Pus-me a mirar as estrelas,
Observando em cada uma a diferença de brilho
Porque, embora sejam muitas, quem sabe infinitas,
O espaço que as separa é ainda maior.
Também é assim com as pessoas.
Busquei saber quantas imagens são suficientes
Para superar a solidão cósmica,
E olhei tanto, mas tanto,
Que a beleza se prendeu em meus olhos.
sábado, 23 de junho de 2007
terça-feira, 19 de junho de 2007
A chegada do inverno
Sempre se ouve falar de equinócio e solstício.
Solsticio está assim definido no Wikipedia:
"Em astronomia, solstício é o momento em que o Sol, durante seu movimento aparente na esfera celeste, atinge o seu maior afastamento, em latitude, da linha do equador. Os solstícios ocorrem duas vezes por ano: em 21 ou 22 de dezembro e em 21 ou 22 de junho. A data varia devido aos anos bissextos, que oscila entre o calendário das estações em um dia.
No hemisfério Sul, o de dezembro é o solstício de verão e o de junho é o solstício de inverno. O oposto acontece no hemisfério Norte.
Por causa do solstício, existem os trópicos de Câncer e Capricórnio. No solstício de verão no hemisfério sul, os raios solares incidem perpendicularmente à terra na linha do Trópico de Capricórnio. No solstício de inverno, ocorre a mesma coisa no Trópico de Câncer.
Quando ocorre um solstício no inverno significa que esse dia é o dia menor do ano e a noite mais longa , quando ocorre no verão significa que é o dia maior do ano e a noite menor."
Faltou lembrar o fato de que nesses dias, observam-se os dias mais longos do ano no hemisfério em que ocorre os solstício e o contrário no outro hemisfério. Para comprovar isso, basta analisar as previsões de nascente e poente, por exemplo, para a cidade de São Paulo nos próximos dias segudo CPTEC:
19 de junho: nascente ãs 6h47min17s, poente ãs 17h28min18s = 10h41min01s
20 de junho: nascente ãs 6h47min31s, poente ãs 17h28min31s = 10h41min00s
21 de junho: nascente ãs 6h47min44s, poente ãs 17h28min44s = 10h41min00s
22 de junho: nascente ãs 6h47min57s, poente ãs 17h28min58s = 10h41min01s
23 de junho: nascente ãs 6h48min09s, poente ãs 17h29min12s = 10h41min03s
Percebe-se um "empate técnico" em duração do dia em 20 e 21 de junho, ou seja, este é o dia mais curto do ano no hemisfério sul, quando chega o inverno.
Os incas e, antes deles, outros povos da cultura andina, celebravam esta data por entender que o Sol, um dos deuses que cultuavam, estava mais fracos nesta época, por isso celebravam e ofereciam sacrifícios para que isso restabelecesse sua força. É nesta época do ano que ocorrem as maiores celebrações em Cuzco, antiga capital do Império Inca.
Só para mostar um pouco do que pode haver escondido num aparente insignificante dia.
Solsticio está assim definido no Wikipedia:
"Em astronomia, solstício é o momento em que o Sol, durante seu movimento aparente na esfera celeste, atinge o seu maior afastamento, em latitude, da linha do equador. Os solstícios ocorrem duas vezes por ano: em 21 ou 22 de dezembro e em 21 ou 22 de junho. A data varia devido aos anos bissextos, que oscila entre o calendário das estações em um dia.
No hemisfério Sul, o de dezembro é o solstício de verão e o de junho é o solstício de inverno. O oposto acontece no hemisfério Norte.
Por causa do solstício, existem os trópicos de Câncer e Capricórnio. No solstício de verão no hemisfério sul, os raios solares incidem perpendicularmente à terra na linha do Trópico de Capricórnio. No solstício de inverno, ocorre a mesma coisa no Trópico de Câncer.
Quando ocorre um solstício no inverno significa que esse dia é o dia menor do ano e a noite mais longa , quando ocorre no verão significa que é o dia maior do ano e a noite menor."
Faltou lembrar o fato de que nesses dias, observam-se os dias mais longos do ano no hemisfério em que ocorre os solstício e o contrário no outro hemisfério. Para comprovar isso, basta analisar as previsões de nascente e poente, por exemplo, para a cidade de São Paulo nos próximos dias segudo CPTEC:
19 de junho: nascente ãs 6h47min17s, poente ãs 17h28min18s = 10h41min01s
20 de junho: nascente ãs 6h47min31s, poente ãs 17h28min31s = 10h41min00s
21 de junho: nascente ãs 6h47min44s, poente ãs 17h28min44s = 10h41min00s
22 de junho: nascente ãs 6h47min57s, poente ãs 17h28min58s = 10h41min01s
23 de junho: nascente ãs 6h48min09s, poente ãs 17h29min12s = 10h41min03s
Percebe-se um "empate técnico" em duração do dia em 20 e 21 de junho, ou seja, este é o dia mais curto do ano no hemisfério sul, quando chega o inverno.
Os incas e, antes deles, outros povos da cultura andina, celebravam esta data por entender que o Sol, um dos deuses que cultuavam, estava mais fracos nesta época, por isso celebravam e ofereciam sacrifícios para que isso restabelecesse sua força. É nesta época do ano que ocorrem as maiores celebrações em Cuzco, antiga capital do Império Inca.
Só para mostar um pouco do que pode haver escondido num aparente insignificante dia.
Return to innocence
"Não ser atacado por ser inocente" Índios, Legião Urbana
"É preciso que a virtude volte a ser inocência" Autor desconhecido ou esquecido.
domingo, 17 de junho de 2007
Ser olhado, sob a óptica de Kundera.
O título é um pouco ambíguo, mas não resisto a um jogo de palavras...
Como estamos numa era em que tudo ou quase se resume à imagem como único atributo a ser considerado para qualquer análise que se faça a respeito de qualquer coisa ou pessoa, uma reflexão feita por Kundera é boa de ler:
"Todos nós temos necessidade de ser olhados. Podemos ser classificados em quatro categoria, segundo o tipo de olhar sob o qual queremos viver.
A primeira procura o olhar de um número infinito de olhos anônimos, em outras palavras, o olhar do público (...)
Na segunda categoria, estão aqueles que não podem viver sem o olhar de numerosos olhos familiares. São os organizadores incansáveis de coquetéis e jantares. São mais felizes que os da primeira categoria, que, quando perdem seu público, imaginam que a luz se apagou na sala de suas vidas. É o que acontece a quase todos, mais dia, menos dia. As pessoas da segunda categoria, pelo contrário, sempre conseguem arrumar quem as olhe. (...)
