quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Os potenciais escondidos

O que se vê de qualquer pessoal são as coisas que ela faz e não o que consegue fazer. O verdadeiro potencial de alguém nunca - ou quase - chega aos olhos do mundo, tanto para o bem quanto para o mal. Isso quer dizer que uma pessoa pode ser tanto mais bondosa ou cruel do que demonstra.

(Analogamente, uma árvore não é só o que está sobre a terra: suas raízes estão sob ela, e é onde de fato encontram-se suas forças para poder crescer)

Será que valeria a pena que esses pontenciais, tanto bons como maus, viessem à tona?

Provavelmente sim.

Quando se vê o mundo tal qual está, a maneira egoísta como as pessoas agem, é muito menos improvável que as coisas piorassem além do que já estão.

O que fazer para usar os potenciais de cada um?

É lógico, claro, evidente, de conhecimento público que as pessoas não saem por aí matando umas às outras por causa das "leis morais", "regras de convivência em sociedade", dentre outros nomes que se podem conferir a tal "coisa". O que evita o "pior" também evita o "melhor", pois a invisível coerção que mantém a sociedade existindo é o que inibe o potencial de cada um. Está certo quem escreveu que o homem é mais forte quando está sozinho - provavelmente Ibsen.

Seria muita bem-vinda uma "onda de libertação" que levasse as pessoas a vencerem as amarras que prendem seus potenciais e promover verdadeiramente uma revolução.

Se isso não ocorrer - é o menos improvável que aconteça - fique-se então com a seguinte animadora: quando se vir qualquer pessoa, que se tenha em mente que ela está (muito) além do que se vê, é um ser inacabado, um microcosmo em crescimento.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Inquietações

Praticamente nada se iguala a uma noite de chuva e trovões para escrever.... seus sons rasgam os céus e abrem espíritos encontrando reverberação nas inquietações aflitivas que recaem sobre todos e normalmente são ignoradas ou suprimidas, convenientemente ou não, por cada um...

Tais inquietações advêm de alguma inconformidade entre o ser e o mundo ou entre o status quo e o que se imagina que devesse ser. (Em Spinoza, tinha-se que a verdade era a harmonia entre o ser e a realidade. Será que existem inquietações em quem age verdadeiramente?)Muitas dessas inquietações têm motivações externas, pois recai sobre o indivíduo a responsabilidade de não estar - por precisão, usa-se em lugar de "ser" - à altura do que as convenções cobram-lhe.

É lógico e sábido que sempre é o próprio indivíduo quem se cobra, porém tal cobrança, por sua vez, pode ter origens externas e sem qualquer nexo com o "eu". Novamente o primeiro e mais complicado primeiro passo recai na percepção da situação: o quanto é uma autocobrança e quanto é pressão por coisas impostas pela sociedade. É tremandamente dificílimo - tem-se aqui uma hipérbole? - que isso se autoperceba; faz-se necessária a benemérita ajuda de um outro eu "caridoso" para tal.

Uma das inquietações que mais rondam as pessoas em qualquer tempo é sobre seus objetivos de vida: é imprescindível que sempre se tenham metas a atingir e planos de como conquistá-las, senão é-se um "à-toa, um fracassado". E quem tem a coragem de levantar o olhar com brio quando for chamado assim ou de coisa pior?

Entretanto o afã por descobrir, conseguir, realizar um objetivo traz a cegueira inerente e inevitável da situação: somente alcançar o objetivo, o prêmio vale. É necessário ter em mente o que a conquista de um objetivo trará para si, senão as conquistas serão vazias. "De que serve ao homem conquistar o mundo inteiro se perder a alma?", questionou Blaise Pascal.

Deve-se começar primeiramente tornando-se algo em-si, buscar o auto-aprimoramento, evolução. Como alcançar objetivos maiores se não se cresce? É inevitável que se comece por si próprio na odisséia univérsica, pois somente o indivíduo pode ser um porto seguro de partida e chegada para si mesmo. Perigoso também é esse caminho - todos têm o seu - visto que somente ter o foco no autocrescimento implicará em auto-suficência, soberba, egoísmo etc., fatos totalmente observados e, infelizmente, facilmente encontráveis por aí.

