

Nestes dias em que tem feito muito frio, com nenhum cobertor à disposição, as noites são passados quase totalmente insones, o que se reflete num tremendo sono durante o dia e só é paliativamente curado com doses generosas de café. Some-se a isso uma semana de estudos dedicada a um simples teste cujo resultado é de vital importância para o semestre. Resultado: sair cansado do trabalho e passar a tarde estudando heurísticas, álgebra modular etc, além de ter aula à noite.
Em vez disso, neste "belo dia resolvi mudar e fazer tudo que eu queria fazer": cheguei em casa e, sem almoçar, troquei-me e mesmo com uns 15 graus fui correr de regata e shorts em volta do lago - com vento e tudo.

Periquitos

Mesmo com a respiração dificultada pelo ar mais gelado, estava num ritmo bom e queria fazer o trecho "padrão" de três voltas. Eis que pelo meio da primeira volta, ao passar ao lado de um mato um pouco mais alto, sai uma revoada desses pequenos periquitos (maritacas na verdade) que se vêem - pelo menos eu vejo - somente pela manhã, no alto dos postes, cantando bem cedo. Foi uma bela surpresa. Eles saíram e voaram para as árvores que ficam do outro lado da pista - cerca de 3m de largura. Na hora, pensei na expressão "ver passarinho verde" e entendi que estava vivenciando a expressão.
Depois disso, o dia seguiu seu curso esperado: casa, almoço, banho, faculdade, estudo, aula, casa.
Felizmente uma pequena decisão, pequena mudança trouxe algo de diferente a este dia.

domingo, 27 de maio de 2007

Pode um vídeo resumir (um)a vida?



Acho que sim ;)

sábado, 26 de maio de 2007

Verdade desconhecida

Se, após a morte, a condição para entrada no paraíso for condicionada pela pergunta "O que verdadeiramente aprendeste de valor em tua vida?", pego as minhas coisas e vou direto para o andar de baixo...

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Conhecendo Dona Dolores...

Ontem à tarde, mais uma vez a fantástica e animada aula de criptografia: aquela em que o professor sempre começa com quinze minutos de atraso, na qual eu despenco de sono, a mesma em que o ministrante constantemente se perde durante explicações...
Finda a aula, juntos aos comuns "elogios" à aula, um colega comenta que estava muita dor de cabeça e que isso quase o fizera bater o carro na vinda para Unicamp. Obviamente insisti para que fôssemos ao CECOM, uma área do HC da Unicamp só para alunos. Como ele fez questão de bandejar antes, chegamos ao CECOM cinco minutos depois de fechar.
A dor de cabeça piorou e fomos ao Pronto-Socorro do HC tentar atendimento. Primeiramente, fez-se um cadastro e fomos sentar à espera de atendimento. Pouco tempo depois - para os padrões públicos de atendimento - o colega foi chamado. Pensei que iria embora logo.
Logo em seguida, à minha direito, no corredor, percebi que vinha andando uma senhora de idade que tinha enfaixados o braço esquerdo quase todo e a perna direita (depois soube que havia sofrido uma queda). Não sei se por eu a ter olhado, ela fez questão de pedir licença e "acomodar-se" a meu lado. Vale explicar que não estava em um banco esperando meu amigo, mas em cima de um "banco", um nível, sei lá, muito gelado por sinal, onde estava sentado.
Depois de pedir licença, a senhora deitou-se nesse cimento gelado. A única coisa que pude fazer no momento foi oferecer minha mochila para apoiar a cabeça. Ela perguntou se não tinha nada que pudesse quebrar, mas respondi que não tinha e que o único problema de algo duro seria machucar a cabeça dela. Ela agradeceu e aceitou.
Como já esperava que a iniciativa de uma conversa partisse dela, só esperei até que me perguntasse se eu via televisão; respondi que não, e ela começou a contar sobre o programa da Claudete ("Pra Valer"), de quem ela gosta muito, e também da Cristina (Rocha), cujo programa trata sobre pessoas que buscam ou oferecem coisas e serviços, uma espécie de classificados na TV.
Ela contou que queria ajudar do Programa da Cristina para ver se encontrava alguém que a quisesse ajudar: ela vive numa casa pequena que divide com o filho, nora e duas filhas - são cinco pessoas e pouco espaço. O que ela deseja é encontrar alguém disposto a fazer algumas reformas para aumentar sua casa e acomodar todo mundo lá. Só que só era possível entrar em contato com o programa por e-mail, e ela não tinha nem podia entrar na Internet.
É claro que a história me deixou sem jeito (a quem não deixaria?). O que eu podia fazer a respeito? A única coisa que me veio à mente foi pegar o telefone e entrar em contato com o programa contando sua história e pedindo para que entrassem em contato. Só que, como tem sido uma constante na vida, demorei demais e não disse o que deveria dizer, e veio um enfermeiro simpático que chamou por ela, encaminhando-a para atendimento lá dentro. Dona Dolores foi simpática ao despedir-se, e eu fiquei com mais uma sensação de frustração.
Meu colega só tinha ido lá dentro para uma espécie de triagem - tirar pressão entre outras coisas - para ver se de fato precisava de uma consulta. E esperamos mais ainda. Quando ficamos quase três horas que nem tachos lá, ele disse que se sentia melhor - com certeza a espera fez com que percebesse que sua dor não fosse tão ruim assim.
Hoje, ao que parece, ele se sentiu melhor e nem teve resquícios das dores de cabeça e muscular que o afligiram ontem. E eu com esse peso na consciência...