Em seguida, vem a terceira categoria, a dos que têm necesidade de viver sob o olhar do ser amado. A situação deles é tão perigosa quanto a daqules do primeiro grupo. Basta que os olhos do ser amado se fechem para que a sala fique mergulhada na escuridão. (...)
Por fim, existe a quarta categoria, a mais rara, a dos que vivem sob os olhares imaginários dos ausentes. São os sonhadores."
A que categoria pertencerão os olhos que lêem este texto?
Como estamos numa era em que tudo ou quase se resume à imagem como único atributo a ser considerado para qualquer análise que se faça a respeito de qualquer coisa ou pessoa, uma reflexão feita por Kundera é boa de ler:
"Todos nós temos necessidade de ser olhados. Podemos ser classificados em quatro categoria, segundo o tipo de olhar sob o qual queremos viver.
A primeira procura o olhar de um número infinito de olhos anônimos, em outras palavras, o olhar do público (...)
Na segunda categoria, estão aqueles que não podem viver sem o olhar de numerosos olhos familiares. São os organizadores incansáveis de coquetéis e jantares. São mais felizes que os da primeira categoria, que, quando perdem seu público, imaginam que a luz se apagou na sala de suas vidas. É o que acontece a quase todos, mais dia, menos dia. As pessoas da segunda categoria, pelo contrário, sempre conseguem arrumar quem as olhe. (...)
Em seguida, vem a terceira categoria, a dos que têm necesidade de viver sob o olhar do ser amado. A situação deles é tão perigosa quanto a daqules do primeiro grupo. Basta que os olhos do ser amado se fechem para que a sala fique mergulhada na escuridão. (...)
Por fim, existe a quarta categoria, a mais rara, a dos que vivem sob os olhares imaginários dos ausentes. São os sonhadores."
A que categoria pertencerão os olhos que lêem este texto?
O que se pode dizer?
Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2007/06/16/ult580u2527.jhtm
16/06/2007
A guerra da água toma conta da favela de Cité Soleil, no Haiti
Há apenas mil metros cúbicos e 53 pontos de água para uma população de 200.000 a 350.000 habitantes
Benoît Hopquin
Enviado especial a Porto-Príncipe
O reservatório de água transpira, desenhando rastros sobre o concreto poroso. Quatro vezes por semana, em Cité Soleil, essas manchas de umidade transmitem o sinal abençoado de que a cisterna está cheia. Aos pés do reservatório, com um distintivo oficial alfinetado na sua camiseta falsificada do Manchester, Jean-Béliard Dutes, 60 anos, abre uma após a outra as comportas antes que o conteúdo, sob pressão, caia com tudo sobre a sua cabeça.
A distribuição começa. Mais viva do que a própria água, a notícia se propaga pela maior favela de Porto-Príncipe. Neste lugar de desumanidade, estão amontoados os mais pobres dentre os pobres do Haiti, um país onde 80% da população vivem com menos de US$ 2 (R$ 3,90) por dia. Aqui, entre o mar do Caribe e a estrada Nationale 1, ficaram encalhados todos aqueles que alcançam o fundo da miséria.
É para beber, cozinhar e, talvez, se lavar... Vindas de trás do amontoamento de telhados de metal superaquecidos, após terem passado pelo emaranhado de trilhas insalubres, as mulheres chegam com os seus recipientes. Alguns minutos mais tarde, a água potável jorra das 53 fontes espalhadas pelo gueto. Protegidos por um abrigo com grades, alguns encarregados abrem e fecham as torneiras, tentando controlar o empurra-empurra e dominar as brigas verbais e por vezes físicas. Não demorará mais de duas horas até que os 1.000 m3 do reservatório sejam esvaziados.
Mil metros cúbicos e 53 pontos de água para uma população estimada entre 200.000 e 350.000 habitantes. É uma quantidade irrisória. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (cuja sigla é CICR) estima em 6 litros a ração cotidiana por pessoa, ou seja, três vezes menos do que as quantidades mínimas preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas, em Cité Soleil, esta penúria até que constitui um progresso. "Anteriormente, nós chegávamos a ficar dois ou três meses sem água", explica, no dialeto local, Prosper Borgelin, conhecido pelo apelido de "Gauché", 50 anos, um responsável de setor.
Por muito tempo a água esteve controlada pelas gangues, que haviam instaurado uma exploração sistemática da favela. "Eles dividiam entre si o controle das fontes e cobravam um imposto", conta Ugo Mora, um delegado da Cruz vermelha para assuntos de água e de saneamento básico. A companhia local encarregada da adução não ousava mais se aventurar neste refúgio de ladrões e, entre 2001 e 2006, não recebeu um centavo sequer em taxas ou encargos. Regularmente, fuziladas acontecem entre facções interessadas no controle do precioso líquido. Jean-Béliard Dutes por pouco não perdeu um olho num desses acertos de contas. "Muitos pessoas morreram quando elas estavam simplesmente indo buscar água", explica Ugo Mora.
Quando ela iniciou as suas atividades na ilha, em 2004, a Cruz vermelha teve que negociar com os chefões o direito de restaurar a rede. Até hoje, o Comitê é obrigado a lidar com as captações selvagens promovidas por criminosos armados. Entre 150 e 200 reservatórios privados desviam uma parte desta dádiva e enriquecem bandidos. O preço oficial é de 2 centavos de euro (R$ 0,05) o "bokit" (cerca de 20 litros), ou seja, cinco a dez vezes menos do que no mercado negro.
Esta batalha da água é exemplar da guerra sem nome que vem sendo travada em Cité Soleil. No auge das rivalidades entre gangues, o dispensário da Cruz vermelha atendia todo dia 7 a 8 feridos por balas. "Nós estamos acostumados a trabalhar em países assolados por conflitos. Aqui, nós estamos confrontados em tempo de paz a uma violência e a um desamparo comparáveis", explica Ugo Mora. A polícia nacional haitiana desertou o lugar. No verão de 2006, dois agentes que tinham se perdido andando pelas vielas foram assassinados com uma bala na cabeça.
Encarregada da segurança, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah) tenta progressivamente retomar o controle daquilo que fora uma zona de não direito. Ela efetuou diversas operações ao longo dos últimos meses que causaram dezenas de mortes entre os delinqüentes, os capacetes azuis (soldados das forças de manutenção da paz), mas também na população civil.
Assim, em 9 de fevereiro, 700 soldados da ONU conduziram uma vasta operação, contando com a cobertura de helicópteros, que degenerou em combates de rua com armas pesadas, pois os soldados enfrentaram grupos armados com fuzis AK 47 ou M 14. Em todo lugar, os impactos de balas ainda podem ser vistos: uma porta segue crivada por cerca de vinte furos, uma carcaça de carro foi recortada com tiros de metralhadoras. O reservatório de água, salpicado por impactos que foram tapados às pressas, não foi poupado.
