sábado, 21 de julho de 2007

Preocupante futuro

Há alguns anos, estava no ônibus quando passamos numa esquina em cujo farol estava uma daqueles pessoas que fazem apresentações para ganharem uns trocados; vendo isso, uma criança, aproximadamente com uns nove anos, virou pra mãe e perguntou: "Mãe, o que é isso? É que nem mendigo, né?"

Achei engraçado a princípio, mas depois me toquei da distorção social contidas naquelas palavras, mesmo - e principalmente - sendo ditas por uma criança.

Hoje no metrô, desce um monte de gente na Sé e um outro monte sobe. Ao ver um banco cinza, reservado para gestantes, pessoas idosas, com criança de colo e com dificuldades de locomoção, uma menininha sentou-se lá inocentemente. Uma outra chegou e disse-lhe: "Sai daí que é lugar pra gente doente".

Preocupante o nosso futuro...

sábado, 14 de julho de 2007

Favola

Quem me dera ser tragado pela terra para depois depois brotar das mais profundas entranhas da terra e emergir de lá em direção ao céu...

E
raccontano che lui si trasformò
in albero e che fu
per scelta sua che si fermò

E stava lì a guardare
la terra partorire fiori nuovi

Così
fu nido per conigli e colibrì
il vento gl’insegnò i sapori
di resina e di miele selvatico
e pioggia lo bagnò

La mia felicità - diceva dentro
se stesso - ecco ... - ecco ...
l’ho trovata ora che
ora che sto bene
e che ho tutto il tempo per me
non ho più bisogno di nessuno
ecco la bellezza della vita che cos’è

Ma un giorno passarono di lí
due occhi di fanciulla
due occhi che avevano rubato al cielo
un po’ della sua vernice

E sentì tremar la sua radice

Quanto smarrimento
d’improvviso dentro sè
quello che solo un uomo
senza donna sa che cos’è
e allungò i suoi rami
per toccarla

Capì che la felicità
non è mai la metà
di un infinito

Ora era insieme luna e sole
sasso e nuvola
era insieme riso e pianto
o soltanto
era un uomo che cominciava a vivere
ora
era il canto che riempiva
la sua grande immensa solitudine
era quella parte vera
che ogni favola d’amore
racchiude in sè
per poterci credere

(E assim será)

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Uma nova chance...

Se quando a única coisa a esperar é o disparo derradeiro, qualquer coisa diferente causará imensa surpresa e espanto, sobretudo quando se trata de que o próprio executor não realizar sua tarefa, virar-se e dizer:

"Vá, você está livre. Pode ir."

E transbordam as interrogações na alma anteriormente condenada. A total incerta liberdade concedida que não se sabe como levar, aonde vai levar, como segui-la, para onde, pois somente se disse "Pode ir".

Só há diante de si a vida. Uma vida que traz em si o peso de não ser merecida, o peso de substituir uma punição necessária, o peso de não exigir a punição merecida e necessária, o peso de aceitar passivamente e tacitamente essa nova vida, o peso de fazer dela, mais que qualquer outra que se recebesse, algo digno de um valor irrisório que seja...

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Hora da estrela

Assim escreveu Fernando Pessoa:

"Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo."


À medida que chega a hora da morte para uma estrela, este é o momento em que seu brilho aumenta até o máximo.
Já passou da hora de queimar tudo, de ficar mirando estrelas que despencarão da abóboda celeste um dia. O fogo deve consumir tudo para que nada reste e então surja uma verdadeira estrela purificada que se eleve alto, que rasgue o infinito cada pulsar ínfimo de seu interior.

E se converta nas linhas seguintes que Pessoa escreveu...

terça-feira, 10 de julho de 2007

A véspera...

"O Olhar

O último olhar do condenado não é nublado sentimentalmente por lágrimas
nem iludido por visões quiméricas.

O último olhar do condenado é nítido como uma fotografia:
vê até a pequenina formiga que sobe acaso pelo rude do verdugo,
vê o frêmito da última folha no alto daquela árvore, além...

Ao olhar do condenado nada escapa, como ao olhar de Deus

— um porque é eterno,
o outro porque vai morrer.

O olhar do poeta é como o olhar de um condenado...
como o olhar de Deus... "

Amanhã terei a possbilidade de atestar a veracidade do que escreveu Quintana...

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Sobre a verdade...