O começar dessa jornada é sempre o mais complicado - como em toda jornada. Primeiro vêm as inquientações, a sensação de estar-se perdido no mundo, não sabendo seu lugar, aonde chegar, que caminho tomar... Deve-se ter a coragem - etimologicamente agir com o coração - de questionar as principais certezas e pô-las à prova; indagar cada uma vez à semelhança de como Sócrates fazia aos transeuntes do mercado em Atenas. Trata-se de algo perigosísssimo pois pode implicar na ruína de muitos valores e crenças importantes - mas falsos e, por isso, descartáveis. A dúvida não é a negação da crença, existência de algo: pode funcionar como um fortalecimento das mesmas se forem verdadeiras. Submeter-se todas as crenças - e isso vai além do plano religioso - e valores a questionamentos é reconhecer-se falho e buscar aprimoramento.

Com a "conquista" de si próprio, pode-se partir em busca do mundo, que, no fundo, também é a "reconquista" de si: são dois universos com infinitas possibilidades que se cruzam...

(continua algum dia no futuro ou passado)

sábado, 20 de dezembro de 2008

Oi, tudo bem?

O cotidiano "oi, tudo bem?" é tão condicionado - "natural" seria a expressão mais comum, só que se tratarão os termos com precisão - que suas variações - "tudo bom?", "como vai?", "beleza?" etc - suscitam quase sempre as mesmas respostas: "tudo bem, e você?", "bem", um sinal de positivo...

É difícil saber se é mais automática a pergunta ou a resposta, principalmente quando se trata de ambiente de trabalho. Pessoas já chegam estressadas e apressadas e fazem tal pergunta por mero costume, imposição. Se não o fazem, pensam que podem estar parecendo antipática aos olhos alheios. Mesmo que achem que não esteja tudo bem, dizem o contrário para não parecem fracas, serem um peso aos outros, vergonha ou qualquer outro movito parecido.

O mais incrível de tudo é que as pessoas estão confinadas numa prisão etérea imperceptível de rotina na qual os dias se tornam cada vez menos desafiantes, diferentes e divertidos.

Rotina segundo o Houaiss: hábito de fazer algo sempre do mesmo modo, mecanicamente; rotineir.

Se se faz tudo do mesmo modo, qual a diferença de um dia para o outro? Se tudo ao redor muda quase nada, por que se sentir bem num dia e mal no seguinte?

A questão é que os problemas são todos internos, não externos e não se enxerga isso. O egoísmo é uma grande cegueira que não permite enxergar além da subjetividade, ou seja, não se vê além de uma barreira própria dentro da qual estão realmente os problemas. Como ultrapassá-la é uma questão que cada pessoa deve aprender durante sua vida.

Se alguém responder a pergunta mecânica com uma resposta "fora do padrão" - como "tendo ar para respirar, está ótimo" - e inclusive sorrir, perceba-se alguém que superou a barreira ou que está num momento em que vê acima dela.

Para quem se irrita com a pergunta costumeira, algumas dicas de respostas:
- "tirando o que está embaixo, está tudo em cima";
- "tirando o que está feio, está tudo beleza";
- "tirando o errado, está tudo certo";
- "tirando o caos, está tudo em ordem";
- ...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

As três formas de mudar

Tal como a ave que segue o sol,
Fazendo dele seu destino,
Sigo-a em toda parte
E eu mudo...

Tal como a sombra da árvore
Que o sol molda pelo dia,
Assim me transforma ela
E eu mudo...

Tal como o olhar fita o ocaso
Silencia o observador,
Assim ela a mim cala
E eu mudo...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A revelação de uma fotografia

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Aniversário...

Mais um ano de sepultamento dela...
Ainda florescerá...