domingo, 22 de abril de 2007

O abismo que leva ao céu...

Sobre como se pode inventar e mudar a realidade de acordo com o sonho...

Sem se esquecer de que o sonho tem um "pé" na realidade.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Expandindo PL

Quando se estuda Teoria da Computação, recai-se muito em problemas da Matemática e vice-versa - até por isso existe o curso de Matemática Computacional. Uma das teorias interessantes trata sobre a redução de problemas: caso se tenha um problema A, cuja solução seja desconhecida, e se conhece um problema B com propriedades em comum, sendo possível a redução de uma instância de A para o problema B, utiliza-se a técnica de B para resolver A. Daí se depreende, não claramente a partir da explicação acima, que o problema A é mais complexo que B além de que toda nem toda solução resolve A.
A redução só é possível por meio da modelagem que se aplica ao problema A "transformando-o" em uma instância de B. Exemplo: se o problema A é para multiplicar n números, mas só se sabe como somá-los (problema B), como fazer? Modela-se o problema A como sendo somar repetidas vezes cada par de números, tendo assim o produto dois-a-dois; repete-se o procedimento para cada produto fazendo com que se torne fator de uma nova multiplicação até que se tenha o resultado correto. Computacionalmente isso é possível embora vá levar muito mais tempo, mas a questão de tempo só é levada em conta se você não o tem sobrando :)
Ainda em Computação, estuda-se uma classe de problemas chamada Programação Linear,
que trata de buscar o ótimo para uma dada função linear (função-objetivo) - ótimo é o maior valor, em módulo, que esta função pode assumir (querendo maximizar, é o maior valor, e o contrário para minimzar). Obviamente, para chegar ao ótimo, bastaria colocar os valores máximos nas variáveis e pronto. Vida e Computação não são óbvios (aprenda!). Desse jeito, os maiores valores são infinitos, e o ótimo também. Para controlar isso, existem as chamadas funções de restrição: equações ou inequações que servem como parâmetros aos valores que as variáveis da função-objetivo.
Para que tudo isso?
Nos muitos paralelos que faço relacionando "além-Computação" com Computação, acabo fazendo uma espécie de redução, ou seja, aplico um certo modelamento para tentar encontrar soluções que não sejam respostas prontas para instâncias específicas do Problema Maior, mas subsídios valiosos a seu entendimento.
Um exemplo disso é observar o que muitos consideram o objetivo da vida: serem felizes. Logicamente ser feliz acaba sendo resultado de momentos felizes, e uma função-objetiva aplicável seria maximizar esses momentos. Aí já se começa a entrar em Programação Linear, faltando somente as funções de restrição, o que acaba sendo até fácil de observar, por tratar-se de toda e qualquer coisa, pessoas, circunstância etc... qualquer coisa serve, pois tudo pode potencialmente (olha o plenoasmo!) ser restritivo à felicidade. É evidente que, minimizando-se as restrições, chega-se ao máximo na função objetivo.
"Grande! Isso eu já sabia!", tornaria o Pequeno Gafanhoto (agora com letra maiúscula). Matemática não é um mistério tão impossível quanto alguns pensam, porque mesmo ela, por increça que parível, derivou a partir da observação das coisas simples que aconteciam ao redor do homem, por isso não é surpresa e nem um grande mérito "matematizar" qualquer coisa.
Para escolha que se faz, há, pelo menos, uma renúncia a ser feita - senão não haveria o que escolher. Saber otimizar o valor das escolhas talvez não seja evidente, por não se conhecer a priori os resultados que podem trazer. Outra possibilidade é analisar o problema complementar: reduzir as perdas com as renúncias. Definição de prioridades é uma maneira de fazê-lo - isso equivaleria a atribuir pesos a cada possibilidade, ou seja, os valores dos coeficientes nas funções-objetivo.
Citada a idéia, agora basta que se traga o modelo à luz da realidade a nela o submeta para ver se funciona. Alguém se arrisca?