Praticamente nada se iguala a uma noite de chuva e trovões para escrever.... seus sons rasgam os céus e abrem espíritos encontrando reverberação nas inquietações aflitivas que recaem sobre todos e normalmente são ignoradas ou suprimidas, convenientemente ou não, por cada um...
Tais inquietações advêm de alguma inconformidade entre o ser e o mundo ou entre o status quo e o que se imagina que devesse ser. (Em Spinoza, tinha-se que a verdade era a harmonia entre o ser e a realidade. Será que existem inquietações em quem age verdadeiramente?)Muitas dessas inquietações têm motivações externas, pois recai sobre o indivíduo a responsabilidade de não estar - por precisão, usa-se em lugar de "ser" - à altura do que as convenções cobram-lhe.
É lógico e sábido que sempre é o próprio indivíduo quem se cobra, porém tal cobrança, por sua vez, pode ter origens externas e sem qualquer nexo com o "eu". Novamente o primeiro e mais complicado primeiro passo recai na percepção da situação: o quanto é uma autocobrança e quanto é pressão por coisas impostas pela sociedade. É tremandamente dificílimo - tem-se aqui uma hipérbole? - que isso se autoperceba; faz-se necessária a benemérita ajuda de um outro eu "caridoso" para tal.
Uma das inquietações que mais rondam as pessoas em qualquer tempo é sobre seus objetivos de vida: é imprescindível que sempre se tenham metas a atingir e planos de como conquistá-las, senão é-se um "à-toa, um fracassado". E quem tem a coragem de levantar o olhar com brio quando for chamado assim ou de coisa pior?
Entretanto o afã por descobrir, conseguir, realizar um objetivo traz a cegueira inerente e inevitável da situação: somente alcançar o objetivo, o prêmio vale. É necessário ter em mente o que a conquista de um objetivo trará para si, senão as conquistas serão vazias. "De que serve ao homem conquistar o mundo inteiro se perder a alma?", questionou Blaise Pascal.
Deve-se começar primeiramente tornando-se algo em-si, buscar o auto-aprimoramento, evolução. Como alcançar objetivos maiores se não se cresce? É inevitável que se comece por si próprio na odisséia univérsica, pois somente o indivíduo pode ser um porto seguro de partida e chegada para si mesmo. Perigoso também é esse caminho - todos têm o seu - visto que somente ter o foco no autocrescimento implicará em auto-suficência, soberba, egoísmo etc., fatos totalmente observados e, infelizmente, facilmente encontráveis por aí.
O começar dessa jornada é sempre o mais complicado - como em toda jornada. Primeiro vêm as inquientações, a sensação de estar-se perdido no mundo, não sabendo seu lugar, aonde chegar, que caminho tomar... Deve-se ter a coragem - etimologicamente agir com o coração - de questionar as principais certezas e pô-las à prova; indagar cada uma vez à semelhança de como Sócrates fazia aos transeuntes do mercado em Atenas. Trata-se de algo perigosísssimo pois pode implicar na ruína de muitos valores e crenças importantes - mas falsos e, por isso, descartáveis. A dúvida não é a negação da crença, existência de algo: pode funcionar como um fortalecimento das mesmas se forem verdadeiras. Submeter-se todas as crenças - e isso vai além do plano religioso - e valores a questionamentos é reconhecer-se falho e buscar aprimoramento.
Com a "conquista" de si próprio, pode-se partir em busca do mundo, que, no fundo, também é a "reconquista" de si: são dois universos com infinitas possibilidades que se cruzam...
(continua algum dia no futuro ou passado)