O contingente brasileiro instalou campos entrincheirados no coração da favela e conduz incessantes patrulhamentos com blindados ligeiros que passam muito perto dos balcões do comércio. Os capacetes azuis alternam as prisões espetaculares com os gestos promocionais, assim como, naquele dia, a distribuição de equipamentos de futebol para os dois times principais do subúrbio. Os principais chefões, como Evans, Amaral ou Belony, foram presos ou estão foragidos. Eles prosperavam com a indústria do seqüestro, uma atividade que sofreu uma nítida regressão ao longo dos últimos meses. Mas aqui, ninguém gosta muito de falar mal desses fora-da-lei, meio-heróis, meio-demônios. Todos ficam calados ou preferem falar em "supostas gangues", o que é um sinal de que o medo não desapareceu.
Por tanto tempo eles impuseram a sua lei sobre a vida da favela que ninguém aqui ousa ainda acreditar no seu fim. Os diferentes governos por muito tempo se acomodaram com os poderes paralelos que mandavam em Cité Soleil. O ditador de triste fama François Duvalier, mais conhecido como Papa Doc, que havia criado em 1960 esta zona, que fora então batizada de Cité Simone, do nome da sua mulher, e, mais tarde, o seu filho Jean-Claude, conhecido como Bébé Doc, entregaram a sua "administração" aos seus jagunços, os "tontons macoutes".
Wilner Louis, 27 anos, era o filho de um deles. O seu pai foi linchado em 1986, por ocasião da derrubada do regime Duvalier. Ao ascender ao poder, o "Pai" Aristide, por sua vez, armou uma milícia particular, as "Chimères" (Quimeras). O seu partido, a Família Lavalas, reinava absoluto sobre Cité Soleil. Wilner Louis era um militante deste partido. Ele tenta justificar: "Ao menos, Aristide cuidava de nós", diz. Quando "Titid" foi obrigado a deixar o poder, em 2004, os seus capangas seguiram mantendo a situação de insegurança. "Eles queriam desestabilizar o país para trazer Aristide de volta ao poder", explica o advogado Thierry Fagart, o diretor da seção dos direitos humanos da Minustah.
Em 2006, Cité Soleil votou maciçamente em René Préval, um antigo colaborador de Aristide. O novo presidente tentou negociar com os chefes das gangues. Os capacetes azuis permaneciam então confinados nos seus acantonamentos. "Aquele foi um período esquisito", recorda-se Thierry Fagart. "Em dezembro, o presidente Préval deu finalmente a sua autorização para implementar medidas fortes". Graças á intervenção contundente da ONU, a calma voltou. "As pessoas hoje respiram outro ar", resume Wilner Louis. Até hoje este homem diz ser um partidário de Aristide, só que ele traja um capacete azul da Minustah. Os tempos são incertos.
"O governo não está fazendo nada", lamenta Wilner. De fato, o Estado está mesmo ausente. As organizações não-governamentais (ONGs) devem lidar com situações de emergência. Por exemplo, os seus ativistas hasteiam grandes bandeiras sobre os seus veículos quando eles penetram na zona. A organização Médicos do Mundo, ou Médicos Sem Fronteiras, abriu dispensários e vem formando profissionais da saúde. Na escola Terre promise (Terra prometida), as mesas trazem a sigla da Unicef. "Yéle Haiti", a associação de Wyclef Jean, uma estrela local do hip-hop bem-sucedida nos estados Unidos, empreendeu várias obras.
Regularmente, planos de ajuda são anunciados. No início de maio, a embaixadora dos Estados Unidos visitou a zona, contando com a proteção de guarda-costas fortemente armados, para anunciar a liberação de US$ 20 milhões (R$ 38,6 milhões) para a reabilitação da favela. Mas, num país que até hoje segue classificado entre os três mais corruptos do planeta, o dinheiro não demorou a ficar extraviado.
Apenas as promessas chegam e se espalham em Cité Soleil. E também as águas usadas rejeitadas pelos bairros ricos de Pétionville, situados nas alturas. Paul Philama, 50 anos, gostaria de partir, mas não consegue se arrancar desta miséria que "gruda" nas pessoas. Este homem teve 9 filhos de duas uniões, e vive num sufocante apartamento de três cômodos, que ele aluga por 110 euros (cerca de R$ 280) por ano. "Com a Minustah, agora ficou mais calmo por aqui", reconhece Paul. "Mas continuamos sem ter nada para comer". Demitido do seu serviço em fevereiro, ele "se vira", vive de pequenos bicos que mal lhe permitem não morrer de fome. Uma data está inscrita com tinta sobre a parede: o dia 14 de agosto. Naquele dia, o "proprietário" deverá comparecer para receber o aluguel. Paul Philama já sabe que ele não poderá pagar. "Nós vamos ser expulsos".
Um pouco mais adiante, Alta Gracia, 25 anos, vive numa situação quase tão precária. Esta família de 9 pessoas tenta viver num casebre de 8 m2, cuja decoração se limita a uma velha Bíblia em dialeto e um relógio de parede publicitário da marca Maggi. Quando o sol bate forte, o lugar se transforma numa fornalha. Quando chove, a água se infiltra. Mãe de 3 filhos - ela deu à luz o primeiro aos 17 anos -, Alta Gracia vende de forma clandestina copinhos no mercado. A jovem mulher deixou de alimentar qualquer sonho, a não ser a esperança de "poder comer amanhã".
"A situação está bem melhor em matéria de segurança, constata Reynal Jolifils, um responsável social. "Mas isso não quer dizer que o problema das gangues foi solucionado", prossegue. "As fontes da violência ainda estão presentes, a miséria predomina de forma insistente".
"Se nada for feito para ajudar os mais pobres, a violência voltará", confirma Thierry Fagart. "As pessoas que trabalhavam para as gangues ainda estão presentes na favela, mesmo se elas permanecem quietas", garante Holson Francique, 36 anos, que trabalha a serviço da Cruz Vermelha.
Os antigos tenentes aguardam para assumir a sucessão, enquanto os jovens desocupados constituem uma reserva inesgotável de mão-de-obra para eles. As armas de fogo estão caladas, mas os ataques com arma branca continuam numerosos. "Volta e meia acontecem linchamentos", explica Prosper Borgelin. Então, será mesmo a paz ou apenas uma trégua? A favela já acreditou tantas vezes que ela estava se livrando da desgraça. Ugo Mora tem apenas uma única certeza: "Por conta da sua história, Cité Soleil é o barômetro da situação política no Haiti".
