Esperava o ônibus no fim de tarde para voltar ao lar quando chega um senhor de bengala de metal e óculos escuros e pede:
- Pode me avisar quando passar o ônibus que vai pra Rodoviária?
Não demora muito, o tal ônibus vem. Uma moça diz-lhe:
- É esse ônibus aí.
O ônibus pára um pouco além do ponto. Quem embarca primeiro é uma senhora idosa. Depois, sem a ajuda de ninguém e sem tocar no ônibus, o senhor "adivinha" onde é a porta e sobe.
Fiquei impressionado com a cena e pus-me a deduzir como tivera feito para saber o local certo onde estava a porta:
1 talvez tenha calculado pelo barulho do ônibus, logo após passar a seu lado, o quanto se deslocou; como deve pegar muitos ônibus talvez já lhe seja natural sabe tal distância;
2 ele pode ter seguido em direção à porta e percebidoo som do embarque da primeira senhora onde estava a porta;
3 o motorista pode ter-lhe dito algo - improvável porque nada escutei.
De qualquer forma, foi totalmente impressionante esse corriqueiro fato de um simples dia. Mais impressionante ainda é o fato de impressionar-me com isso, ou seja, com o potencial oculto que as pessoas têm e fica mais oculto em função dos preconceitos que se tem do que pela dificuldade em si de perceber...
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Os potenciais escondidos
O que se vê de qualquer pessoal são as coisas que ela faz e não o que consegue fazer. O verdadeiro potencial de alguém nunca - ou quase - chega aos olhos do mundo, tanto para o bem quanto para o mal. Isso quer dizer que uma pessoa pode ser tanto mais bondosa ou cruel do que demonstra.
(Analogamente, uma árvore não é só o que está sobre a terra: suas raízes estão sob ela, e é onde de fato encontram-se suas forças para poder crescer)
Será que valeria a pena que esses pontenciais, tanto bons como maus, viessem à tona?
Provavelmente sim.
Quando se vê o mundo tal qual está, a maneira egoísta como as pessoas agem, é muito menos improvável que as coisas piorassem além do que já estão.
O que fazer para usar os potenciais de cada um?
É lógico, claro, evidente, de conhecimento público que as pessoas não saem por aí matando umas às outras por causa das "leis morais", "regras de convivência em sociedade", dentre outros nomes que se podem conferir a tal "coisa". O que evita o "pior" também evita o "melhor", pois a invisível coerção que mantém a sociedade existindo é o que inibe o potencial de cada um. Está certo quem escreveu que o homem é mais forte quando está sozinho - provavelmente Ibsen.
Seria muita bem-vinda uma "onda de libertação" que levasse as pessoas a vencerem as amarras que prendem seus potenciais e promover verdadeiramente uma revolução.
Se isso não ocorrer - é o menos improvável que aconteça - fique-se então com a seguinte animadora: quando se vir qualquer pessoa, que se tenha em mente que ela está (muito) além do que se vê, é um ser inacabado, um microcosmo em crescimento.
(Analogamente, uma árvore não é só o que está sobre a terra: suas raízes estão sob ela, e é onde de fato encontram-se suas forças para poder crescer)
Será que valeria a pena que esses pontenciais, tanto bons como maus, viessem à tona?
Provavelmente sim.
Quando se vê o mundo tal qual está, a maneira egoísta como as pessoas agem, é muito menos improvável que as coisas piorassem além do que já estão.
O que fazer para usar os potenciais de cada um?
É lógico, claro, evidente, de conhecimento público que as pessoas não saem por aí matando umas às outras por causa das "leis morais", "regras de convivência em sociedade", dentre outros nomes que se podem conferir a tal "coisa". O que evita o "pior" também evita o "melhor", pois a invisível coerção que mantém a sociedade existindo é o que inibe o potencial de cada um. Está certo quem escreveu que o homem é mais forte quando está sozinho - provavelmente Ibsen.
