terça-feira, 24 de julho de 2007

Um novo caminhar

Um: caminha rapidamente pela calçada procurando evitar as poças d'água para que sua calça clara, já manchada pelo molho da hora do almoço, não fique ainda mais suja...

Outro: move-se lentamente, procurando no chão pelo chinelo que perdeu e com o outro nas mãos...


Comum aos dois: o chuvisco constante que cai no começo da noite... mas é para:

Um: uma breve distração que lhe alivia um pouco seus pequenos problemas que dominam seu pensamento...

Outro: talvez mais uma agrura das muitas que já enfrenta todos os dias nas ruas...


Mas Um tem sua atenção chamada pelo choro do Outro, que quer saber onde está o outro chinelo que lhe falta - o outro carrega nas mãos e nada fica em seus pés, entregues ao chão molhado. O choro do Outro não era desses "comuns" (não existem choros comuns): tinha um quê de gutural, de quem parece não estar acostumado ou não sabe chorar.
Um pára, responde ao Outro que não viu qualquer chinelo ali por perto e segue alguns passos adiante com seus passos apressados. O choro mais alto do Outro e a história do homem que reclamava por estar descalço até que conheceu o homem que não tinha pés pararam Um. Voltou, aproximou-se do Outro, esperou que um Terceiro, a quem o Outro também perguntou pelo chinelo, passasse, tirou os sapatos e ofereceu-os ao Outro, que recusou a princípio, talvez por não acreditar, mas se deu conta da oferta, e aceitou.

Um: calado, virou-se e seguiu caminhando, sentindo sob os pés o chão há muito desconhecido para esses mesmo pés...

Outro: pegou os sapatos nas mãos e trocou o choro por um riso bastante alto e grave que se fazia de longe...

Um: estranhava a si mesmo pela repentina atitude, mas não buscava explicações para não recair na vaidade que costuma aflorar em tais situações; nem mesmo buscava no rosto das pessoas com que cruzou no ônibus a percepção ou a reação que se tem a alguém vestido socialmente que aparece descalço...


Mais importante que tudo isso era a chuva que caía e entrava na terra, que guardava a semente que continua na sua luta pra nascer...

sábado, 21 de julho de 2007

Preocupante futuro

Há alguns anos, estava no ônibus quando passamos numa esquina em cujo farol estava uma daqueles pessoas que fazem apresentações para ganharem uns trocados; vendo isso, uma criança, aproximadamente com uns nove anos, virou pra mãe e perguntou: "Mãe, o que é isso? É que nem mendigo, né?"

Achei engraçado a princípio, mas depois me toquei da distorção social contidas naquelas palavras, mesmo - e principalmente - sendo ditas por uma criança.

Hoje no metrô, desce um monte de gente na Sé e um outro monte sobe. Ao ver um banco cinza, reservado para gestantes, pessoas idosas, com criança de colo e com dificuldades de locomoção, uma menininha sentou-se lá inocentemente. Uma outra chegou e disse-lhe: "Sai daí que é lugar pra gente doente".

Preocupante o nosso futuro...

sábado, 14 de julho de 2007

Favola

Quem me dera ser tragado pela terra para depois depois brotar das mais profundas entranhas da terra e emergir de lá em direção ao céu...

E
raccontano che lui si trasformò
in albero e che fu
per scelta sua che si fermò

E stava lì a guardare
la terra partorire fiori nuovi

Così
fu nido per conigli e colibrì
il vento gl’insegnò i sapori
di resina e di miele selvatico
e pioggia lo bagnò

La mia felicità - diceva dentro
se stesso - ecco ... - ecco ...
l’ho trovata ora che
ora che sto bene
e che ho tutto il tempo per me
non ho più bisogno di nessuno
ecco la bellezza della vita che cos’è

Ma un giorno passarono di lí
due occhi di fanciulla
due occhi che avevano rubato al cielo
un po’ della sua vernice

E sentì tremar la sua radice

Quanto smarrimento
d’improvviso dentro sè
quello che solo un uomo
senza donna sa che cos’è
e allungò i suoi rami
per toccarla

Capì che la felicità
non è mai la metà
di un infinito

Ora era insieme luna e sole
sasso e nuvola
era insieme riso e pianto
o soltanto
era un uomo che cominciava a vivere
ora
era il canto che riempiva
la sua grande immensa solitudine
era quella parte vera
che ogni favola d’amore
racchiude in sè
per poterci credere

(E assim será)

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Uma nova chance...