"A verdade é aquilo que todo o homem precisa para viver e que ele não pode obter nem adquirir de ninguém. Todo o homem deve extraí-la sempre nova do seu próprio íntimo, caso contrário ele arruina-se. Viver sem verdade é impossível. A verdade é talvez a própria vida."
Franz Kafka, in 'Conversas com Kafka'

Brilhante o texto de Kafka. A ele nada devo acrescentar.

O foco deste post cairá pretensamente sobre como alcançá-la. (De fato, é muita pretensão que se conheça a resposta a que muitos tentaram chegar aos longo de séculos e nunca o fizeram, ou não o fizeram por perceberem que é algo que não se deve conhecer, ou se trate de uma experiência pessoal intransferível. Somente exporei aqui aquilo em que acredito, o que é verdadeiro para mim)

Numa entrevista que li de Isabel Allende em uma edição da Playboy - as entrevistas até superam as "matérias principais" às vezes -, relatando sobre o golpe de 73 no Chile, a tomada do poder por Pinochet, a queda de seu tio Salvador Allende, enfim muitas mudanças e perdas ao mesmo tempo. Ela afirma que, à medida que se vai sofrendo perdas, o que é supérfluo passa a perder a importância e tem seu real valor revelado.

Estendendo o raciocínio de Isabel Alllende, se o supérfluo é deixado de lado, logo o que resta só pode ser o essencial. Uma outra definição que tive sobre a verdade diz que "é o que continua". Assim é logico que a verdade fica quando se descarta o supérfluo. Sendo a verdade
"aquilo que todo o homem precisa para viver", pode-se chegar à seguinte questão: se, de fato, tentarmos destruir tudo que há dentro nós, sem falsas preservações ou auto-indugência, o que ficará?

"Um homem tem que estar preparado para se queimar na sua própria chama: como se pode renovar sem primeiro se transformar em cinzas?" Friedrich Nietzsche, in Assim falou Zaratrusta.

"Você é o contador de histórias de sua própria vida, e poderá ou não criar sua própria lenda."
Isabel Allende

domingo, 1 de julho de 2007

Olhos que refletem o futuro

Assim escreveu Alberto Caeiro:

"Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido."

Na república em que moro, vive uma cachorra chamada Sophia (com "ph" mesmo, mas isso não a torna ácida), uma rotweiler um tanto bonachona que mesmo tendo comida no próprio prato, sempre aparece à porta da cozinha com uma cara de "pidona" na esperança de que lhe dêem algo pra comer. Mesmo sabendo da manha da esperta, às vezes lhe dou algo pra comer e faço um afago na nuca, algo que adora - isso faz com que eu fique com o cheiro dela nas mãos, inclusive a esta hora, mesmo lavando bem.
Tem outras vezes em que tento distraí-la perguntando "E a bola, Sophia? Cadê a bola?" para que se anime a procurá-la ou eu mesmo a pego do esconderijo dela, a casinha ou um buraco na areia perto dali. Com a bola na minha mão, ela se agita fica pulando à espera do lançamento, e é aí que me divirto vingindo que jogo a bola só pra ela correr à toa - muita maldade isso. Quando jogo a bola de verdade, procuro tomar cuidado pra não jogar numa área do quintal que tenha muitas plantas rasteiras onde ela possa machucar-se, já que sai correndo sempre como um trem desgovernando atrás da bola.
Só que tem vezes, em que ela fica deitada, nem é perto da porta da cozinha e fica com uma cara muito triste. Chego perto e compartilho seu silêncio. E troco de posiçao com ela quando passo a apenas observá-la ao contrário do que ela faz comigo normalmente.
A Sophia é uma cachora que já passou de metade de seu tempo máximo de vida e, penso,talvez seja algo relacionado a isso que faz com que, cada vez mais, ela fique em seu canto, quieta, pensativa, desanimada. Talvez ela perceba, de alguma forma que não compreendamos, a passagem do tempo e como isso a vai afetando. É nesse olhar que me vejo refletido não só no momento em que o miro, mas também no futuro em que isso me projeta: será que ficarei tal qual a Sophia quando tiver sua idade proporcional? Serei uma pessoa animada, com energia para brigar por aquilo que considero certo?
"Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?" questiona Álvaro de Campos. Tomara que a Sophia não tenha tantos pensamentos nebulosos em sua mente.