Seria muita bem-vinda uma "onda de libertação" que levasse as pessoas a vencerem as amarras que prendem seus potenciais e promover verdadeiramente uma revolução.
Se isso não ocorrer - é o menos improvável que aconteça - fique-se então com a seguinte animadora: quando se vir qualquer pessoa, que se tenha em mente que ela está (muito) além do que se vê, é um ser inacabado, um microcosmo em crescimento.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Inquietações
Praticamente nada se iguala a uma noite de chuva e trovões para escrever.... seus sons rasgam os céus e abrem espíritos encontrando reverberação nas inquietações aflitivas que recaem sobre todos e normalmente são ignoradas ou suprimidas, convenientemente ou não, por cada um...
Tais inquietações advêm de alguma inconformidade entre o ser e o mundo ou entre o status quo e o que se imagina que devesse ser. (Em Spinoza, tinha-se que a verdade era a harmonia entre o ser e a realidade. Será que existem inquietações em quem age verdadeiramente?)Muitas dessas inquietações têm motivações externas, pois recai sobre o indivíduo a responsabilidade de não estar - por precisão, usa-se em lugar de "ser" - à altura do que as convenções cobram-lhe.
É lógico e sábido que sempre é o próprio indivíduo quem se cobra, porém tal cobrança, por sua vez, pode ter origens externas e sem qualquer nexo com o "eu". Novamente o primeiro e mais complicado primeiro passo recai na percepção da situação: o quanto é uma autocobrança e quanto é pressão por coisas impostas pela sociedade. É tremandamente dificílimo - tem-se aqui uma hipérbole? - que isso se autoperceba; faz-se necessária a benemérita ajuda de um outro eu "caridoso" para tal.
Uma das inquietações que mais rondam as pessoas em qualquer tempo é sobre seus objetivos de vida: é imprescindível que sempre se tenham metas a atingir e planos de como conquistá-las, senão é-se um "à-toa, um fracassado". E quem tem a coragem de levantar o olhar com brio quando for chamado assim ou de coisa pior?
Entretanto o afã por descobrir, conseguir, realizar um objetivo traz a cegueira inerente e inevitável da situação: somente alcançar o objetivo, o prêmio vale. É necessário ter em mente o que a conquista de um objetivo trará para si, senão as conquistas serão vazias. "De que serve ao homem conquistar o mundo inteiro se perder a alma?", questionou Blaise Pascal.
Deve-se começar primeiramente tornando-se algo em-si, buscar o auto-aprimoramento, evolução. Como alcançar objetivos maiores se não se cresce? É inevitável que se comece por si próprio na odisséia univérsica, pois somente o indivíduo pode ser um porto seguro de partida e chegada para si mesmo. Perigoso também é esse caminho - todos têm o seu - visto que somente ter o foco no autocrescimento implicará em auto-suficência, soberba, egoísmo etc., fatos totalmente observados e, infelizmente, facilmente encontráveis por aí.
O começar dessa jornada é sempre o mais complicado - como em toda jornada. Primeiro vêm as inquientações, a sensação de estar-se perdido no mundo, não sabendo seu lugar, aonde chegar, que caminho tomar... Deve-se ter a coragem - etimologicamente agir com o coração - de questionar as principais certezas e pô-las à prova; indagar cada uma vez à semelhança de como Sócrates fazia aos transeuntes do mercado em Atenas. Trata-se de algo perigosísssimo pois pode implicar na ruína de muitos valores e crenças importantes - mas falsos e, por isso, descartáveis. A dúvida não é a negação da crença, existência de algo: pode funcionar como um fortalecimento das mesmas se forem verdadeiras. Submeter-se todas as crenças - e isso vai além do plano religioso - e valores a questionamentos é reconhecer-se falho e buscar aprimoramento.
Com a "conquista" de si próprio, pode-se partir em busca do mundo, que, no fundo, também é a "reconquista" de si: são dois universos com infinitas possibilidades que se cruzam...