Se quando a única coisa a esperar é o disparo derradeiro, qualquer coisa diferente causará imensa surpresa e espanto, sobretudo quando se trata de que o próprio executor não realizar sua tarefa, virar-se e dizer:

"Vá, você está livre. Pode ir."

E transbordam as interrogações na alma anteriormente condenada. A total incerta liberdade concedida que não se sabe como levar, aonde vai levar, como segui-la, para onde, pois somente se disse "Pode ir".

Só há diante de si a vida. Uma vida que traz em si o peso de não ser merecida, o peso de substituir uma punição necessária, o peso de não exigir a punição merecida e necessária, o peso de aceitar passivamente e tacitamente essa nova vida, o peso de fazer dela, mais que qualquer outra que se recebesse, algo digno de um valor irrisório que seja...

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Hora da estrela

Assim escreveu Fernando Pessoa:

"Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo."


À medida que chega a hora da morte para uma estrela, este é o momento em que seu brilho aumenta até o máximo.
Já passou da hora de queimar tudo, de ficar mirando estrelas que despencarão da abóboda celeste um dia. O fogo deve consumir tudo para que nada reste e então surja uma verdadeira estrela purificada que se eleve alto, que rasgue o infinito cada pulsar ínfimo de seu interior.

E se converta nas linhas seguintes que Pessoa escreveu...

terça-feira, 10 de julho de 2007

A véspera...

"O Olhar

O último olhar do condenado não é nublado sentimentalmente por lágrimas
nem iludido por visões quiméricas.

O último olhar do condenado é nítido como uma fotografia:
vê até a pequenina formiga que sobe acaso pelo rude do verdugo,
vê o frêmito da última folha no alto daquela árvore, além...

Ao olhar do condenado nada escapa, como ao olhar de Deus

— um porque é eterno,
o outro porque vai morrer.

O olhar do poeta é como o olhar de um condenado...
como o olhar de Deus... "

Amanhã terei a possbilidade de atestar a veracidade do que escreveu Quintana...

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Sobre a verdade...

"A verdade é aquilo que todo o homem precisa para viver e que ele não pode obter nem adquirir de ninguém. Todo o homem deve extraí-la sempre nova do seu próprio íntimo, caso contrário ele arruina-se. Viver sem verdade é impossível. A verdade é talvez a própria vida."
Franz Kafka, in 'Conversas com Kafka'

Brilhante o texto de Kafka. A ele nada devo acrescentar.

O foco deste post cairá pretensamente sobre como alcançá-la. (De fato, é muita pretensão que se conheça a resposta a que muitos tentaram chegar aos longo de séculos e nunca o fizeram, ou não o fizeram por perceberem que é algo que não se deve conhecer, ou se trate de uma experiência pessoal intransferível. Somente exporei aqui aquilo em que acredito, o que é verdadeiro para mim)

Numa entrevista que li de Isabel Allende em uma edição da Playboy - as entrevistas até superam as "matérias principais" às vezes -, relatando sobre o golpe de 73 no Chile, a tomada do poder por Pinochet, a queda de seu tio Salvador Allende, enfim muitas mudanças e perdas ao mesmo tempo. Ela afirma que, à medida que se vai sofrendo perdas, o que é supérfluo passa a perder a importância e tem seu real valor revelado.

Estendendo o raciocínio de Isabel Alllende, se o supérfluo é deixado de lado, logo o que resta só pode ser o essencial. Uma outra definição que tive sobre a verdade diz que "é o que continua". Assim é logico que a verdade fica quando se descarta o supérfluo. Sendo a verdade
"aquilo que todo o homem precisa para viver", pode-se chegar à seguinte questão: se, de fato, tentarmos destruir tudo que há dentro nós, sem falsas preservações ou auto-indugência, o que ficará?

"Um homem tem que estar preparado para se queimar na sua própria chama: como se pode renovar sem primeiro se transformar em cinzas?" Friedrich Nietzsche, in Assim falou Zaratrusta.

"Você é o contador de histórias de sua própria vida, e poderá ou não criar sua própria lenda."
Isabel Allende