terça-feira, 10 de julho de 2007

A véspera...

"O Olhar

O último olhar do condenado não é nublado sentimentalmente por lágrimas
nem iludido por visões quiméricas.

O último olhar do condenado é nítido como uma fotografia:
vê até a pequenina formiga que sobe acaso pelo rude do verdugo,
vê o frêmito da última folha no alto daquela árvore, além...

Ao olhar do condenado nada escapa, como ao olhar de Deus

— um porque é eterno,
o outro porque vai morrer.

O olhar do poeta é como o olhar de um condenado...
como o olhar de Deus... "

Amanhã terei a possbilidade de atestar a veracidade do que escreveu Quintana...

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Sobre a verdade...

"A verdade é aquilo que todo o homem precisa para viver e que ele não pode obter nem adquirir de ninguém. Todo o homem deve extraí-la sempre nova do seu próprio íntimo, caso contrário ele arruina-se. Viver sem verdade é impossível. A verdade é talvez a própria vida."
Franz Kafka, in 'Conversas com Kafka'

Brilhante o texto de Kafka. A ele nada devo acrescentar.

O foco deste post cairá pretensamente sobre como alcançá-la. (De fato, é muita pretensão que se conheça a resposta a que muitos tentaram chegar aos longo de séculos e nunca o fizeram, ou não o fizeram por perceberem que é algo que não se deve conhecer, ou se trate de uma experiência pessoal intransferível. Somente exporei aqui aquilo em que acredito, o que é verdadeiro para mim)

Numa entrevista que li de Isabel Allende em uma edição da Playboy - as entrevistas até superam as "matérias principais" às vezes -, relatando sobre o golpe de 73 no Chile, a tomada do poder por Pinochet, a queda de seu tio Salvador Allende, enfim muitas mudanças e perdas ao mesmo tempo. Ela afirma que, à medida que se vai sofrendo perdas, o que é supérfluo passa a perder a importância e tem seu real valor revelado.

Estendendo o raciocínio de Isabel Alllende, se o supérfluo é deixado de lado, logo o que resta só pode ser o essencial. Uma outra definição que tive sobre a verdade diz que "é o que continua". Assim é logico que a verdade fica quando se descarta o supérfluo. Sendo a verdade
"aquilo que todo o homem precisa para viver", pode-se chegar à seguinte questão: se, de fato, tentarmos destruir tudo que há dentro nós, sem falsas preservações ou auto-indugência, o que ficará?

"Um homem tem que estar preparado para se queimar na sua própria chama: como se pode renovar sem primeiro se transformar em cinzas?" Friedrich Nietzsche, in Assim falou Zaratrusta.

"Você é o contador de histórias de sua própria vida, e poderá ou não criar sua própria lenda."
Isabel Allende

domingo, 1 de julho de 2007

Olhos que refletem o futuro

Assim escreveu Alberto Caeiro:

"Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido."

Na república em que moro, vive uma cachorra chamada Sophia (com "ph" mesmo, mas isso não a torna ácida), uma rotweiler um tanto bonachona que mesmo tendo comida no próprio prato, sempre aparece à porta da cozinha com uma cara de "pidona" na esperança de que lhe dêem algo pra comer. Mesmo sabendo da manha da esperta, às vezes lhe dou algo pra comer e faço um afago na nuca, algo que adora - isso faz com que eu fique com o cheiro dela nas mãos, inclusive a esta hora, mesmo lavando bem.
Tem outras vezes em que tento distraí-la perguntando "E a bola, Sophia? Cadê a bola?" para que se anime a procurá-la ou eu mesmo a pego do esconderijo dela, a casinha ou um buraco na areia perto dali. Com a bola na minha mão, ela se agita fica pulando à espera do lançamento, e é aí que me divirto vingindo que jogo a bola só pra ela correr à toa - muita maldade isso. Quando jogo a bola de verdade, procuro tomar cuidado pra não jogar numa área do quintal que tenha muitas plantas rasteiras onde ela possa machucar-se, já que sai correndo sempre como um trem desgovernando atrás da bola.
Só que tem vezes, em que ela fica deitada, nem é perto da porta da cozinha e fica com uma cara muito triste. Chego perto e compartilho seu silêncio. E troco de posiçao com ela quando passo a apenas observá-la ao contrário do que ela faz comigo normalmente.
A Sophia é uma cachora que já passou de metade de seu tempo máximo de vida e, penso,talvez seja algo relacionado a isso que faz com que, cada vez mais, ela fique em seu canto, quieta, pensativa, desanimada. Talvez ela perceba, de alguma forma que não compreendamos, a passagem do tempo e como isso a vai afetando. É nesse olhar que me vejo refletido não só no momento em que o miro, mas também no futuro em que isso me projeta: será que ficarei tal qual a Sophia quando tiver sua idade proporcional? Serei uma pessoa animada, com energia para brigar por aquilo que considero certo?
"Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?" questiona Álvaro de Campos. Tomara que a Sophia não tenha tantos pensamentos nebulosos em sua mente.

sábado, 23 de junho de 2007

Céu de inverno

Pus-me a mirar as estrelas,
Observando em cada uma a diferença de brilho
Porque, embora sejam muitas, quem sabe infinitas,
O espaço que as separa é ainda maior.
Também é assim com as pessoas.