(continua algum dia no futuro ou passado)
Tais inquietações advêm de alguma inconformidade entre o ser e o mundo ou entre o status quo e o que se imagina que devesse ser. (Em Spinoza, tinha-se que a verdade era a harmonia entre o ser e a realidade. Será que existem inquietações em quem age verdadeiramente?)Muitas dessas inquietações têm motivações externas, pois recai sobre o indivíduo a responsabilidade de não estar - por precisão, usa-se em lugar de "ser" - à altura do que as convenções cobram-lhe.
É lógico e sábido que sempre é o próprio indivíduo quem se cobra, porém tal cobrança, por sua vez, pode ter origens externas e sem qualquer nexo com o "eu". Novamente o primeiro e mais complicado primeiro passo recai na percepção da situação: o quanto é uma autocobrança e quanto é pressão por coisas impostas pela sociedade. É tremandamente dificílimo - tem-se aqui uma hipérbole? - que isso se autoperceba; faz-se necessária a benemérita ajuda de um outro eu "caridoso" para tal.
Uma das inquietações que mais rondam as pessoas em qualquer tempo é sobre seus objetivos de vida: é imprescindível que sempre se tenham metas a atingir e planos de como conquistá-las, senão é-se um "à-toa, um fracassado". E quem tem a coragem de levantar o olhar com brio quando for chamado assim ou de coisa pior?
Entretanto o afã por descobrir, conseguir, realizar um objetivo traz a cegueira inerente e inevitável da situação: somente alcançar o objetivo, o prêmio vale. É necessário ter em mente o que a conquista de um objetivo trará para si, senão as conquistas serão vazias. "De que serve ao homem conquistar o mundo inteiro se perder a alma?", questionou Blaise Pascal.
Deve-se começar primeiramente tornando-se algo em-si, buscar o auto-aprimoramento, evolução. Como alcançar objetivos maiores se não se cresce? É inevitável que se comece por si próprio na odisséia univérsica, pois somente o indivíduo pode ser um porto seguro de partida e chegada para si mesmo. Perigoso também é esse caminho - todos têm o seu - visto que somente ter o foco no autocrescimento implicará em auto-suficência, soberba, egoísmo etc., fatos totalmente observados e, infelizmente, facilmente encontráveis por aí.
O começar dessa jornada é sempre o mais complicado - como em toda jornada. Primeiro vêm as inquientações, a sensação de estar-se perdido no mundo, não sabendo seu lugar, aonde chegar, que caminho tomar... Deve-se ter a coragem - etimologicamente agir com o coração - de questionar as principais certezas e pô-las à prova; indagar cada uma vez à semelhança de como Sócrates fazia aos transeuntes do mercado em Atenas. Trata-se de algo perigosísssimo pois pode implicar na ruína de muitos valores e crenças importantes - mas falsos e, por isso, descartáveis. A dúvida não é a negação da crença, existência de algo: pode funcionar como um fortalecimento das mesmas se forem verdadeiras. Submeter-se todas as crenças - e isso vai além do plano religioso - e valores a questionamentos é reconhecer-se falho e buscar aprimoramento.
Com a "conquista" de si próprio, pode-se partir em busca do mundo, que, no fundo, também é a "reconquista" de si: são dois universos com infinitas possibilidades que se cruzam...
(continua algum dia no futuro ou passado)
sábado, 20 de dezembro de 2008
Oi, tudo bem?
O cotidiano "oi, tudo bem?" é tão condicionado - "natural" seria a expressão mais comum, só que se tratarão os termos com precisão - que suas variações - "tudo bom?", "como vai?", "beleza?" etc - suscitam quase sempre as mesmas respostas: "tudo bem, e você?", "bem", um sinal de positivo...
É difícil saber se é mais automática a pergunta ou a resposta, principalmente quando se trata de ambiente de trabalho. Pessoas já chegam estressadas e apressadas e fazem tal pergunta por mero costume, imposição. Se não o fazem, pensam que podem estar parecendo antipática aos olhos alheios. Mesmo que achem que não esteja tudo bem, dizem o contrário para não parecem fracas, serem um peso aos outros, vergonha ou qualquer outro movito parecido.