16/06/2007
A guerra da água toma conta da favela de Cité Soleil, no Haiti
Há apenas mil metros cúbicos e 53 pontos de água para uma população de 200.000 a 350.000 habitantes
Benoît Hopquin
Enviado especial a Porto-Príncipe
O reservatório de água transpira, desenhando rastros sobre o concreto poroso. Quatro vezes por semana, em Cité Soleil, essas manchas de umidade transmitem o sinal abençoado de que a cisterna está cheia. Aos pés do reservatório, com um distintivo oficial alfinetado na sua camiseta falsificada do Manchester, Jean-Béliard Dutes, 60 anos, abre uma após a outra as comportas antes que o conteúdo, sob pressão, caia com tudo sobre a sua cabeça.
A distribuição começa. Mais viva do que a própria água, a notícia se propaga pela maior favela de Porto-Príncipe. Neste lugar de desumanidade, estão amontoados os mais pobres dentre os pobres do Haiti, um país onde 80% da população vivem com menos de US$ 2 (R$ 3,90) por dia. Aqui, entre o mar do Caribe e a estrada Nationale 1, ficaram encalhados todos aqueles que alcançam o fundo da miséria.
É para beber, cozinhar e, talvez, se lavar... Vindas de trás do amontoamento de telhados de metal superaquecidos, após terem passado pelo emaranhado de trilhas insalubres, as mulheres chegam com os seus recipientes. Alguns minutos mais tarde, a água potável jorra das 53 fontes espalhadas pelo gueto. Protegidos por um abrigo com grades, alguns encarregados abrem e fecham as torneiras, tentando controlar o empurra-empurra e dominar as brigas verbais e por vezes físicas. Não demorará mais de duas horas até que os 1.000 m3 do reservatório sejam esvaziados.
Mil metros cúbicos e 53 pontos de água para uma população estimada entre 200.000 e 350.000 habitantes. É uma quantidade irrisória. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (cuja sigla é CICR) estima em 6 litros a ração cotidiana por pessoa, ou seja, três vezes menos do que as quantidades mínimas preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas, em Cité Soleil, esta penúria até que constitui um progresso. "Anteriormente, nós chegávamos a ficar dois ou três meses sem água", explica, no dialeto local, Prosper Borgelin, conhecido pelo apelido de "Gauché", 50 anos, um responsável de setor.
Por muito tempo a água esteve controlada pelas gangues, que haviam instaurado uma exploração sistemática da favela. "Eles dividiam entre si o controle das fontes e cobravam um imposto", conta Ugo Mora, um delegado da Cruz vermelha para assuntos de água e de saneamento básico. A companhia local encarregada da adução não ousava mais se aventurar neste refúgio de ladrões e, entre 2001 e 2006, não recebeu um centavo sequer em taxas ou encargos. Regularmente, fuziladas acontecem entre facções interessadas no controle do precioso líquido. Jean-Béliard Dutes por pouco não perdeu um olho num desses acertos de contas. "Muitos pessoas morreram quando elas estavam simplesmente indo buscar água", explica Ugo Mora.
Quando ela iniciou as suas atividades na ilha, em 2004, a Cruz vermelha teve que negociar com os chefões o direito de restaurar a rede. Até hoje, o Comitê é obrigado a lidar com as captações selvagens promovidas por criminosos armados. Entre 150 e 200 reservatórios privados desviam uma parte desta dádiva e enriquecem bandidos. O preço oficial é de 2 centavos de euro (R$ 0,05) o "bokit" (cerca de 20 litros), ou seja, cinco a dez vezes menos do que no mercado negro.
Esta batalha da água é exemplar da guerra sem nome que vem sendo travada em Cité Soleil. No auge das rivalidades entre gangues, o dispensário da Cruz vermelha atendia todo dia 7 a 8 feridos por balas. "Nós estamos acostumados a trabalhar em países assolados por conflitos. Aqui, nós estamos confrontados em tempo de paz a uma violência e a um desamparo comparáveis", explica Ugo Mora. A polícia nacional haitiana desertou o lugar. No verão de 2006, dois agentes que tinham se perdido andando pelas vielas foram assassinados com uma bala na cabeça.
Encarregada da segurança, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah) tenta progressivamente retomar o controle daquilo que fora uma zona de não direito. Ela efetuou diversas operações ao longo dos últimos meses que causaram dezenas de mortes entre os delinqüentes, os capacetes azuis (soldados das forças de manutenção da paz), mas também na população civil.
Assim, em 9 de fevereiro, 700 soldados da ONU conduziram uma vasta operação, contando com a cobertura de helicópteros, que degenerou em combates de rua com armas pesadas, pois os soldados enfrentaram grupos armados com fuzis AK 47 ou M 14. Em todo lugar, os impactos de balas ainda podem ser vistos: uma porta segue crivada por cerca de vinte furos, uma carcaça de carro foi recortada com tiros de metralhadoras. O reservatório de água, salpicado por impactos que foram tapados às pressas, não foi poupado.
O contingente brasileiro instalou campos entrincheirados no coração da favela e conduz incessantes patrulhamentos com blindados ligeiros que passam muito perto dos balcões do comércio. Os capacetes azuis alternam as prisões espetaculares com os gestos promocionais, assim como, naquele dia, a distribuição de equipamentos de futebol para os dois times principais do subúrbio. Os principais chefões, como Evans, Amaral ou Belony, foram presos ou estão foragidos. Eles prosperavam com a indústria do seqüestro, uma atividade que sofreu uma nítida regressão ao longo dos últimos meses. Mas aqui, ninguém gosta muito de falar mal desses fora-da-lei, meio-heróis, meio-demônios. Todos ficam calados ou preferem falar em "supostas gangues", o que é um sinal de que o medo não desapareceu.
Por tanto tempo eles impuseram a sua lei sobre a vida da favela que ninguém aqui ousa ainda acreditar no seu fim. Os diferentes governos por muito tempo se acomodaram com os poderes paralelos que mandavam em Cité Soleil. O ditador de triste fama François Duvalier, mais conhecido como Papa Doc, que havia criado em 1960 esta zona, que fora então batizada de Cité Simone, do nome da sua mulher, e, mais tarde, o seu filho Jean-Claude, conhecido como Bébé Doc, entregaram a sua "administração" aos seus jagunços, os "tontons macoutes".
