domingo, 23 de setembro de 2007

A chegada da Primavera

Oficialmente, a Primavera chega quando do equinócio, ou seja, quando o Sol se projeto sobre a Linha do Equador, ou próximo dele, e os dias e noites têm igual duração.
Num dos poemas que escreveu sobre a Primavera, diz Caeiro:

"Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real."


Sim: "há as flores, novas folhas verdes, há outros dias suaves" - e num dia suave como hoje, vi muitas flores, mas bastou apenas ver a mais especial delas novamente que sei que a Primavera chegou...

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Além da Razão

"A razão age com lentidão, e com tantas vistas, sobre tantos princípios, os quais é mister estejam sempre presentes, que a todo o instante adormece ou perde-se, deixa de ter todos os seus princípios presentes. O sentimento não age dessa maneira; age instantaneamente, e está sempre pronto para agir. É preciso, pois, depositar a nossa fé no sentimento; de outro modo, ela será sempre vacilante.
(...) O último passo da razão é o de reconhecer que existe uma infinidade de coisas que a ultrapassam; se não chegar a isso, é porque é fraca."
Blaise Pascal, in "Pensamentos"

sábado, 8 de setembro de 2007

Solstício...

Mesmo que hoje seja o dia do ano em que o Sol brilhe mais forte, mesmo que sua força ilumine e faça vicejar tudo o que possa haver...
Mesmo que alguém tende dele se esconder na sombra de um muro alto em fechado sem aberturas, ele o alcançará porque hoje é um eterno meio-dia...
Cores, antes pensadas como extintas, reaparecem como nunca outrora tiveram sido vistas, e um colorido novo e inegualável se lança por onde a vista renascida e renovada possa buscar... E busca, porque o Sol brilha mais do que em qualquer outro dia...
Só dele se oculta a semente que germina em segredo no solo, mas que sente seu calor e já o conhece há tempos...

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Terra Natal

A imensa maioria das coisas do Universo ocorrem longe da vista de qualquer um, sempre aonde nem sequer a luz chega ou de onde nenhum som se ouve...
É longe de todo e - sobretudo - longe de todos que a semente plantada no solo deve tirar as forças para tornar-se algo em si, para ultrapassar a mais tênue dos limites que pode haver: o Nada e a Vida. Deve encontrar no Nada, aquilo que está-além e em nenhum outro lugar. Tem que varrer e transbordar sua solidão para que vivifique e transborde a dimensão do caos, pertutbe o Universo - a imensa vontade que o rege e é tão crível quanto alcançável...
E lá, e so lá, que pode estar - somente lá...

terça-feira, 24 de julho de 2007

Um novo caminhar

Um: caminha rapidamente pela calçada procurando evitar as poças d'água para que sua calça clara, já manchada pelo molho da hora do almoço, não fique ainda mais suja...

Outro: move-se lentamente, procurando no chão pelo chinelo que perdeu e com o outro nas mãos...


Comum aos dois: o chuvisco constante que cai no começo da noite... mas é para:

Um: uma breve distração que lhe alivia um pouco seus pequenos problemas que dominam seu pensamento...

Outro: talvez mais uma agrura das muitas que já enfrenta todos os dias nas ruas...


Mas Um tem sua atenção chamada pelo choro do Outro, que quer saber onde está o outro chinelo que lhe falta - o outro carrega nas mãos e nada fica em seus pés, entregues ao chão molhado. O choro do Outro não era desses "comuns" (não existem choros comuns): tinha um quê de gutural, de quem parece não estar acostumado ou não sabe chorar.
Um pára, responde ao Outro que não viu qualquer chinelo ali por perto e segue alguns passos adiante com seus passos apressados. O choro mais alto do Outro e a história do homem que reclamava por estar descalço até que conheceu o homem que não tinha pés pararam Um. Voltou, aproximou-se do Outro, esperou que um Terceiro, a quem o Outro também perguntou pelo chinelo, passasse, tirou os sapatos e ofereceu-os ao Outro, que recusou a princípio, talvez por não acreditar, mas se deu conta da oferta, e aceitou.

Um: calado, virou-se e seguiu caminhando, sentindo sob os pés o chão há muito desconhecido para esses mesmo pés...

Outro: pegou os sapatos nas mãos e trocou o choro por um riso bastante alto e grave que se fazia de longe...

Um: estranhava a si mesmo pela repentina atitude, mas não buscava explicações para não recair na vaidade que costuma aflorar em tais situações; nem mesmo buscava no rosto das pessoas com que cruzou no ônibus a percepção ou a reação que se tem a alguém vestido socialmente que aparece descalço...


Mais importante que tudo isso era a chuva que caía e entrava na terra, que guardava a semente que continua na sua luta pra nascer...

sábado, 21 de julho de 2007

Preocupante futuro

Há alguns anos, estava no ônibus quando passamos numa esquina em cujo farol estava uma daqueles pessoas que fazem apresentações para ganharem uns trocados; vendo isso, uma criança, aproximadamente com uns nove anos, virou pra mãe e perguntou: "Mãe, o que é isso? É que nem mendigo, né?"

Achei engraçado a princípio, mas depois me toquei da distorção social contidas naquelas palavras, mesmo - e principalmente - sendo ditas por uma criança.

Hoje no metrô, desce um monte de gente na Sé e um outro monte sobe. Ao ver um banco cinza, reservado para gestantes, pessoas idosas, com criança de colo e com dificuldades de locomoção, uma menininha sentou-se lá inocentemente. Uma outra chegou e disse-lhe: "Sai daí que é lugar pra gente doente".

Preocupante o nosso futuro...

sábado, 14 de julho de 2007

Favola

Quem me dera ser tragado pela terra para depois depois brotar das mais profundas entranhas da terra e emergir de lá em direção ao céu...

E
raccontano che lui si trasformò
in albero e che fu
per scelta sua che si fermò

E stava lì a guardare
la terra partorire fiori nuovi

Così
fu nido per conigli e colibrì
il vento gl’insegnò i sapori
di resina e di miele selvatico
e pioggia lo bagnò

La mia felicità - diceva dentro
se stesso - ecco ... - ecco ...
l’ho trovata ora che
ora che sto bene
e che ho tutto il tempo per me
non ho più bisogno di nessuno
ecco la bellezza della vita che cos’è

Ma un giorno passarono di lí
due occhi di fanciulla
due occhi che avevano rubato al cielo
un po’ della sua vernice

E sentì tremar la sua radice

Quanto smarrimento
d’improvviso dentro sè
quello che solo un uomo
senza donna sa che cos’è
e allungò i suoi rami
per toccarla

Capì che la felicità
non è mai la metà
di un infinito

Ora era insieme luna e sole
sasso e nuvola
era insieme riso e pianto
o soltanto
era un uomo che cominciava a vivere
ora
era il canto che riempiva
la sua grande immensa solitudine
era quella parte vera
che ogni favola d’amore
racchiude in sè
per poterci credere

(E assim será)