O mais incrível de tudo é que as pessoas estão confinadas numa prisão etérea imperceptível de rotina na qual os dias se tornam cada vez menos desafiantes, diferentes e divertidos.
Rotina segundo o Houaiss: hábito de fazer algo sempre do mesmo modo, mecanicamente; rotineir.
Se se faz tudo do mesmo modo, qual a diferença de um dia para o outro? Se tudo ao redor muda quase nada, por que se sentir bem num dia e mal no seguinte?
A questão é que os problemas são todos internos, não externos e não se enxerga isso. O egoísmo é uma grande cegueira que não permite enxergar além da subjetividade, ou seja, não se vê além de uma barreira própria dentro da qual estão realmente os problemas. Como ultrapassá-la é uma questão que cada pessoa deve aprender durante sua vida.
Se alguém responder a pergunta mecânica com uma resposta "fora do padrão" - como "tendo ar para respirar, está ótimo" - e inclusive sorrir, perceba-se alguém que superou a barreira ou que está num momento em que vê acima dela.
Para quem se irrita com a pergunta costumeira, algumas dicas de respostas:
- "tirando o que está embaixo, está tudo em cima";
- "tirando o que está feio, está tudo beleza";
- "tirando o errado, está tudo certo";
- "tirando o caos, está tudo em ordem";
- ...
É difícil saber se é mais automática a pergunta ou a resposta, principalmente quando se trata de ambiente de trabalho. Pessoas já chegam estressadas e apressadas e fazem tal pergunta por mero costume, imposição. Se não o fazem, pensam que podem estar parecendo antipática aos olhos alheios. Mesmo que achem que não esteja tudo bem, dizem o contrário para não parecem fracas, serem um peso aos outros, vergonha ou qualquer outro movito parecido.
O mais incrível de tudo é que as pessoas estão confinadas numa prisão etérea imperceptível de rotina na qual os dias se tornam cada vez menos desafiantes, diferentes e divertidos.
Rotina segundo o Houaiss: hábito de fazer algo sempre do mesmo modo, mecanicamente; rotineir.
Se se faz tudo do mesmo modo, qual a diferença de um dia para o outro? Se tudo ao redor muda quase nada, por que se sentir bem num dia e mal no seguinte?
A questão é que os problemas são todos internos, não externos e não se enxerga isso. O egoísmo é uma grande cegueira que não permite enxergar além da subjetividade, ou seja, não se vê além de uma barreira própria dentro da qual estão realmente os problemas. Como ultrapassá-la é uma questão que cada pessoa deve aprender durante sua vida.
Se alguém responder a pergunta mecânica com uma resposta "fora do padrão" - como "tendo ar para respirar, está ótimo" - e inclusive sorrir, perceba-se alguém que superou a barreira ou que está num momento em que vê acima dela.
Para quem se irrita com a pergunta costumeira, algumas dicas de respostas:
- "tirando o que está embaixo, está tudo em cima";
- "tirando o que está feio, está tudo beleza";
- "tirando o errado, está tudo certo";
- "tirando o caos, está tudo em ordem";
- ...
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
As três formas de mudar
Tal como a ave que segue o sol,
Fazendo dele seu destino,
Sigo-a em toda parte
E eu mudo...
Tal como a sombra da árvore
Que o sol molda pelo dia,
Assim me transforma ela
E eu mudo...
Tal como o olhar fita o ocaso
Silencia o observador,
Assim ela a mim cala
E eu mudo...
Fazendo dele seu destino,
Sigo-a em toda parte
E eu mudo...
Tal como a sombra da árvore
Que o sol molda pelo dia,
Assim me transforma ela
E eu mudo...
Tal como o olhar fita o ocaso
Silencia o observador,
Assim ela a mim cala
E eu mudo...
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
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