Wilner Louis, 27 anos, era o filho de um deles. O seu pai foi linchado em 1986, por ocasião da derrubada do regime Duvalier. Ao ascender ao poder, o "Pai" Aristide, por sua vez, armou uma milícia particular, as "Chimères" (Quimeras). O seu partido, a Família Lavalas, reinava absoluto sobre Cité Soleil. Wilner Louis era um militante deste partido. Ele tenta justificar: "Ao menos, Aristide cuidava de nós", diz. Quando "Titid" foi obrigado a deixar o poder, em 2004, os seus capangas seguiram mantendo a situação de insegurança. "Eles queriam desestabilizar o país para trazer Aristide de volta ao poder", explica o advogado Thierry Fagart, o diretor da seção dos direitos humanos da Minustah.
Em 2006, Cité Soleil votou maciçamente em René Préval, um antigo colaborador de Aristide. O novo presidente tentou negociar com os chefes das gangues. Os capacetes azuis permaneciam então confinados nos seus acantonamentos. "Aquele foi um período esquisito", recorda-se Thierry Fagart. "Em dezembro, o presidente Préval deu finalmente a sua autorização para implementar medidas fortes". Graças á intervenção contundente da ONU, a calma voltou. "As pessoas hoje respiram outro ar", resume Wilner Louis. Até hoje este homem diz ser um partidário de Aristide, só que ele traja um capacete azul da Minustah. Os tempos são incertos.
"O governo não está fazendo nada", lamenta Wilner. De fato, o Estado está mesmo ausente. As organizações não-governamentais (ONGs) devem lidar com situações de emergência. Por exemplo, os seus ativistas hasteiam grandes bandeiras sobre os seus veículos quando eles penetram na zona. A organização Médicos do Mundo, ou Médicos Sem Fronteiras, abriu dispensários e vem formando profissionais da saúde. Na escola Terre promise (Terra prometida), as mesas trazem a sigla da Unicef. "Yéle Haiti", a associação de Wyclef Jean, uma estrela local do hip-hop bem-sucedida nos estados Unidos, empreendeu várias obras.
Regularmente, planos de ajuda são anunciados. No início de maio, a embaixadora dos Estados Unidos visitou a zona, contando com a proteção de guarda-costas fortemente armados, para anunciar a liberação de US$ 20 milhões (R$ 38,6 milhões) para a reabilitação da favela. Mas, num país que até hoje segue classificado entre os três mais corruptos do planeta, o dinheiro não demorou a ficar extraviado.
Apenas as promessas chegam e se espalham em Cité Soleil. E também as águas usadas rejeitadas pelos bairros ricos de Pétionville, situados nas alturas. Paul Philama, 50 anos, gostaria de partir, mas não consegue se arrancar desta miséria que "gruda" nas pessoas. Este homem teve 9 filhos de duas uniões, e vive num sufocante apartamento de três cômodos, que ele aluga por 110 euros (cerca de R$ 280) por ano. "Com a Minustah, agora ficou mais calmo por aqui", reconhece Paul. "Mas continuamos sem ter nada para comer". Demitido do seu serviço em fevereiro, ele "se vira", vive de pequenos bicos que mal lhe permitem não morrer de fome. Uma data está inscrita com tinta sobre a parede: o dia 14 de agosto. Naquele dia, o "proprietário" deverá comparecer para receber o aluguel. Paul Philama já sabe que ele não poderá pagar. "Nós vamos ser expulsos".
Um pouco mais adiante, Alta Gracia, 25 anos, vive numa situação quase tão precária. Esta família de 9 pessoas tenta viver num casebre de 8 m2, cuja decoração se limita a uma velha Bíblia em dialeto e um relógio de parede publicitário da marca Maggi. Quando o sol bate forte, o lugar se transforma numa fornalha. Quando chove, a água se infiltra. Mãe de 3 filhos - ela deu à luz o primeiro aos 17 anos -, Alta Gracia vende de forma clandestina copinhos no mercado. A jovem mulher deixou de alimentar qualquer sonho, a não ser a esperança de "poder comer amanhã".
"A situação está bem melhor em matéria de segurança, constata Reynal Jolifils, um responsável social. "Mas isso não quer dizer que o problema das gangues foi solucionado", prossegue. "As fontes da violência ainda estão presentes, a miséria predomina de forma insistente".
"Se nada for feito para ajudar os mais pobres, a violência voltará", confirma Thierry Fagart. "As pessoas que trabalhavam para as gangues ainda estão presentes na favela, mesmo se elas permanecem quietas", garante Holson Francique, 36 anos, que trabalha a serviço da Cruz Vermelha.
Os antigos tenentes aguardam para assumir a sucessão, enquanto os jovens desocupados constituem uma reserva inesgotável de mão-de-obra para eles. As armas de fogo estão caladas, mas os ataques com arma branca continuam numerosos. "Volta e meia acontecem linchamentos", explica Prosper Borgelin. Então, será mesmo a paz ou apenas uma trégua? A favela já acreditou tantas vezes que ela estava se livrando da desgraça. Ugo Mora tem apenas uma única certeza: "Por conta da sua história, Cité Soleil é o barômetro da situação política no Haiti".
quinta-feira, 7 de junho de 2007
Pro alto e avante...
Acordei por volta das cinco e meia, corri pra organizar as coisas, pôr na mochila e picar a mula para tomar o ônibus às seis e quinze. Saí do hotel, chegou na rodoviária e descobri que o ônibus das seis e quinze não parte em feriado (Corpus Christi); o ônibus seguinte partiria às nove e quinze. O jeito foi voltar pro hotel, conversar com o rapaz da portaria, que permitiu que eu voltasse do quarto e dormisse um pouco mais.
Dormi até umas 8 horas, quando ouvi muito barulho, conversas e agitação nas ruas. Coloquei a cabeça no livro e vi que as pessoas estavam se organizando para fazer aqueles tapetes gigantescos, típicos das celebrações de Corpus Christi. Arrumei as coisas de novo, saí definitivamente do hotel e fui acompanhar de perto as pessoas montando o tapete. Mais que um tapete, percebi a união de pessoas mais velhas e jovens em nome de uma tradição, algo comum, mas fora do comum, que os unia.
O ônibus partiu no horário e passou por algumas cidades como Santa Rosa do Sul, Sombrio e São João do Sul antes de chegar à Praia Grande por volta das onze horas. Em seguida, encaminhei-me para o Albergue da Juventude, onde tinha reserva para o feriado, caminhando por cerca de seis quadras da praça central da cidade até a rua do Albergue.