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Crônicas de Somos Paulo



Dessa vez, o caroço foi longe. Caroços caem como bailarinos não sabem. Devo ser a mãe de muitas árvores, pois o infinito acontece quando eu me retiro. Então, quando a feira acabar, seguirei os meus passos de pés gigantescos até me esquecer, para sempre, desse caroço caído no chão. Vou me sentar em frente àquela janela e recomeçar o meu trabalho, sem sequer me lembrar que a terra continuará o dela. Seguirei a minha vida como se não fosse a culpada por tantas árvores de maçã. Passarei por elas como se sempre estivessem ali, talvez, eu pisando e esmagando os brotos de outrém. Para mim, é apenas a fotografia de um caroço jogado na terra, vista por um gigante velho, de vestido roto. Mas se brotar, Gulliver, se brotar, serei apenas um tronco, envelhecido e ingrato, descansando no meio da sombra. Eu gosto de andar pelas ruas de Santo André e pelas ruas de são tão lindas. Eu gosto das cidades em terceira pessoa do plural, mas vou me mudar para a cidade de Somos Paulo, onde todos têm o mesmo nome e todos se dizem bom dia. O menino veste uma calça comprida, um olhar esmurrado e traz uma maldade no peito, como um broche de flores feridas e pétalas não cicatrizadas. Disse o pingüim dessa casa que o medo guardado fora da geladeira apodrecia em maldade de medo. Essa é a que se espalha pelo seu corpo, sem que você perceba, e faz com que se afaste de outras pessoas. Longe, não consegue entender o motivo delas. E nem elas, o seu. Mas o seu coração continua numa bondade que ninguém mais entende e, então, chamam aquilo de maldade. Assim era o menino, tentando ser bom, a sua maneira. Agora há pouco, por exemplo, ficou parado no meio da rua, olhando o cachorro pulguento. Os olhos fundos daquele cachorro, que sabia enxergar o fundo da gente. O menino quis voltar para casa. O cachorro foi atrás. O menino parou. O cachorro parou, sentou-se e inclinou a cabeça. O menino voltou a andar. O cachorro acompanhou. Quando o menino virou para trás, chutou a cara do cachorro, para que não esperasse o amor que ele podia dar. E, mesmo assim, o menino tem olhos de esperanças. As pessoas más são as que mais têm esperanças no mundo. Só quem reconhece a própria maldade sabe que, no escuro da noite, um travesseiro é incapaz de abraçar. Quando o menino cresceu e apanhou do ladrão, apanhou e apanhou, ergueu os olhos machucados e disse: agora você pode me matar, agora você pode chutar a minha cara, mas uma coisa eu sei, eu sei que você não era assim, eu sei que você era só um menino abraçado às pernas da sua mãe. O ladrão engoliu dois goles de raiva e saudade, talvez de um tempo que não era oco de mãe, talvez dos sonhos de futebol, ele agora um homem chutando as pedras, sozinho no gramado, a mãe com vergonha dele. E só agora, olhando a maldade lá fora, eu enxergo o meu rosto refletido no vidro. O ladrão não está sozinho. O menino não está sozinho. Paulo não está sozinho. A noite é uma coreografia de condenados, dançando e rolando na cama, com o travesseiro incapaz de abraço. Então, a maldade é isso? A maldade é esse que chora, sozinho, a sua mão cheia de espinhos? Se a maldade for isso, se for esse desamparo e essa solidão, esse medo que. O ladrão acerta o seu primeiro golpe. O soco desliza sobre a boca de Paulo, em câmera lenta, enquanto gotas de sangue flutuam no ar. Os antebraços tentam forjar as verdades, na frente do rosto, mas o ladrão atinge o estômago. O corpo de Paulo encurva-se para a frente, abraçando o vazio de um desamparo. Paulo ergue os olhos machucados e diz: agora você pode me matar, agora você pode chutar a minha cara, mas uma coisa eu sei, eu sei que você não era assim, eu sei que você era só um menino, abraçado às pernas da sua mãe. O ladrão engole dois goles de raiva e saudade, talvez de um tempo que não era oco de mãe, talvez dos sonhos de futebol, ele agora um homem chutando as pedras, sozinho no gramado, a mãe com vergonha dele. E só agora, olhando a maldade lá fora, eu enxergo o meu