Busquei saber quantas imagens são suficientes
Para superar a solidão cósmica,
E olhei tanto, mas tanto,
Que a beleza se prendeu em meus olhos.

terça-feira, 19 de junho de 2007

A chegada do inverno

Sempre se ouve falar de equinócio e solstício.

Solsticio está assim definido no Wikipedia:
"Em astronomia, solstício é o momento em que o Sol, durante seu movimento aparente na esfera celeste, atinge o seu maior afastamento, em latitude, da linha do equador. Os solstícios ocorrem duas vezes por ano: em 21 ou 22 de dezembro e em 21 ou 22 de junho. A data varia devido aos anos bissextos, que oscila entre o calendário das estações em um dia.

No hemisfério Sul, o de dezembro é o solstício de verão e o de junho é o solstício de inverno. O oposto acontece no hemisfério Norte.

Por causa do solstício, existem os trópicos de Câncer e Capricórnio. No solstício de verão no hemisfério sul, os raios solares incidem perpendicularmente à terra na linha do Trópico de Capricórnio. No solstício de inverno, ocorre a mesma coisa no Trópico de Câncer.

Quando ocorre um solstício no inverno significa que esse dia é o dia menor do ano e a noite mais longa , quando ocorre no verão significa que é o dia maior do ano e a noite menor."

Faltou lembrar o fato de que nesses dias, observam-se os dias mais longos do ano no hemisfério em que ocorre os solstício e o contrário no outro hemisfério. Para comprovar isso, basta analisar as previsões de nascente e poente, por exemplo, para a cidade de São Paulo nos próximos dias segudo CPTEC:

19 de junho: nascente ãs 6h47min17s, poente ãs 17h28min18s = 10h41min01s
20 de junho: nascente ãs 6h47min31s, poente ãs 17h28min31s = 10h41min00s
21 de junho: nascente ãs 6h47min44s, poente ãs 17h28min44s = 10h41min00s
22 de junho: nascente ãs 6h47min57s, poente ãs 17h28min58s = 10h41min01s
23 de junho: nascente ãs 6h48min09s, poente ãs 17h29min12s = 10h41min03s

Percebe-se um "empate técnico" em duração do dia em 20 e 21 de junho, ou seja, este é o dia mais curto do ano no hemisfério sul, quando chega o inverno.
Os incas e, antes deles, outros povos da cultura andina, celebravam esta data por entender que o Sol, um dos deuses que cultuavam, estava mais fracos nesta época, por isso celebravam e ofereciam sacrifícios para que isso restabelecesse sua força. É nesta época do ano que ocorrem as maiores celebrações em Cuzco, antiga capital do Império Inca.
Só para mostar um pouco do que pode haver escondido num aparente insignificante dia.

Return to innocence



"Não ser atacado por ser inocente" Índios, Legião Urbana

"É preciso que a virtude volte a ser inocência" Autor desconhecido ou esquecido.

domingo, 17 de junho de 2007

Ser olhado, sob a óptica de Kundera.

O título é um pouco ambíguo, mas não resisto a um jogo de palavras...

Como estamos numa era em que tudo ou quase se resume à imagem como único atributo a ser considerado para qualquer análise que se faça a respeito de qualquer coisa ou pessoa, uma reflexão feita por Kundera é boa de ler:

"Todos nós temos necessidade de ser olhados. Podemos ser classificados em quatro categoria, segundo o tipo de olhar sob o qual queremos viver.
A primeira procura o olhar de um número infinito de olhos anônimos, em outras palavras, o olhar do público (...)
Na segunda categoria, estão aqueles que não podem viver sem o olhar de numerosos olhos familiares. São os organizadores incansáveis de coquetéis e jantares. São mais felizes que os da primeira categoria, que, quando perdem seu público, imaginam que a luz se apagou na sala de suas vidas. É o que acontece a quase todos, mais dia, menos dia. As pessoas da segunda categoria, pelo contrário, sempre conseguem arrumar quem as olhe. (...)
Em seguida, vem a terceira categoria, a dos que têm necesidade de viver sob o olhar do ser amado. A situação deles é tão perigosa quanto a daqules do primeiro grupo. Basta que os olhos do ser amado se fechem para que a sala fique mergulhada na escuridão. (...)
Por fim, existe a quarta categoria, a mais rara, a dos que vivem sob os olhares imaginários dos ausentes. São os sonhadores."

A que categoria pertencerão os olhos que lêem este texto?