Lá me esperava a D. Neri - a quem eu chamava "Néri" mas é "Nerí" -, a responsável pelo Albergue, uma pessoa muito atenciosa com dicas precisas do lugar. Foi ela quem me contou que a entrada do Parque do Aparados da Serra ficava no alto da serra, à beira do qual a cidade fica, a 22 km por uma estrada de terra e morro acima - a 1000m acima do nível do mar, enquanto a cidade fica a 40m. Para ajudar mais ainda, os ônibus que saíam da cidade e iam até lá já tinham saído, o que saíam, ou não subiam devido à forte chuva que castigou a região duas semanas antes e deixou as estradas lamacentas e com mais buracos e pedras ainda...
Também tinha a possibilidade de caminhar menos, cinco quilômetros, e ver o Cânion Malacaia pela parte baixa, mas decidi seguir a pé até o parque, o que deixou a D. Neri com uma cara de "?!" - particularmente gostei desta descrição.
A primeira dificuldade foi encontrar o caminho para a estrada, já que não havia muitas placas e só se caminha por estradas de terra com muitas pedras, o que cansa demais devido ao fato de cada passada ser bastante instável (as pedras podem fazer tropeçar) e incerta. Até achar o começo da estrada, foram cerca de 40 minutos e uns cinco quilômetros pra cima e pra baixo da parte "rural" da cidade. Depois foi só morro acima.
A subida pela estrada da Serra do Faxinal lembrava muito a que levava até Machu Picchu, pois era um pequena reta e um gancho à esquerda, uma pequena reta e um gancho à direita com a diferença de que as retas são mais longas no Sul. A idéia era chegar ao Parque por volta das 15h porque o fechamento ocorre às 17h e as trilhas lá dentro levariam cerca de 2h pelo que me informei. A subida era mais difícil do que tinha suposto, e meu esforço para encará-la também foi maior do que eu supus que fosse capaz: mesmo subindo bastante rápido e impondo força, não me sentia fatigado e seguia em frente. O maior desafio estava na mente, já que é difícil andar dissipando as forças do corpo, não ver nem sombra de onde se está, do quanto falta pra chegar e manter a concentração alta para que o desânimo não vença. (Um dos motivos que me levaram a ir aos Cânions)
Quando, mais de quatro horas depois de começar a caminhada, faltavam dez minutos para as três horas e vi que ainda faltavam sete quilômetros para chegar ao Parque, aí o desânimo bateu forte mesmo, e tive que "apelar" para carona e seguir em frente. Peguei carona com três caras, num monza marrom, que iam a Caxias do Sul. Assim que me deixaram na porta do Parque, minha idéia foi logo a de tirar a cãmera e registrar o fato, mas só foi aí que percebi que a dita, antes no bolso do meu shorts, havia caído no banco do carro. Corri, agitei os braços, bradei, fiz todo tipo de gesto ridículo que podia imaginar para chamar a atenção dos caras. O desânimo de outro, que fora substituído pela alegria de chegar à porta do parque, tinha se transformado numa imensa desolação. Qual seria a graça da viagem se não poderia registrá-la em fotos? Até pensar em voltar no dia seguinte foi uma idéia que me ocorreu. Já que estava lá no Parque, tinha de conhecê-lo de qualquer jeito, entáo segui em frente mesmo com a perna já dura e o corpo cheio de poeira de estrada, suado e exaurido.
Da entrada do Parque, são dois quilômetros até chegar às trilhas do Vértice e da Cotovelo, a qual segui primeiro e, passados três quilêmetros, cheguei até a borda do Itaimbezinho, de onde se tem vistas maravilhosas, sobretudo num fim de tarde como aquele que estava fazendo. Há algumas cordas para que as pessoas não avancem, mas isso não é impeditivo a que se chegue bem perto do precípio e se mirem os paredões que se estendem até perder a vista - magnífico! Voltei, parei um pouco para descansar e tomar um pouco de água num centro de visitante que há entre as duas trilhas e segui pela Trilha do Vértice, bastante curta, com acessos mais restritos que a do Cotovelo e uma visão diferente, podendo avistar a Cachoeira Véu de Noiva. De volta à entrada do Parque por volta das 16h45min, levei cerca de uma hora e vinte para andar o Parque.
A verdade foi que andei rápido demais o parque e não reparei direito nos detalhes da natureza - como as impressionantes araucárias que havia por lá. (Isso ocorreu como escreveu Caeiro em "Um pensamento visível faz-me andar mais depressa / E ver menos".). Problema estava no que viria depois: ter todo o caminho de volta por uma estrada de terra no escuro, com a temperatura não tão quente (cerca de 12 graus estava fazendo à noite por lá) e o corpo cansado. Embora estivesse preparado - com saco de dormir e lanterna na mochila - não tinha a idéia nem a vontade de passar a noite ao relento, mas também não tinha força para voltar todo caminho.
Andei uns cinco quilômetros quando peguei carona com um rapaz que vivia lá e estava transportando abacaxi e batatas em seu caminhão. Fiquei um pouco espremido mas me arranjei bem no banco. À medida que voltávamos para Praia Grande, descendo a serra, é que dava pra perceber o quanto tinha subido desde lá de baixo. Fazer aqueles gancho em descida à noite e com um precípio bem perto é um bom teste de coragem - ou de loucura.
Estava na cidade por volta das sete e meia. Comprei algumas coisas num mercado da cidade, fui pro albergue, tomei banho, fiz janta e comi num silêncio e numa paz incriveis. Pouco depois chegou ao albergue uma família gaúcha que ia passar uns dias por ali. Conversamos pouco e fui desmaiar em seguida na cama.
Dormi até umas 8 horas, quando ouvi muito barulho, conversas e agitação nas ruas. Coloquei a cabeça no livro e vi que as pessoas estavam se organizando para fazer aqueles tapetes gigantescos, típicos das celebrações de Corpus Christi. Arrumei as coisas de novo, saí definitivamente do hotel e fui acompanhar de perto as pessoas montando o tapete. Mais que um tapete, percebi a união de pessoas mais velhas e jovens em nome de uma tradição, algo comum, mas fora do comum, que os unia.
O ônibus partiu no horário e passou por algumas cidades como Santa Rosa do Sul, Sombrio e São João do Sul antes de chegar à Praia Grande por volta das onze horas. Em seguida, encaminhei-me para o Albergue da Juventude, onde tinha reserva para o feriado, caminhando por cerca de seis quadras da praça central da cidade até a rua do Albergue.
Lá me esperava a D. Neri - a quem eu chamava "Néri" mas é "Nerí" -, a responsável pelo Albergue, uma pessoa muito atenciosa com dicas precisas do lugar. Foi ela quem me contou que a entrada do Parque do Aparados da Serra ficava no alto da serra, à beira do qual a cidade fica, a 22 km por uma estrada de terra e morro acima - a 1000m acima do nível do mar, enquanto a cidade fica a 40m. Para ajudar mais ainda, os ônibus que saíam da cidade e iam até lá já tinham saído, o que saíam, ou não subiam devido à forte chuva que castigou a região duas semanas antes e deixou as estradas lamacentas e com mais buracos e pedras ainda...