rosto refletido no vidro. O ladrão não está sozinho. O menino não está sozinho. Paulo não está sozinho. No meio da rua, Paulo e os violentos, Paulo e os condenados. Paulo e os ignorantes de amor. Todos no chão, encolhidos e ajoelhados, como sementes de pedra daninha, incapazes de brotar. Ao lado de fora, uma árvore cresceu para cima enquanto uma rua se deitou. Há uma página de um livro sendo pisada no meio da calçada, enquanto o jornal tenta voar, pendurando-se no vento. O jornal pousa em triângulo sobre a terra, do mesmo jeito que Paulo tenta levantar o corpo, esmurrado pelo ladrão. Depois de um dia inteiro enrolando bananas na feira, é claro que o jornal acreditaria no mendigo, dizendo que o asfalto é só uma noite dura e sem estrelas. O dia dormindo em trapos remendados de sol, enquanto a noite faminta arranca os sonhos com as mãos. Mais outro dia derreado pela noite e aquele homem quem será. Aquele, que um dia foi menino a dormir no ventre da mãe e hoje é mendigo, a dormir curvado do frio, na posição do feto que um dia foi. E, agora, tão encolhido que o vento não haveria de encontrá-lo ali. Era só fingir-se de morto, porque os mortos, sem ao menos respirar, enganam o frio, o vento e a fome. As bananas da feira sendo enroladas pelas histórias de Paulo. Um cachorro expulsando pulgas sobre as histórias de Paulo. O estômago do mendigo gargalhando sob as histórias de Paulo. O ladrão limpando o cocô do sapato sobre as histórias de Paulo. E eu acariciando o jornal. O menino levanta um aviãozinho porque não sabe que o ódio explode em bombas, chamas de fogo num vermelho voar. Como os pássaros vão entender? Como os pássaros vão suportar voar outra vez? O caraço no meio da feira não viu a flor sufocada nas pedras. E a flor não sabe que da terra também o ódio se explode em campos minados, onde menos se espera, onde menos se pisa. Como as sementes vão entender? Como as sementes vão suportar brotar outra vez? O soldado pegou a arma lentamente. Segurou-a entre as mãos e abriu os olhos, na esperança de que fosse um girassol. Mas sementes ao reverso plantavam a morte no peito do outro e, por isso, ele calou. O inimigo caiu no chão e levantou a mão com os dedos abertos. Um pedaço de braço tentando brotar do chão estéril e murchando em seguida, com os últimos raios de vida. Eles, completamente estranhos, já eram inimigos. O girassol apontado para o céu. Da boca. E foi então que dois meninos, de cabelos reluzentes, entraram correndo pelos campos concentrados de flores. Duas armas de plástico, compradas na feira, explodiam em tiros ao som da bochecha e eles se arrastavam pelo chão. Escondido atrás da barraca de peixes estendidos, o menino pegou a arma lentamente. Segurou-a entre as mãos e abriu os olhos, na esperança de que fosse de verdade. Mas era. Agora você pode me matar, disse o menino crescido, agora você pode atirar na minha cara, mas uma coisa eu sei, eu sei que você não era assim, eu sei que você era só um menino, abraçado às pernas da sua mãe. A mãe com os olhos de fúria, com as mãos na garganta do menino. Pétalas enfeitando o seu cabelo, pétalas caindo por toda parte, até que a mãe precise de suas mãos para costurar a manta que vai aquecer o menino. Ela cobre o menino até o pescoço e beija a sua face, acaricia a sua barriga esperando o menino chegar. Sua mãe como um anjo brilhando entre as pétalas que curam o pescoço ferido do menino. O menino tira as mãos da mãe do seu pescoço. Eles precisam juntos brincar de passa-anel, rindo até a brincadeira acabar. Quando a brincadeira acaba, a mãe aperta mais um pouco o pescoço dele, aperta, aperta, até que aperte tão forte que os braços fiquem com vontade de abraçar e, assim, a mãe pára de enforcar o menino porque os seus braços abraçam. Um abraço tão bom que o menino nem se lembra mais das mãos em seu pescoço. Ele, que nasceu direto do coração da sua mãe, agora jaz sobre a terra, em companhia de um caroço de maçã. Essa é a cidade de Somos Paulo, onde todos têm o mesmo nome e todos se dizem bom dia.

Por Rita Apoena