Também tinha a possibilidade de caminhar menos, cinco quilômetros, e ver o Cânion Malacaia pela parte baixa, mas decidi seguir a pé até o parque, o que deixou a D. Neri com uma cara de "?!" - particularmente gostei desta descrição.
A primeira dificuldade foi encontrar o caminho para a estrada, já que não havia muitas placas e só se caminha por estradas de terra com muitas pedras, o que cansa demais devido ao fato de cada passada ser bastante instável (as pedras podem fazer tropeçar) e incerta. Até achar o começo da estrada, foram cerca de 40 minutos e uns cinco quilômetros pra cima e pra baixo da parte "rural" da cidade. Depois foi só morro acima.
A subida pela estrada da Serra do Faxinal lembrava muito a que levava até Machu Picchu, pois era um pequena reta e um gancho à esquerda, uma pequena reta e um gancho à direita com a diferença de que as retas são mais longas no Sul. A idéia era chegar ao Parque por volta das 15h porque o fechamento ocorre às 17h e as trilhas lá dentro levariam cerca de 2h pelo que me informei. A subida era mais difícil do que tinha suposto, e meu esforço para encará-la também foi maior do que eu supus que fosse capaz: mesmo subindo bastante rápido e impondo força, não me sentia fatigado e seguia em frente. O maior desafio estava na mente, já que é difícil andar dissipando as forças do corpo, não ver nem sombra de onde se está, do quanto falta pra chegar e manter a concentração alta para que o desânimo não vença. (Um dos motivos que me levaram a ir aos Cânions)
Quando, mais de quatro horas depois de começar a caminhada, faltavam dez minutos para as três horas e vi que ainda faltavam sete quilômetros para chegar ao Parque, aí o desânimo bateu forte mesmo, e tive que "apelar" para carona e seguir em frente. Peguei carona com três caras, num monza marrom, que iam a Caxias do Sul. Assim que me deixaram na porta do Parque, minha idéia foi logo a de tirar a cãmera e registrar o fato, mas só foi aí que percebi que a dita, antes no bolso do meu shorts, havia caído no banco do carro. Corri, agitei os braços, bradei, fiz todo tipo de gesto ridículo que podia imaginar para chamar a atenção dos caras. O desânimo de outro, que fora substituído pela alegria de chegar à porta do parque, tinha se transformado numa imensa desolação. Qual seria a graça da viagem se não poderia registrá-la em fotos? Até pensar em voltar no dia seguinte foi uma idéia que me ocorreu. Já que estava lá no Parque, tinha de conhecê-lo de qualquer jeito, entáo segui em frente mesmo com a perna já dura e o corpo cheio de poeira de estrada, suado e exaurido.
Da entrada do Parque, são dois quilômetros até chegar às trilhas do Vértice e da Cotovelo, a qual segui primeiro e, passados três quilêmetros, cheguei até a borda do Itaimbezinho, de onde se tem vistas maravilhosas, sobretudo num fim de tarde como aquele que estava fazendo. Há algumas cordas para que as pessoas não avancem, mas isso não é impeditivo a que se chegue bem perto do precípio e se mirem os paredões que se estendem até perder a vista - magnífico! Voltei, parei um pouco para descansar e tomar um pouco de água num centro de visitante que há entre as duas trilhas e segui pela Trilha do Vértice, bastante curta, com acessos mais restritos que a do Cotovelo e uma visão diferente, podendo avistar a Cachoeira Véu de Noiva. De volta à entrada do Parque por volta das 16h45min, levei cerca de uma hora e vinte para andar o Parque.
A verdade foi que andei rápido demais o parque e não reparei direito nos detalhes da natureza - como as impressionantes araucárias que havia por lá. (Isso ocorreu como escreveu Caeiro em "Um pensamento visível faz-me andar mais depressa / E ver menos".). Problema estava no que viria depois: ter todo o caminho de volta por uma estrada de terra no escuro, com a temperatura não tão quente (cerca de 12 graus estava fazendo à noite por lá) e o corpo cansado. Embora estivesse preparado - com saco de dormir e lanterna na mochila - não tinha a idéia nem a vontade de passar a noite ao relento, mas também não tinha força para voltar todo caminho.
Andei uns cinco quilômetros quando peguei carona com um rapaz que vivia lá e estava transportando abacaxi e batatas em seu caminhão. Fiquei um pouco espremido mas me arranjei bem no banco. À medida que voltávamos para Praia Grande, descendo a serra, é que dava pra perceber o quanto tinha subido desde lá de baixo. Fazer aqueles gancho em descida à noite e com um precípio bem perto é um bom teste de coragem - ou de loucura.
Estava na cidade por volta das sete e meia. Comprei algumas coisas num mercado da cidade, fui pro albergue, tomei banho, fiz janta e comi num silêncio e numa paz incriveis. Pouco depois chegou ao albergue uma família gaúcha que ia passar uns dias por ali. Conversamos pouco e fui desmaiar em seguida na cama.
quarta-feira, 6 de junho de 2007
E chega o dia da viagem...
O dia começa bem cedo - mais que o comum - às 5h, quando me levanto, arrumo a cama (primeira coisa feita todos os dias), faço as coisas rotineiras do/no banheiro e ponho-me a colocar no mochila as coisas que arrumara na véspera. Como tudo sempre nem sempre sai conforme o previsto, percebo que havia separado muita coisa, e o jeito é levar, além da mochila de 45l nas costas, outra de 30l na mão (ao contrário do que parece, não levei tanta coisa assim, mas convenhamos que um saco de dormir, emprestado, sempre ocupa um volume considerável mesmo nas mochilas mais espaçosas).
Chego às 6h40min no serviço e ponho-me a correr a fazer o que for possível para terminar uma atualização urgente que precisava ser terminada naquele mesmo dia. Ao mesmo tempo, aproveito e imprimo mapas e textos sobre o local para evitar mais transtornos ainda. Às 8h em ponto, marco minha saída, passo num caixa eletrônico e saco o dinheiro estimado a ser gasto durante a viagem - estava indo para um "fim de mundo" onde não tinha como sacar dinheiro e sabe-se lá se se aceitariam cartões.
A idéia seria tomar um ônibus que partisse às 9h diretamente para o aeroporto de Congonhas, de onde partiria o vôo na minha suposição inicial. Inicial porque li direito no bilhete (por que só faço isso na última hora?) que o avião partiria de Cumbica. Por "sorte", ainda eram menos de 8h30min e pude tomar o ônibus que saia neste horário para Cumbica (as aspas não foram à toa, visto que a idéia era chegar um pouco mais tarde ao ponto do ônibus, mas chegar antes e ler de novo o bilhete foram uma inesperada ajuda que tive).
Cheguei ao aeroporto com mais de duas horas de antecedência - o vôo partiria ao meio-dia e vinte para Floripa - fico enrolando até a hora do embarque. A boa sorte tida em Campinas nào foi suficiente para o já famoso caos nos aeroportos, e o vôo atrasou mais de uma hora para sair de solo. Isso estragava completamente o planejamento inicial que era chegar a uma e meia a Floripa, tomar o ônibus das 14h30min até Criciúma e, de lá, mais um, que sairia às 17h45 até Praia Grande.
Às três da tarde, estava na rodoviária de Floripa. Comprei passagem para Araranguá, onde passaria a noite, e tomaria um ônibus para Praia Grande na quinta de manhã pois não tinha mais como chegar lá na quarta. Assim que acabei de comprar a passagem, como infelizmente é comum, uma senhora chegou oferecendo-me algumas balas; como meu humor não era dos melhores - teria que esperar quase duas horas até a saída do ônibus e já tinha perdido praticamente um dia do tão esperado feriado - não fiz uma cara das mais agradáveis inicialmente, mas expressão do rosto dela quebrou o gelo, e decici pergunta quanto custavam as balas, só que não comprei por achá-las caras e perguntei se não podia dar um desconto (cara-de-pau perguntar isso!) mas não rolou.
Como a ordem era "enrolar", passei a andar pela rodoviária e (re)descobri que havia um museu no andar de cima. Vi com bastante atenção cada um dos quadros cujo tema era sobre mulheres e cores (cada quadro retratava mulheres seminuas com cores diferentes e poemas diferentes para cada um). Depois sentei e continuei a ler o livro levado para viagem; nisso ouço a mesma voz de pouco antes: "não quer comprar essas balas pra me ajudar, moço?". Achei engraçado porque ela não me reconheceu, talvez por estar com cabeça baixa enquanto lia, e perguntei: "a senhora vai me dar desconto por já ser freguês antigo?". Ela também achou graça e esboçou um sorriso no lugar da cara triste, que logo voltou a ser triste e percebi que a expressão de tristeza é uma espécie de recursos que usam.
Ao contrário do vôo, o ônibus partiu no horário. No caminho, com o dia que terminava como belo cenário, dava pra ver a ponte Hercílio Luz e a ilha de Floripa ao fundo. O itinerário contemplou as cidades de Laguna, Tubarão, Criciúma e Araranguá, aonde chegamos por volta das 21h30min. Só tive tempo de achar um hotel por perto, desempacotar as tralhas, tomar banho, ver um pouco a final da Copa do Brasil ganha pelo Fluminense e dormir para o dia seguinte.
Chego às 6h40min no serviço e ponho-me a correr a fazer o que for possível para terminar uma atualização urgente que precisava ser terminada naquele mesmo dia. Ao mesmo tempo, aproveito e imprimo mapas e textos sobre o local para evitar mais transtornos ainda. Às 8h em ponto, marco minha saída, passo num caixa eletrônico e saco o dinheiro estimado a ser gasto durante a viagem - estava indo para um "fim de mundo" onde não tinha como sacar dinheiro e sabe-se lá se se aceitariam cartões.
A idéia seria tomar um ônibus que partisse às 9h diretamente para o aeroporto de Congonhas, de onde partiria o vôo na minha suposição inicial. Inicial porque li direito no bilhete (por que só faço isso na última hora?) que o avião partiria de Cumbica. Por "sorte", ainda eram menos de 8h30min e pude tomar o ônibus que saia neste horário para Cumbica (as aspas não foram à toa, visto que a idéia era chegar um pouco mais tarde ao ponto do ônibus, mas chegar antes e ler de novo o bilhete foram uma inesperada ajuda que tive).
Cheguei ao aeroporto com mais de duas horas de antecedência - o vôo partiria ao meio-dia e vinte para Floripa - fico enrolando até a hora do embarque. A boa sorte tida em Campinas nào foi suficiente para o já famoso caos nos aeroportos, e o vôo atrasou mais de uma hora para sair de solo. Isso estragava completamente o planejamento inicial que era chegar a uma e meia a Floripa, tomar o ônibus das 14h30min até Criciúma e, de lá, mais um, que sairia às 17h45 até Praia Grande.
Às três da tarde, estava na rodoviária de Floripa. Comprei passagem para Araranguá, onde passaria a noite, e tomaria um ônibus para Praia Grande na quinta de manhã pois não tinha mais como chegar lá na quarta. Assim que acabei de comprar a passagem, como infelizmente é comum, uma senhora chegou oferecendo-me algumas balas; como meu humor não era dos melhores - teria que esperar quase duas horas até a saída do ônibus e já tinha perdido praticamente um dia do tão esperado feriado - não fiz uma cara das mais agradáveis inicialmente, mas expressão do rosto dela quebrou o gelo, e decici pergunta quanto custavam as balas, só que não comprei por achá-las caras e perguntei se não podia dar um desconto (cara-de-pau perguntar isso!) mas não rolou.
Como a ordem era "enrolar", passei a andar pela rodoviária e (re)descobri que havia um museu no andar de cima. Vi com bastante atenção cada um dos quadros cujo tema era sobre mulheres e cores (cada quadro retratava mulheres seminuas com cores diferentes e poemas diferentes para cada um). Depois sentei e continuei a ler o livro levado para viagem; nisso ouço a mesma voz de pouco antes: "não quer comprar essas balas pra me ajudar, moço?". Achei engraçado porque ela não me reconheceu, talvez por estar com cabeça baixa enquanto lia, e perguntei: "a senhora vai me dar desconto por já ser freguês antigo?". Ela também achou graça e esboçou um sorriso no lugar da cara triste, que logo voltou a ser triste e percebi que a expressão de tristeza é uma espécie de recursos que usam.
Ao contrário do vôo, o ônibus partiu no horário. No caminho, com o dia que terminava como belo cenário, dava pra ver a ponte Hercílio Luz e a ilha de Floripa ao fundo. O itinerário contemplou as cidades de Laguna, Tubarão, Criciúma e Araranguá, aonde chegamos por volta das 21h30min. Só tive tempo de achar um hotel por perto, desempacotar as tralhas, tomar banho, ver um pouco a final da Copa do Brasil ganha pelo Fluminense e dormir para o dia seguinte.
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